Expectativa e frustração. Cem metros e maratona.

Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything’s okay and everything’s going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything’s gone wrong and everything blows up in your face

(Ironic, Alanis Morissette, sempre tem uma música que toca né?)

Redemoinho de procrastinação e resistência. Eu não sei como essa semana foi para você, mas, para mim, foi meio meleca. Sabe? Aquelas semanas enroladas em que nada sai conforme a gente desenhou e fica uma sensação de frustração? Eu estava assim, até começar esse texto. Não adianta, a escrita sempre acaba me salvando! Escrever é terapêutico, faça isso pela sua sanidade mental, é lindo! Vai lá, faz um diário, semanário, algo do tipo. Escreve tudo que se passa aí dentro, tudo mesmo. Ufa. Dá um alívio igual fazer xixi quando estamos super apertados, sabe?!

Voltando! Quando eu fazia terapia meu psicólogo costumava me dizer que frustração vem de criarmos expectativas. Quem não cria expectativas não se frustra. Foi uma das melhores coisas que aprendi. Quando fico muito frustrada penso em que expectativas criei. Elas eram realistas? Eram relevantes? O que aconteceu no lugar do que eu pretendia é tão péssimo assim? Soltar as expectativas é abrir espaço para o que a vida traz. Posso não ter cumprido as expectativas que me impus essa semana, mas agora me dou conta de quantas coisas lindas aconteceram no lugar.

Almocei com minha irmã. Falávamos um pouco sobre essa sensação da semana melequenta e sem direção. De jeitos diferentes, nós duas estávamos nos sentindo assim. Disse pra ela do quanto era complexo estar completamente comigo mesma, com minha escrita, dia a pós dia em uma imersão de autoconhecimento nível super-hard. Então minha irmã lembrou de quando fez seu “ano sabático”. Oito meses viajando sozinha, estando ela com ela mesma nas belezas e durezas de uma viagem e o quanto isso foi de transformador à enlouquecedor à transformador de novo. Lembramos de quantas pessoas diziam que aquilo que ela estava fazendo era “pra quem pode” e como agora eu também escuto essa expressão. A ideia normalmente está em torno do dinheiro. Falamos por dez segundos sobre o fato de as pessoas deletarem a trajetória de economias e muito trabalho. Depois chegamos à conclusão de que, sim, é para quem pode. Mergulhar profundamente dentro de si mesmo exige um trabalho para o qual nem sempre estamos preparados. Ficar sozinho consigo mesmo, questionar a sua própria existência, sua formação profissional, seu lugar no mundo, o lugar do trabalho, do dinheiro, das relações que temos, do que gostamos, do que temos talento ou não para fazer. Perder as referências que fomos ensinados a ter: instituições, chefes, horários, salário. Lidar com os julgamentos, as críticas, as elucubrações de quem olha de fora. Enfim, isso é pra quem pode, mais ainda, é para quem realmente quer.

As pessoas adoram aquele texto sobre cuidar do jardim para atrair as borboletas mas, basta alguém parar, no meio da tarde, para podar uma roseira ou regar um girassol que um louco em um carro do ano, dirigindo acelerado, pensa “isso aí é pra quem pode, eu não tenho tempo pra ficar regando plantinha”.  Raramente estamos dispostos a cuidar do tal jardim que não traz segurança e sucesso imediatos. Mas, é real que as borboletas vêm. Se minha semana não cumpriu alguma expectativa que coloquei para o meu trabalho ela trouxe outras alegrias: passei a tarde com amigas que eu amo, almocei com minha irmã, comemorei o aniversário da minha sogra, tive uma conversa reveladora com meu marido, recebi uma oferta de trabalho e iniciei os esboços de um projeto que acabou de cair de paraquedas na minha vida.

Almoçar com minha irmã me lembrou de como é bom ter alguém que está contigo desde o início da sua vida, recebeu os mesmos valores que você, foi educada pelas mesmas pessoas, conhece toda a sua trajetória. Dá pra aprofundar mais as questões e rola um “transmimento de pensação” como nós duas costumamos falar só entre nós, porque irmãs tem dessas coisas.

Celebrar o aniversário da minha sogra fez eu lembrar de como sou grata pela vida da mulher que deu a vida ao amor da minha vida. Ter tido uma conversa reveladora com meu marido me fez perceber tudo que eu já fiz até aqui. Eu tinha terminado um desses dias frustrada com minhas um milhão de expectativas. Tomando um café no final da tarde com ele, disse o quanto estava com medo de não concluir os projetos que tinha me proposto, do quanto sentia que não estava produzindo tudo que devia. Ele com as poucas, diretas e retas palavras me disse: “olha, eu só acho, assim, só acho, que alguém que tem um livro sendo produzido e que vai ser publicado no meio do ano não está “sem fazer nada”.

Eliud Kipchoge, campeão da maratona olímpica Rio 2016. Crédito da foto: Matthias Hangst

Aí caiu a ficha de como precisava valorizar muito as minhas conquistas, pegar mais leve comigo e me dar conta de que nossa lógica de “produtividade” está muito relacionada ao curtíssimo prazo. Todo mundo adora o Usain Bolt (ex-velocista olímpico) e nem fazemos ideia de quem é Eliud Kipchoge (maior maratonista olímpico da atualidade – e dois anos mais velho que o Bolt, que já se aposentou). Fico achando que nossos sonhos são ganhos com muito mais cadência e resistência do que com força e explosão (claro que tem momentos em que os sprints são necessários). Dificilmente enxergamos os resultados de anos de mudanças, transformações pessoais, dinheiro economizado, cursos, aulas, diálogos, filmes, leituras. Queremos sonhos realizados no fast food, só que o tomate plantado no jardim – que demora mais de um mês para ficar pronto – tem um sabor bem diferente.

A foto da menina regando as plantas está em http://hmjardins.com.br/4-dicas-cuidar-plantas-verao/ um site cheio de dicas sobre jardinagem hein!?

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