Jornada

O texto de abertura do blog, escrito em 2019, chama-se “Como eu vim parar aqui”. Eu muito quis achar esse lugar que a gente chega. E para. E encontra a tal felicidade. Em 2007, meu psicólogo disse que eu tinha uma tendência de querer encontrar a grande cura (da ansiedade, da depressão). Me agarrava a cada nova possibilidade como se aquilo fosse transformar tudo do dia para a noite. Floral, acupuntura, reiki, corrida, ballet, ômega 3, passe, Osho, meditação, yoga. Uma nova esperança de voltar a ser quem eu era, de tudo voltar ao normal.

O psicólogo vivia me dizendo para escrever. Seria um jeito de deixar os monstros saírem. Quando estava insuportável eu fazia. Pegava qualquer papel que visse pela frente e rabiscava sem parar, tipo psicografia do Chico Xavier. Drenava aquela energia toda, dobrava bem aquela coisa pavorosa e guardava em algum canto de alguma caixinha perdida do armário. Foi só em 2013 que eu comprei o primeiro caderno. Eu já não fazia terapia há uns três anos, não tinha mais o psicólogo me dizendo para escrever, mas eu sabia que precisava fazer algo além de só vomitar meus monstros. Escrevi na primeira página:

A JORNADA

Decidi comprar um caderno, sabia onde ia comprar, como ia ser. Esse caderno servirá para registrar a minha jornada. Já fiz algumas, mas essa decidi registrar. Um lugar só meu para botar tudo pra fora. Qualquer pensamento, dúvida, reflexão, sem vergonha ou julgamento (dentro do possível).

Essa era eu em 2013 e o caderno segue até 2014. Alguns dias escritos a fio, depois meses de silêncio. Muitas reflexões, diálogos mentais, dores emocionais, mas…tem trechos de capítulos, rabiscos de ideias. Foi sem dúvida a primeira vez que eu comecei a estruturar escritas, possibilidades de histórias, ideias de livros.

O nome que dei para o caderninho é o primeiro registro que tenho dessa ficha que caiu. Levou quase sete anos para finalmente assumir que não havia um lugar para chegar. É o tal do caminho que se faz caminhando. Nada seria um divisor de águas. Nada do que buscava, encontraria do dia para a noite. Ao mesmo tempo, tudo que eu tinha feito até ali era parte da minha cura. Tudo aquilo era o combustível que me mantinha em movimento, buscando, enxergando melhor, percebendo novas facetas da minha vida. Eu não estava chegando a lugar nenhum, eu estava em uma jornada.

Quando comecei o blog, todo o tempo eu tinha em mente que seria “A Jornada da Escritora”. Eu sentia que precisava me autorizar, dizer em voz alta: eu sou escritora. Mas jornadas não são estradas largas, de tijolinhos amarelos e florezinhas multicores nas bordas. São umas trilhas tortuosas, meio escuras, às vezes um sobe e desce danado, às vezes é uma correria sem fim ou um passo leve e lento de cada vez.

Me propus a partilhar minha jornada, mas no fundo, queria mostrar uma viagem limpa. Bem resolvida. Organizada. Podia dizer diferente, mas essa era a verdade. Eu não queria me colocar por inteiro. Quem ia querer saber? Qual o objetivo? Descobri que estava grávida. Pronto. Eu sabia que não queria, definitivamente, falar sobre isso. Agora todo mundo é #maternidadereal. Eu nem sabia ao certo se eu queria filhos! Eu deveria saber! Como ia falar de algo que não sabia? Minha psicóloga dizia ao final de cada sessão “escreve lá no teu blog sobre isso! Fala de tudo que tu tá vivendo e sentindo”. Aaaff meu predador da psique não permitia. A verdade é que gosto de falar das coisas. Não de mim. No fundo eu não quero falar da minha jornada nua e crua, mas sim de algo sob controle e objetivo.

Acho que em 2011 ou 2012, minha irmã me presenteou com um mapa natal – entregue em uma sessão com o astrólogo. Foram muitos elementos para pensar, mas algo ficou pendurado muito tempo. O astrólogo disse “tu tens um problema com autoridade.” Eu ri achando meio óbvio. Claro! A rebelde. Mas ele completou: “não é tanto com autoridade dos outros e sim um problema em exercer a tua autoridade. Quem tu é? Tu te misturas muito com o coletivo”. Fiquei sem entender lhufas por anos.

Eu adoro a astrologia como fonte de autoconhecimento. Sim, sou dessas, e bem…eu tomo floral, faço acupuntura, reiki, evangelho no lar, tomo passe, medito, faço yoga e só minha Lua em Peixes poderia explicar isso. Voltando. Li recentemente sobre os nodos lunares no meu mapa astral. O tal do nodo norte também é conhecido como Ascendente Cármico, é uma espécie de guia evolutivo mostrando o que deveríamos desenvolver nessa existência. Descobri que o meu é em Áries e li isso: … há uma necessidade de recuperar sua identidade ao longo da vida, ou até mesmo encontrar uma identidade só sua. Quando você realmente descobrir e desenvolver sua individualidade, o seu EU mais primitivo, parte de sua evolução estará definida. Toma essa Bruna.

Meu nodo norte em Áries está na casa 3, a casa da comunicação. Kíron – que representa nossa ferida – está em Gêmeos. Comunicação, de novo. Meu Sol também é geminiano. Minha voz é meu norte, minha luz, minha ferida aberta que precisa ser curada. Não tem saída. Nem escapatória. Preciso aprender a expressar minha autoridade. Meu EU. Quem eu sou através da minha voz, da minha escrita, da minha comunicação. Não é sobre as coisas. É sobre mim. Puuut…

Os últimos meses me trouxeram a vivência mais intensa e doida que tive até hoje. Querendo ou não, sob meu controle ou não, Luíza me arrastou nessa viagem. Nessa jornada corajosa dos que decidem aterrissar por aqui. Eu tinha medo. Medo de ser muito louca pra ter filho. Medo de ter depressão de novo. Medo do que aconteceria com minhas relações. Medo do medo do medo que dá, já disse Lenine. A todo momento eu enfrentava a sensação de não ter controle junto com uma necessidade de fazer escolhas e colocar minha voz em ação. Ouvi tantas vezes da psicóloga “e o que tu disse?! E o que tu fez?! Ah tu é muito educadinha!”. Sim, essa é minha psicóloga. Num momento extremamente denso do meu puerpério ela me perguntou “para que tu acha que tá vivendo isso?”. Consegui, enfim, verbalizar meio perguntando “pra exercitar minha autoridade?”. Ela deu uma risada.

Por isso resolvi remodelar o blog. Parar de ler tanto sobre geração de conteúdo pra internet. Quem sabe eu deva assumir que sou simplesmente eu por aqui tentando ser escritora. Eu quero escrever. Ponto final. É isso. Não tenho conteúdo relevante pra compartilhar. Sou só eu, aqui do outro lado da tela falando das minhas loucuras, das minhas bobices. É a minha jornada, então por que diabos eu fico me esforçando em ser linear, programada, específica, norteada? O pior é ser o algoz da gente mesmo nessa vida. Essa é a minha Jornada da Escritora, ponto final.