Parto é jornada

Faz tempo queria escrever sobre isso. Mais precisamente desde o dia 8 de janeiro desse ano. Dia que Luíza nasceu. Agora sento para escrever, olho a lista dos cinquenta textos da pasta “em processo” (para escolher em qual vou trabalhar) e acabo abrindo o word num arquivo em branco e escrevo: parto é jornada. Abro um outro arquivo e releio meu relato de parto enviado ao grupo de gestantes do qual fiz parte. Me dou conta de que estamos na semana das mães. “Sou mãe agora”. Me dou conta disso também.

O parto da Luíza durou dez horas. Começou dia 7 e terminou dia 8 de janeiro de 2020 às 9h51min. Não. Não foi assim. Tem gente que se preocupa com quantas horas um trabalho de parto vai levar. Se apavora em pensar que pode durar mais de um dia. Às vezes se preocupa em abreviar, quem sabe até zerar essas horas. Não tem como, porque o parto é uma jornada que começa muito antes da primeira contração (mesmo que você nem venha a tê-la).

Eu tinha medo de parto porque no meu nascimento minha mãe teve uma hemorragia gravíssima, entrou em coma, quase morreu. Foi essa a história que eu ouvi, ou foi o jeito que chegou em mim, foi assim que eu arquivei na minha cabeça, no meu coração. Eu não desejei filhos desde sempre, nunca me vi mãe, sempre me achei muito doida pra tal tarefa, muito desnorteada. Mas depois de uns quatro ou cinco anos de namoro comecei a sentir que faria sentido – alguuuummmm dia – partilhar a cumplicidade, as risadas, o afeto sem medo, com mais alguém na nossa equação. Porém, podia ser alguém que já tivesse chegado no mundo. Adotar sempre foi algo que passou pela minha mente. Era, sem dúvida, a travessia do parto que me apavorava.

Em 2017 eu estive na Cidade Escola Ayni, em Guaporé, durante o feriado de Páscoa – a celebração da passagem, da travessia para outra condição. E foi assim, uma das experiências-portal que passei na vida, um divisor de águas. Não vou detalhar aqui porque daria um tratado e desnortearia – um talento que tenho – o texto. Mas foram uma série de vivências focadas no resgate da criança – da nossa, primeiro, para consequentemente resgatar (ou “deixar em paz” como dizia o Tiago Berto) as crianças do mundo. A culminância foi um ritual final em que todos os participantes formaram um corredor e entrávamos ali de olhos fechados. A jornada final. A morte. O nascimento. Travessia vida-morte-vida. Não sei como – nunca tive, óbvio, memórias do meu nascimento – mas quando fechei meus olhos vi o hospital, vi gente de branco, vi mãos me recebendo, me senti nascer. Mas ali, os parceiros daquela jornada tocavam suavemente meu corpo, acariciavam meus cabelos, me encorajavam. Durante aquele feriado a questão da luz e da sombra foi muito presente para mim e um dos facilitadores me disse baixinho ao ouvido durante a travessia final: “a semente precisa da escuridão para encontrar a luz”. Agora, me boto a pensar, o bebê também se nutre na escuridão até irromper para a luz.

Desse momento em diante eu percebi o quanto precisava revisitar meu nascimento. Não apenas a ideia de que minha mãe quase morreu porque eu nasci – que era a frase infantil que permeou minha mente por muito tempo – mas começar a olhar para mim e entender a origem do medo terrível da solidão, da morte, da sensação de que é preciso muita luta para sobreviver, de que o mundo é um lugar hostil. Passei a conversar mais com meus pais sobre isso, principalmente com o meu pai. Entender o que havia sido toda aquela vivência para ele, queria saber os detalhes – dentro do possível – de tudo que havia acontecido. Minha mãe – hoje eu entendo! – só diz maravilhas sobre os dois partos que teve, então ela não era referência! (rindo aqui).

Eu e Conrad vínhamos conversando cada vez mais sobre filhos. Mas, sabe aquela coisa “ah, acho que mais um ano e a gente pode tentar” e vai indo por mais um ano e mais um? Eu já não tomava hormônios há quatro anos e controlávamos bem. Quando, em 2019, decidi pelo meu “ano sabático de me tornar escritora”, veio com muita força uma sensação de “agora eu poderia ter um filho”. Prática dos 21 dias, japamala, mantra pra Ganesha muita abundância, erra a semana da ovulação e, na hora do namoro, manda às favas a camisinha! Pá! Grávida. Congela. Pânico. Um dos primeiros pensamentos? “meu deus eu vou precisar parir um bebê”. O doido? Quase todo o medo do parto se foi. Quando eu senti que não tinha o que pensar, que não tinha saída, que ia acontecer quer eu quisesse, quer não, o medo meio que foi embora.

