PÉS DESCALÇOS, CRIATIVIDADE

Essa semana entrei em uma loja de sapatos para crianças. Sempre achei estranho o fato de colocarmos calçados em seres que não caminham. A vendedora aproximou-se e perguntou quanto a Luíza “calçava” – minha filha estava sem meias nesse momento pois agora aprendeu a arrancar as benditas. Ri, dizendo que nem fazia ideia. A menina já me olhava com estranhamento. Chutou 16 ou 17, tentou enfiar o pé da Luíza. Eu, achando a maior graça. Fiquei correndo o olhar pela loja enquanto a menina tentava socar o pé da Luíza naquela forma. A moça já contrariada, disse: ela fica com o pé dobrado, não coloca o pé todo dentro do sapato.

No caso ela é um bebê e não devia fazer ideia do porquê alguém tentava colocar o pé dela naquela “caixinha”. Perguntei se não tinha algo mais molenga, de pano, sei lá. “Tem isso aqui” ela disse quase me atirando uma espécie de botinha de Neoprene. Então, veio a frase: Tu tem que acostumar ela com sapato, se não nunca vai usar.

Ah! Logo pra quem ela disse isso!

Gentilmente respondi: então vai ser como eu, que quase não usei sapatos porque nasci com os pés deformados, usei gesso e bota ortopédica. Chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o calçado!

Coitada. Ficou meio tensa. E contrariada também. Não falei com a intenção de constrangê-la. Eu realmente estava “de brincadeira” dentro daquela loja. Peguei meu caminho pra rua.

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Hoje fomos na pediatra, na saída passamos por uma senhora. Ela estava acompanhada de uma menina de uns 10 anos. “Gritou” essa frase: Olha o bebê! Pobrezinho, sem meia!

Sério, fazia muito tempo que eu não ficava extremamente p…. com alguém. Parei a caminhada me voltei em direção à ela e gritei de volta “mas tu é louca?!”. Mastiguei muitas frases depois disso.

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Tem alguma coisa na minha história que fala de pés. E é tão forte que fui procurar minha botinha de gesso para fotografar e percebi as sapatilhas de ballet ao lado. Gravei muitos pés para o curta “A Teia e o Ponto”. Tenho nervoso de ficar calçada muito tempo. Deve ser falta de terra no mapa astral.

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Sei que essa semana falei com jovens de 9º ano e esse assunto desdobrou-se em uma bela reflexão.

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Usei essa foto numa apresentação que fiz sobre criatividade para jovens essa semana. A ideia era falar sobre criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida, uma inteligência necessária para os nossos tempos. Conversamos sobre profissão, carreira, escolhas. No lugar de usar o slide “quem sou eu” e uma tentativa de currículo, coloquei essa foto e prometi que no final explicava. Eu ia falar sobre estar aberto ao erro, que não existe criação, inovação se você está preocupado em acertar. Seria hipócrita não me colocar no jogo. Eu mesma, que já vinha há meses pensando em como me apresentar profissionalmente. Eu que não tenho os diplomas acadêmicos pra me legitimar.

Descobrir nosso cerne, informar o que somos, mais do que aquilo que fazemos, é difícil sem os “selos do Inmetro”. O medo que temos da autonomia, da criatividade, da inovação é medo de “dar errado”, de não sermos validados por ninguém.

Passei minha vida de educadora acreditando até os ossos no currículo subjetivo. Na trajetória que cada um é capaz de construir. Se eu desejo saber, vou saber. Existe uma potência nesse movimento que nos ensinaram a esquecer. Então, como não me dei conta de que fiz isso comigo mesma?!

Disse pra eles que não faço ideia dos desafios que vão enfrentar. Não temos como saber que empregos eles terão, o que vai dar certo, quem vai ser bem sucedido. Escolher uma faculdade não é garantia de absolutamente nada. A própria ideia de precisar escolher entre mente ou coração é um paradigma velho. Dá pra andar de pés descalços e às vezes de sapato. Somos capazes de fluir entre as possibilidades. Isso é criatividade, é resolução de problemas.

Sugeri muitos livros, cursos livres, falas do TED, filmes. Há muitas formas de aprender, nuances e jeitos de expressar quem somos. A força que acreditamos ser necessária para “ensinar” alguém é energia desperdiçada. Aquele ser-humano é potente para achar seu próprio caminho, com os próprios pés.

Concluí minha fala e voltei a imagem. Contei minha história de vida “sem sapatos”. Essa menina descalça no meio do restaurante, imersa nas próprias invenções. Essa sou eu. Eu sou contadora de histórias. Ainda que não estivesse consciente, sempre fui. Com o ônus e o bônus. Vivendo a agonia de todas as histórias guardadas em mim, sofrendo com as fantasias sobre a realidade ao invés de criar de forma saudável. Acreditando, sonhando e inventando jeito. O que parece que não deu certo, as escolhas que pareciam sem sentido, as decisões polêmicas, os cursos, os lugares, as pessoas. Tudo existiu para que, um dia, eu pudesse ver o que eu faço e sentir que ali tem muito do que eu sou.

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Ps: Tá começando hoje, lá no meu instagram @ajornadadaescritora

11 dias de criatividade!

Junto com os alunos do 9º do Colégio Santíssima Trindade de Cruz Alta vou lançar uma proposta de criação por dia!

Participa por lá e libera tua mente!

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