ÁRVORE

Hoje me acordei com sons de motosserra. Vez ou outra, entre meus afazeres, olhei pelas janelas do apartamento em busca da árvore que estava sendo cortada. Quem sabe não fosse o caso, quem sabe fosse apenas uma poda necessária, quem sabe fosse outra coisa sendo cortada. Estendendo a roupa, segui novamente o som que retornou depois do almoço, disse em voz alta “vem de lá” e assim que disse um enorme galho da copa despencou.

Devem achar algo muito idiota, mas sempre me dá algum tipo de dor ver uma árvore sendo derrubada. Tenho uma coisa com as árvores. Pequena, tinha um espanto delas, daquelas enormes. Sentia como se fossem seres gigantes e monstruosos. Lembro-me nas viagens de carro até a praia, ou até a casa da minha nona, quando já era noite e as beiras das estradas, densas de árvores, me apavoravam. Tinha uma impressão tão real de que dali sairiam seres obscuros. Ainda assim, meus olhos não saíam delas. Um pouco mais velha aprendi a assustar os mais novos com histórias tenebrosas de bruxas em florestas. E mentia sobre os seres que eu via. Melhor era deixar os outros assustados do que viver sozinha com meus monstros.

Voltando à árvore que esperançosamente, eu acreditava, não seria derrubada, me coloquei a admirá-la. Ali, já espremida entre prédios, parece que ainda lhe achavam inconveniente. Quando olho árvores grandes penso em todo o trabalho. Quanto tempo carregando o sol para suas células. Quanto tempo para perseguir a luz com cada galho. Tolkien escreveu no seu Senhor dos Anéis sobre os Ents. Seres que falam em outro tempo. Uma pequena frase leva horas para ser dita. É o tempo das árvores. Elas vivem em outro tempo, muito diferente do nosso. É por que somos tão efêmeros, tão passageiros que achamos lentos os seres milenares. Não compreendemos as montanhas, nem as conchas que virarão areia fina na praia. Sequer as árvores, que são tão mais velozes. A araucária leva trinta anos para dar o primeiro pinhão. É rápido para a montanha. Mas, uma vida para um ser humano. Quem sabe seja por isso que nos tornamos incapazes de nos conectarmos com esses monstros de outro mundo. Escuto a motosserra insistente, penso ainda em como lutam as árvores, frente ao metal, veloz, contundente. Regozijo-me em ao menos saber quantos homens e quantas lâminas são necessários para abater o gigante. O tempo ainda se faz presente. Um dia todo para derrubá-la. É rápido. Um átimo na vida da árvore. Mas, um dia todo de trabalho humano, de energia elétrica, de cordas para puxar, de caminhões e combustível para carregar seus pedaços. Ela resiste.

Costumamos achar tudo tão trabalhoso. É tanto serviço, é tanta correria. Tudo tão rápido. Não nos toca os, pelo menos, quarenta anos que leva para chegar aquela altura. Fala-se em crescer, em desenvolvimento, mas não se olha as raízes profundas, não se repara nos galhos velhos que encorpam vagarosamente com o passar das décadas. Um prédio sobe em menos tempo. Mas esquecemos dos tempos das muitas vidas que fazem crescer um prédio.

Resolvi fotografar. Olhei por essa janela, por onde já olho há trinta anos. Quis fazer um retrato de cada árvore. Quis dizer-lhes (na língua dos Ents) que eu as conhecia há muito. Que me lembrava de acompanhar seu tamanho no horizonte. Que vi algumas irem ao chão e dessas não haveria registro.

Mas que vi também essa enorme amiga que sempre encheu minha janela, ser atingida por um raio e ter sua copa majestosa rompida ao meio. Quisera poder lhe tocar e dizer o quanto admiro seu trabalho de cinco anos voltando a crescer e preencher de folhas o espaço vazio arrebatado pela tempestade.

Contar à araucária que assisti a poda cruel que lhe fizeram, descaracterizando sua copa tão peculiar – porque as pinhas caem e estragam os telhados.

Eu devo mesmo ser muito piegas. Meio boba, inocente, sonhadora, sem noção. Já ouvi tudo. É porque me detenho nas árvores. Deve ser. Vou seguir me doendo com sons de motosserra. Só porque prefiro viver um pouco o tempo das montanhas, das conchas e dos galhos em busca do sol.

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