Na primeira consulta com a obstetra que escolhemos – alinhada com as práticas que acreditávamos – falei brevemente da complicação que minha mãe teve no parto. Disse que eu só conheci minha mãe dois dias depois que nasci. Ela sorriu e disse que só tinha conhecido a mãe dela depois de doze dias. A médica que escolhemos tinha passado pela mesma coisa. Segue a vida e como boa geminiana que sou fui ler, ver filme e tentar me preparar o máximo possível (normalmente achando que eu não estava fazendo o suficiente) com a sensação de que essa questão do meu nascimento já estava vencida.

Fizemos uma oficina de preparação para o parto e descobrimos nossa doula. Vai indo e vai indo, quase fazendo de conta que tá tudo bem, tá tudo certo. Passa das 32 semanas e a Luíza está pélvica (de bumbum pro canal vaginal). Bebê pélvico no cenário obstétrico que temos em Porto Alegre é opção por cesariana. Tristeza, raiva, frustração, medo. Sim, é isso que as mães sentem meus amores, apesar de que se diga que é efusividade, redenção e sei lá mais o que. 34 semanas e tudo permanece da mesma forma. Primeiro encontro pré-parto com nossa doula, ela quer saber mais da nossa história e chego no “é…quando eu nasci”. Terminei a história e ela já mandou na lata “é isso, tu tá com medo do parto”. Vá lágrima rolando, porque no fundo eu sabia que isso estava lá em algum lugar, ainda. E tudo bem, porque nossas dores, nossos dilemas não se curam assim, do dia pra noite. É a famosa cebola que vai tirando e tirando camadas e tem sempre algo mais para aprofundar. Exercícios de spinning babies, engatinha pela casa, vira de ponta cabeça, faz acupuntura, floral, mantra pra Ganesha, o removedor de obstáculos.

37 semanas, pélvica. Culpa, raiva, tristeza, frustração. A doula conversa com a gente sobre a Versão Cefálica Externa. Medo. E eu me dando conta de que não tinha caminho fácil. Não tinha entregar pra deus. Quer dizer, tinha. Eu acredito em deus. Mas o meu deus é o do livre arbítrio. Ele me diz que espera que com minha inteligência e meu coração eu seja capaz de tomar boas decisões e não apenas que eu sente e chore ou que eu apenas olhe para as nuvens e clame (ou reclame) por ele. Houve algum momento no início da gestação que eu pensei que poderia só esperar. Aliás a cultura gestacional é essa né? “O que esperar quando se está esperando?”. Se tem alguma gestante por aí lendo, sinto dizer, mas não tem nada como “ficar esperando” na gravidez. Isso a gente faz quando senta na parada do ônibus. Se bem que, mesmo assim, é preciso caminhar até a parada e subir no ônibus quando ele chega! Não há passividade nem quando se espera esse tipo de coisa.  

Eu sentia, cada vez com mais força, que até o final tudo seria uma tomada de consciência e tomadas de decisão. Optamos pela VCE e eu tentando dar conta do medo terrível que tomava conta – e que depois do procedimento eu descobriria ter sido um pânico meio idiota. Ainda lembro da manhã subindo a serra, parando pra comer cuca na estrada. Minha mente dando um ar de complexidade em tudo, chegamos no consultório da doutora e não podia ser mais simples. Ela então. Uma bruxona, como dizia nossa doula. Quando ela olhou as ecografias anteriores e realizou uma no consultório disse que Luíza teria tudo para nascer pélvica mesmo, pelas medidas dela. Contou o porquê acreditava tanto nos bebês pélvicos. O nascimento do pai dela lhe inspirava. Ele nasceu de pé! Sim, não era nem o bumbum primeiro, eram os pés mesmo. Quando a parteira chegou, ele já tinha saído. Infelizmente, como a médica é de Encantado esperar a Luíza chegar sentada mesmo, não era uma opção. Mas, ela também nos explicou tudo e informou que havia muitas chances de sucesso na versão. Ela conversou com a Luíza durante a eco e só esse momento teria valido todo o esforço. Fiz as pazes com a situação. Na doçura daquela médica que admirava a determinação dos bebês pélvicos senti meu coração em paz com tudo que tinha feito até ali. Fomos para o hospital. Olha, não temos ideia das coisas que se perderam nessa cultura de dominar a gestação, o parto, o feminino. Deitei e em menos de um minuto – juro pelo meu deusinho – a Luíza estava virada e bem! Assim, tipo parteira do tempo da minha nona. Aliás, pensei muito na minha nona nesse processo. Ah! E a enfermeira que faz parte da equipe dessa médica eu já conhecia, ela foi uma das facilitadoras lá na Ayni em 2017! Jornada é isso, bifurcações, intersecções, cruzamentos, subidas e decidas, retas que parecem infinitas.

