NÃO ACREDITO

Pode ser em virtude de ter bebê em casa ou porque já trabalhava em home office há mais de um ano. De alguma forma o impacto do isolamento social não tinha se abatido sobre mim. Agora, porém, depois de ler a notícia de que a Feira do Livro de Porto Alegre vai ocorrer de forma on-line, eu percebi.

Saiu um “não acredito” da minha boca. Quando me ouvi doeu mais ainda. Me dei conta que me dei conta. É que a Feira do Livro pra mim era uma espécie de “spa de descompressão do ano”. Quando começava a entrar naquele período em que só queremos vislumbrar as férias de verão, a Feira era pra mim férias antecipadas. Foi lá que fiz as primeiras oficinas de escrita criativa, gratuitas. Nos tempos de faculdade, almoçava ligeiro e corria pra Praça da Alfândega admirar as bancas sendo abertas. Caminhando naqueles corredores quase vazios de gente. Garimpando livros baratos nos balaios, porque os melhores só se encontram nos primeiros dias e nos primeiros horários. Mas, não deixava de ir no último final de semana. Gostava de ver aquela gente abarrotando a praça. Claro que eu não comprava livros nesses dias! Só ia pelo fervo mesmo. Comer churros, pipoca e admirar aquele formigueiro comprando todo best-seller possível.

2017

Amava caminhar até o cais do porto – que infelizmente deixou de ser usado – passar pelas bancas internacionais e seguir até a área infantil. Volta e meia assistia alguma contação no meio da gurizada. Eu ia muito sozinha. Precisava. Era meu lugar preferido. Depois que eu tivesse meus próprios momentos, meu próprio isolamento no paraíso, curtia passear com mais alguém. Esse ano eu ia com a Luíza. Já tinha planejado enquanto andava por lá em 2019, de barrigão. Me via com ela no sling, contando tudo de bom que aquele lugar tinha pra nos oferecer. Escolhendo livros pra ela. Pegando sol na cara, vento do Guaíba encanando nos corredores, pipoca e churros. Ah! Pelo menos um dia eu ia fazer isso! Mas, tinha certeza que eu conseguiria fazer uns dois ou três – pra quem considera muito, entendam que em alguns anos eu cheguei a ir todos os dias na Feira!

2019

Sim, eu vou  participar do maior número de atividades possível on-line e vou comprar livros nas bancas virtuais (blé, que saco…). Mas, não acredito. Agora sim. Agora estou completamente desolada com esse vírus. Com esse isolamento. Não acredito. Não acredito que não vai ter Feira. Não acredito que não vou ganhar os marcadores que coleciono de todos os anos que fui. Não acredito que não vou bater papo com os livreiros. Que não vou levar listinha com dez títulos que de alguma forma eu preciso encaixar no orçamento e vai virar uma sacola com dois ou três e mais uns garimpos. Não acredito. E só vou realmente acreditar nisso quando abrir o computador no dia 30 de outubro. Que saco! Não acredito.

2 comentários

  1. Que triste, Bruna! 😦
    Essa pandemia está durando muito mais do que nós poderíamos suportar, né?
    Ainda mais quando mexe com coisas tão importantes na nossa vida…
    Um abraço, querida ❤

    Curtido por 1 pessoa

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