Cartas para parir

Eu amo as palavras. Falar principalmente. Escrever quase tanto quanto. Esse ano eu tirei pra mim, pra minha alma, uma espécie de ano sabático, mas com viagem pra dentro e não pra fora. Reorganização de rota. Desenhei, planejei, pensei, me joguei (um pouquinho), criei um site, um blog, lancei um livro. Plantei árvores. Fiz um filho. Uma filha, na verdade. Não estava no plano, apesar de estar no desejo. Fiquei sem palavras. Sim, quase nove meses sem saber bem o que dizer, o que escrever. As palavras são meu amor, mas são minha dor também. A roseira balança um pouco e parece que elas somem. É uma coisa engraçada essa de se jogar de paraquedas pra vida, porque tem um cantinho do ego que nos pega e diz que estamos nos soltando “uhuu, que legal”, mas que ainda podemos ficar no controle. Só que não. Nunca. Egoicamente teve um ladinho meu que organizou, pensou e acreditou sim que estava se jogando na vida (mas tudo sob controle). Então a Luíza chegou, assim sem avisar, sem mandar email antes. Nem whatsapp ela mandou. Cara de pau. Implodiu meu planejamento. “O que eu faço agora meu deus do céu?” Na pegadinha do predador da psique (leiam “Mulheres que correm com lobos” fazer o favor!) que estava ali só espreitando, logo vem a enxurrada mental de: pqp onde eu fui me meter?! Eu tinha um mapa tão bonitinho, eu sabia tudo que ia acontecer, e agora?!  Kkkk…gargalha a mulher selvagem dentro da minha mente: amadinha…quando foi que tu pensou que estava no controle da vida?! Ledo engano, soltar e achar (bem lá no fundinho escondido) que ainda está segurando alguma partezinha. Fiquei aí, meio barata tonta sem escrever meus textos semanais, sem dar conta do instagram, e me chicoteando por isso, não é mesmo? Mas, fazendo lista de enxoval, arrumando isso e aquilo, olhando pela janela feito doida tentando visualizar o futuro sem noção nenhuma do que ia acontecer. Com raiva de pedir ajuda, espantada com o tamanho dos meus peitos, com choros compulsivos e sem motivo aparente (ou logo depois de olhar o tamanho dos meus tornozelos), com prazer imenso de andar pela rua e “mostrar” pra Luíza que o mundo é “bão Sebastião”. Fiz um chá de bebê que teve uma roda de mulheres. Sim, eu abri aleatoriamente o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”e li um trecho em voz alta. Capítulo sobre a sexualidade sagrada. Pois é! Enquanto isso a mulherada pintava minha barriga, escolhia pedras naturais que iriam compor uma pulseirinha de bençãos para minha pessoa usar e sentir essa energia feminina da roda durante o nascimento.

Além disso, escreviam uma mensagem para o nascimento da Luíza e deixavam num envelope para que eu lesse perto do parto. Cá estou eu, finalmente, me aproximando do portal vida-morte-vida. Peguei os envelopes e comecei algumas leituras. Claro que já chorei. De espanto, mais do que tudo. Gente, o que as mulheres são capazes de escrever! O quanto um momento desse é capaz de ir lá no fundo da alma da gente! Ah as palavras! Me lembrei delas, de como são capazes de nos transportar para o coração daquele ser que deixou uma mensagem, como telepatia. A força dessas cartas, o conteúdo poderoso, nutritivo, mágico e encantado, gente! Vem de nós mulheres! De uma roda, da nossa força, do nosso nascer e renascer! Bebi nessa fonte, nesse leite materno de amor, acolhimento, carinho e poder. E quem resolveu aparecer? Palavras! Somos matrioshkas, bonecas dentro de bonecas, uma dentro do útero da outra, uma fortalecida pela força da outra. Gratidão eterna às mulheres que fizeram parte dessa roda, que fazem parte da minha jornada. Eu e Luíza seremos para sempre muito gratas!

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s