38 semanas e cefálica. Foi assim até as 40 semanas, mas eu tinha diabetes gestacional (Rá, não tinha falado disso ainda? Kkkk) precisávamos incentivar a moça a sair. Descolamento de membrana? Sim, vamos lá! Minha consciência já tinha assumido que ao mesmo tempo que não tínhamos controle de nada, tínhamos que ter decisão. Escolher, informar-se e optar pelos caminhos abraçando o que quer que aparecesse. Essa é a dicotomia louca da gestação e parto (da vida no caso)! Entregar-se com consciência. Fluir com responsabilidade. É deixar nas mãos do destino sabendo que ele vai vir te perguntar se é pra colocar no pote azul ou no amarelo. E com o nascimento, se você não estiver totalmente consciente e informada nessa jornada…bem. Vai acontecer, sem dúvida. É mais forte do que você, é a natureza, a força da criação agindo, mas saiba que pode ser que você pratique um divertido rafting no Três Coroas ou que seja somente arrastada pela correnteza. Tu que sabe.

O nascimento da Luíza foi a jornada dentro dessa jornada. Foi de uma intensidade que me pergunto se vou viver algum dia algo parecido. Tento voltar pra lá às vezes pra me conectar com aquela força descomunal que eu não sabia que tinha e sim, às vezes eu encontro culpa de mãe também, me perguntando se fiz tudo “certo”. Luíza precisou ser atendida pela equipe de pediatria. Não correu risco de vida, nada do tipo. Teve um quadro de desconforto respiratório. Precisou ficar em observação. Fiquei sozinha na sala de recuperação. Conrad foi ficar com ela, falar com a médica. O chão se abriu brevemente sob os meus pés, estava de volta no túnel, estava sozinha. “Ela está sozinha”, eu disse pra minha doula que estava ao meu lado ainda e ela rapidamente me puxou “essa é outra história, cada pessoa tem a sua!”.

Em um dos momentos ao lado da incubadora na Unidade Neonatal, já era noite, uma enfermeira trocava a fralda da Luíza e cantava “mãezinha do ceú…”. Eu chorava sentada ao lado, mas não como mãe. Chorava a bebê Bruna, porque num insight me dei conta de que nunca estive sozinha. Mesmo quando minha mãe estava longe alguém cuidou de mim, amorosamente, com dedicação e carinho, cantando uma música, quem sabe? Viver Luíza já me ensinou sobre não entregar tudo e só esperar, me ensinou a tomar parte mas ir no flow e tão profundamente me propôs curar a ferida do meu nascimento, mostrar que essa ideia de solidão e de morte pode estar bastante equivocada desde o início. Tá resolvido? Claro que não.

Parir é um breve portal do começo do longo caminho que temos pela frente. Por isso ele começa no nosso próprio parto. Consciente ou inconscientemente ele nos carrega para o início da nossa vida, costura pontos, desfaz amarras, mostra verdades. Não tem terceirização, não dá pra mandar ninguém no nosso lugar. No puerpério recebi a visita de um amigo que me contou que aquilo que os antigos alquimistas mais desejavam era passar por uma gestação e parto. Eles acreditavam que isso diferenciava tremendamente as mulheres. Sim, a gente toca a face de deus, meus queridos. Com todo seu esplendor aterrorizante e não há o melhor ou o pior jeito de viver tudo isso. Da minha experiência digo, é intenso e visceral para todos que vivenciam o parto, a diferença é que cada um está conectado com as questões de sua própria jornada.  

Monja Coen autografou um livrinho meu em 2007 – quando uma palestra e autógrafos dela na feira do livro tinham algo em torno de vinte pessoas – com uma frase que repito quase diariamente e que responde a quase todos os meus anseios: Intersomos, interconectados com a vida. Não há solidão ainda que estejamos sozinhos, cada um na sua jornada. Somos pontos de uma mesma teia. Paridos nessa existência e de partida, a cada segundo.

*a foto que ilustra esse post é um recorte de um momento do parto da Luíza, queria mostrar principalmente o quadro da sala de parto que está registrado na minha mente até hoje e que me ajudou tremendamente no processo.

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