Gente determinada à amar!

“amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração…”

Recebemos essa visita na sexta-feira. Eles vieram no carro – eu soube depois – fantasiando que ficariam por uma horinha – que, supostamente, é o tempo que se deve ficar nas visitas à recém-nascidos. Eles subiram as escadas cochichando e lembrando uns aos outros de que deviam falar baixinho porque, supostamente, é o que se faz em ambientes com recém-nascidos. Eu louvo todas essas “regras”, provavelmente elas devam ser cumpridas mesmo pelas pessoas de maneira geral nesse tipo de visita. Mas, é claro, eles ficaram bem mais que uma horinha e nós falamos alto e demos gargalhadas, que é uma das coisas que fazemos de melhor juntos! Luíza permaneceu incólume. Dormindo ou mamando. Afinal, ela agora já conheceu de perto essa família que é meio minha também. Não. Que é nossa família também. Que não é de sangue…não. É de sangue sim! Porque são amigos que nos enchem de vida, de energia, de vibração de amor e conexão. Isso só pode estar no sangue!

Não nos damos conta do quanto estamos na vida dos outros, não é? Vinte sete anos, a Renata falou. Vinte sete anos juntos e eu tenho trinta e três. Sabe o que significa isso? É tempo pra ca…lho e eu nunca tinha me dado conta de que passei mais tempo com essas pessoas na minha vida do que sem elas. A Renata é essa mulher linda segurando a Luíza no colo. Essa mulher que era uma menina e que foi responsável por dar início à esses vinte e sete anos de amizade. Sim, ela! Determinada, chega chegando, com esse coração imeeenso que tem. Ela que vinha todo dia me chamar no murinho da casa da praia. E eu, que só tinha seis anos mas já tinha a lua em peixes às vezes me perguntava – nunca contei pra ninguém – “ela tá mesmo me chamando de novo? Nossa, eu acho que ela gosta mesmo de mim!”. Eu tinha dificuldade de assumir que aquela estranha gostava mesmo de brincar comigo, todo santo dia, durante um verão inteirinho de férias na praia. “Brunaaaa” ela gritava lá na frente da casa. E nós saíamos a catar graminhas, pedrinhas, florzinhas e todo tipo dessas pequenices da infância pela rua. Minha bicicleta era a moto que eu pegava para ir até o mercado e quando voltava nós cozinhávamos coisas, preparávamos perfumes! No pátio dos fundos da casa, desenhávamos apartamentos e suas mobílias e circulávamos de um espaço para o outro cheias de compromissos e sonhos.

Minha mãe não gostava muito que eu fosse brincar no apartamento deles, tinha medo de que eu fosse atrapalhar. Possivelmente uma das coisas mais importantes que eu tenha aprendido com eles – mas a que levou mais tempo para aprender – é de que amigo não atrapalha! Então, era inevitável, às vezes eu estava lá, dentro do apartamentinho, “atrapalhando”! Tomando banho de piscina – daquelas de mil litros eu acho, que lota com três crianças dentro! – e imaginando que era uma sereia junto com as gurias. Às veze eu embarcava nos passeios deles, nas dunas, nos bailinhos de carnaval de Salinas. Eu sempre admirada com aquele jeito deles de gargalhar e tirar sarro uns dos outros sem parar.

Minha família parece ter se esforçado nesses anos todos em não atrapalhar, mas eles não deixaram. Continuaram vindo no “murinho” e gritando pelo nosso nome, determinados em gostar da gente. Não por acaso essa trupe trouxe na visita um presente-mensagem para a mãe puérpera: “se eu pudesse lhe dar alguma coisa na vida eu lhe daria a capacidade de ver a si mesmo através dos meus olhos. Só então você perceberia como é especial para mim.”

Nossa amizade visitou essa infância de praia, que nunca se via durante o ano. Atravessou a adolescência. A introspecção, a fúria, a tristeza. As distâncias que nunca pareciam existir quando estávamos novamente juntos na beira da praia, tomando chimarrão e tentando compreender essa ideia de existir, de viver. Nos vimos mudando de casa, de cidades, de cursos na faculdade, de trabalho, de amores. Nos conhecemos sempre em mutação. Metamorfoses ambulantes somos, nessa nossa amizade sem paradeiro, mas sempre no coração.

Luíza teve a benção, a alegria, a graça de conhecê-los antes de quaisquer outros amigos da família. E isso é longe de ser uma mensuração de amizade. É só um sinal aleatório da vida para que ela, tão pequena, tão dormindo e mamando e tentando se adaptar a tudo isso, que ela tão somente já saiba que os Figueiró estarão assim, pertinho-longe, sempre nas nossas vidas! Conectados pelo sonho, costurados nas teias das nossas almas, dos nossos corações. Assim de longe, despertando às vezes apreensivos, às vezes esfuziantes. Pensando e lembrando de um jeito querido e apaixonado dessa amizade-vida que passa. Nos atravessa, nos carrega para o fundo e nos devolve para a beira como é o mar, a praia, a água salgada que sempre amarrou essa amizade. Esse nosso tesouro guardado a sete chaves.

PS: Atlanta não tem praia…mas ouvi dizer que tem um dos maiores aquários do mundo. Acho que deve servir para nós, com um chimarrão tudo se ajeita!