Desaparecer

Depois que o site foi ao ar encontrei um baita problema. Travei. Me peguei dando voltas e voltas em torno do que eu escreveria essa semana. Eu estava em êxtase. O site tinha ido ao ar, enfim! Tudo estava fluindo conforme eu havia esperado, só que travei. Fiquei em torno do próprio rabo pensando em qual temática abordaria. Eram tantas ideias, tantas coisas que estava vivenciando. Fazia anotações, pensei em planejar alguns temas iniciais…e aparecia um medo, aquela vozinha começando a soprar tem certeza que você dá conta? E se você falar tudo, não haverá mais nada para dizer! Esse texto vai ficar ruim, claro! Não solte tudo de uma vez.

Em 2016, quando estava a caminho de São Paulo para o lançamento da antologia do curso de escrita criativa, postei um texto do Osho no Facebook. Dizia algo mais ou menos assim: antes do rio mergulhar no oceano ele treme de medo, olha para a jornada que percorreu até ali e vê à sua frente uma vastidão em que ele desaparecerá.  Naquele momento eu estava em pânico. Era o avião, a cidade, a noite de autógrafos. Será que o rio estava pronto pra ser oceano? Acontece que aquele texto voltou à minha mente, querendo me dizer alguma coisa de novo. Sabe quando lemos algo uma segunda vez e parece que enxergamos coisas que nem tínhamos visto antes? Fui fisgada pela ideia de que o rio tinha medo de desaparecer.  

Sentei na frente do computador, coloquei umas músicas e tentei deixar fluir. Não como uma escrita que vai jogando tudo pra fora, mas queria entender um pouco o porquê estava travando. Afinal de contas, do que se tratava tudo isso? Na lista aleatória do YouTubeMusic tocou “Landslide” do Fleetwood Mac. Só fechei os olhos, quando me dei conta. Pode a criança dentro do meu coração se erguer ainda mais? Será que eu posso navegar através das mudanças de marés do oceano? Eu posso lidar com as estações da minha vida? Bem, eu tive medo de mudar, porque construí minha vida ao seu redor. Mas o tempo te deixa mais ousado, até as crianças envelhecem e eu também estou envelhecendo.

Construí minha vida ao redor de alguém que eu acreditava que existia. Era tão real, tão palpável. Se você não existir mais, o que eu faço? Abraçar tudo isso, mergulhar de cabeça no oceano que se desnuda a minha frente é deixar de ser tudo que fui até aqui. É me desfazer do EU que construí e tentar navegar pelas marés desses novos mares. A persona em torno da qual eu construí a minha vida, aquela que me fazia sentir sempre fora do tempo, fora de lugar, incapaz, insuficiente, aquela Bruna que passou por tantas crises de ansiedade, afogada em redemoinhos de pensamentos, tentando ir à superfície para verificar se algum dia isso teria fim, se algum dia seria feliz, aquela moça estava desaparecendo. Pode parecer que foi ontem ou que tenha exclusivamente a ver com a jornada dos últimos três meses – a jornada da escritora – mas esse rio é bem mais antigo e eu honro profundamente o entendimento que tenho hoje do quanto caminhei até aqui. Não houve mágica, nenhuma transcendência imediata, nem insight revelador – apesar de ter desejado muito as resoluções milagrosas. São as estações da vida e provavelmente haverá muitos outros invernos – e verões também!

Você já preparou uma muda? Nas que fiz até hoje aprendi a usar quase sempre o mesmo procedimento. Retirar as folhas de uma boa parte do raminho, deixando apenas o topo. Perder folhas sinaliza para a planta que ela deve expandir as raízes. É preciso despir-se, limpar, soltar, abrir espaço para, então, construir um novo começo. Para brotar em um novo lugar, para vicejar uma nova existência. A essência permanece. Estava ali o tempo todo, inclusive, mesmo quando não estávamos muito atentos e vai despontar de maneira vibrante com um pouco de cuidado. No entanto, o desnecessário precisa ir.

Enquanto escrevia a música trocou e começou “Here comes the sun” do Beatles. Dei uma risada, levantei os olhos da tela do computador e mirei a parede a minha frente. Era sobre felicidade. Eu estava tremendamente feliz, sentada no meu escritório olhando para parede em meio à minha escrita. Eu estava travada porque estava feliz, a velha Bruna não conhecia esse lugar. Fim de tarde e o sol esta mais para despedida do que para chegada. Mas aqui dentro de mim tem um sol. Um sol e eu estou feliz com ele. Esse sol que derrete toda a montanha gelada. Essas avalanches que vão carregando o desnecessário, deixando a mostra os cadáveres do passado, deslizando e voltando a ser água que corre por entre os vales, que volta a ser rio, que nutre o caminho, alimenta peixes, plantas, transforma pedra em areia. Que é tudo isso e não é nada disso e só segue. Para ser oceano, ser gota.

4 comentários

  1. A tua escrita é inundada pelas tuas emoções. Fico emocionada em ler e imaginar o processo, conhecendo o teu jeito e a tua alegria (e desespero) em se colocar no mundo através das palavras eternizadas no site.
    Cada palavra absorvida com muita felicidade por ti.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe uma resposta para Bruna Giordani Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s