Como eu vim parar aqui?

É tipo aquela cena de “Eduardo e Mônica” do Legião Urbana. O Eduardo que só levava aquela vida certinha fica achando a festa estranha e aquela gente toda esquisita. Possível que ele tenha pensado “como diabos vim parar nessa situação.”

À essas alturas já perdi as contas de quantas vezes eu estava no trabalho, parecia fora do meu próprio corpo, olhando tudo que se passava na minha frente (eu era professora de crianças pequenas, então, belive me, era tipo “Onde está Wally?”) e me perguntando “como foi que isso aconteceu? quando foi que me tornei essa pessoa? em que lugar do caminho eu esqueci de mim mesma e me adaptei tão facilmente à isso tudo?”.

Existe uma pegadinha nessa vida que se chama ego. Ele é aquela vozinha em alguma das suas orelhas te dizendo “seja alguma coisa que você acha que DEVE ser e sinta-se muito importante depois de cumprir todos os seus DEVERES”. É a parte que garante que vamos ficar seguindo o script custe o que custar.

Só que, cada vez menos raramente, a gente sente um apertinho ali no lugar do coração. Às vezes na boca do estômago. Quer alguma coisa que não sabe o que é. Começa a ler umas coisas perigosas. Participa de retiros, vivências, partilhas. Experimenta umas sensações de prazer lá do fundo da alma. Daquele tempo que gargalhava solto quando tinha não mais do que quatro anos.

Aí o eguinho vai lá e diz “Fica quieto aí e taca ficha no serviço meu filho!”. Você fica obcecado com certas coisas. Já que a vida é isso, então eu DEVO ter alguma razão pra fazer tudo isso. Quem sabe eu TENHA que trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas, por que isso vai realmente significar que eu sou importante e bem sucedido. Quem sabe eu PRECISE transformar meu ambiente de trabalho, dizendo as pessoas o quanto tudo está errado e como todos deviam fazer tudo diferente para otimizar, aprofundar, melhorar as práticas. Ou então eu DEVA limpar, organizar, preparar, revisar, me ocupar e ocupar para que todos percebam o quanto eu realmente sou fundamental. Êta egotrip louca!

Mas, se você já tocou a casa preciosa da sua alma, garanto, é quase impossível voltar aos velhos trilhos. Você fica sacolejando enquanto o trem anda, totalmente sem lugar. “Que é que eu tô fazendo aqui?!”.

Aí é que são elas. Não tem ninguém pra te responder. Não tem. Esquece. Não tem mestre, guru, santo iluminado que vá te dizer o que fazer. Foi isso que fiz em 2018. Tinha que ter uma resposta pra essa sensação. Era mudar de trabalho, era mudar de casa, era mudar de cidade. Socorro! Alguém me manda o roteiro do filme que eu tô completamente fora da marcação de cena!! Minha alma ouviu, eu acho, e me deu um enorme pezão na bunda. Vai, criatura, e pára de incomodar!

Foi um pouco como quando fiz arvorismo. Muito medo de altura. Eu já tinha refugado uma vez. Na segunda visita ao mesmo lugar eu tinha que enfrentar a situação. Seria importante. Quis ir primeiro. Fiz a travessia naqueles postes, cheios de cabos e cordas em tempo recorde! Só não corri por falta de superfície. O vídeo é hilário, garanto. Fato é que ao final da travessia tinha uma tirolesa. Tinha uma tirolesa no final da travessia. Era mais alta. Pra mim, bem mais alta. Nem fiquei de pé na plataforma. A galera fazendo selfie e eu só queria descer de uma vez. Feliz com a conquista já feita até ali. Quando o monitor me chamou eu fui engatinhando até a beira da plataforma, rezando pra todos os santos que a m…. daquela corda estivesse bem presa, que se fosse a minha hora eu desmaiasse no caminho do chão. Olhei para o cara e pedi “tu me empurra faz favor, por que não vou pular não.” Fui de bundinha até a beirada e ele tocou minhas costas. Eu estava de olhos fechados e num átimo senti meu corpo solto no espaço. Solto e caindo. A velocidade aumentando e eu gritando como nunca. Abri os olhos. Me vi a metros do chão. Calafrio na espinha só de lembrar. Mas, eu precisava abrir os olhos por que não dá para seguir a vida por seguir. Também não dá pra se jogar e perder a paisagem do voo.

Estou nesse exato momento. Tomei o empurrãozinho meio inconsciente. Abençoado seja! Mas agora é que não vou perder de viver com os olhos bem abertos. Quer uma dica? Apenas pare de se perguntar. Não importa como você veio parar aqui. Só abra os olhos.

 

5 comentários

  1. Das loucuras da vida que deixa a gente sem tempo para ser e fazer o que tem vontade, portanto somente agora li com calma teu texto. É lindo! É inspirador! É emocionante! É a Bruna em sua essência mais pura e ao mesmo tempo mais calejada pela vida. Parabéns!

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  2. Pingback: Jornada

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