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Como eu vim parar aqui?

É tipo aquela cena de “Eduardo e Mônica” do Legião Urbana. O Eduardo que só levava aquela vida certinha fica achando a festa estranha e aquela gente toda esquisita. Possível que ele tenha pensado “como diabos vim parar nessa situação.”

À essas alturas já perdi as contas de quantas vezes eu estava no trabalho, parecia fora do meu próprio corpo, olhando tudo que se passava na minha frente (eu era professora de crianças pequenas, então, belive me, era tipo “Onde está Wally?”) e me perguntando “como foi que isso aconteceu? quando foi que me tornei essa pessoa? em que lugar do caminho eu esqueci de mim mesma e me adaptei tão facilmente à isso tudo?”.

Existe uma pegadinha nessa vida que se chama ego. Ele é aquela vozinha em alguma das suas orelhas te dizendo “seja alguma coisa que você acha que DEVE ser e sinta-se muito importante depois de cumprir todos os seus DEVERES”. É a parte que garante que vamos ficar seguindo o script custe o que custar.

Só que, cada vez menos raramente, a gente sente um apertinho ali no lugar do coração. Às vezes na boca do estômago. Quer alguma coisa que não sabe o que é. Começa a ler umas coisas perigosas. Participa de retiros, vivências, partilhas. Experimenta umas sensações de prazer lá do fundo da alma. Daquele tempo que gargalhava solto quando tinha não mais do que quatro anos.

Aí o eguinho vai lá e diz “Fica quieto aí e taca ficha no serviço meu filho!”. Você fica obcecado com certas coisas. Já que a vida é isso, então eu DEVO ter alguma razão pra fazer tudo isso. Quem sabe eu TENHA que trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas, por que isso vai realmente significar que eu sou importante e bem sucedido. Quem sabe eu PRECISE transformar meu ambiente de trabalho, dizendo as pessoas o quanto tudo está errado e como todos deviam fazer tudo diferente para otimizar, aprofundar, melhorar as práticas. Ou então eu DEVA limpar, organizar, preparar, revisar, me ocupar e ocupar para que todos percebam o quanto eu realmente sou fundamental. Êta egotrip louca!

Mas, se você já tocou a casa preciosa da sua alma, garanto, é quase impossível voltar aos velhos trilhos. Você fica sacolejando enquanto o trem anda, totalmente sem lugar. “Que é que eu tô fazendo aqui?!”.

Aí é que são elas. Não tem ninguém pra te responder. Não tem. Esquece. Não tem mestre, guru, santo iluminado que vá te dizer o que fazer. Foi isso que fiz em 2018. Tinha que ter uma resposta pra essa sensação. Era mudar de trabalho, era mudar de casa, era mudar de cidade. Socorro! Alguém me manda o roteiro do filme que eu tô completamente fora da marcação de cena!! Minha alma ouviu, eu acho, e me deu um enorme pezão na bunda. Vai, criatura, e pára de incomodar!

Foi um pouco como quando fiz arvorismo. Muito medo de altura. Eu já tinha refugado uma vez. Na segunda visita ao mesmo lugar eu tinha que enfrentar a situação. Seria importante. Quis ir primeiro. Fiz a travessia naqueles postes, cheios de cabos e cordas em tempo recorde! Só não corri por falta de superfície. O vídeo é hilário, garanto. Fato é que ao final da travessia tinha uma tirolesa. Tinha uma tirolesa no final da travessia. Era mais alta. Pra mim, bem mais alta. Nem fiquei de pé na plataforma. A galera fazendo selfie e eu só queria descer de uma vez. Feliz com a conquista já feita até ali. Quando o monitor me chamou eu fui engatinhando até a beira da plataforma, rezando pra todos os santos que a m…. daquela corda estivesse bem presa, que se fosse a minha hora eu desmaiasse no caminho do chão. Olhei para o cara e pedi “tu me empurra faz favor, por que não vou pular não.” Fui de bundinha até a beirada e ele tocou minhas costas. Eu estava de olhos fechados e num átimo senti meu corpo solto no espaço. Solto e caindo. A velocidade aumentando e eu gritando como nunca. Abri os olhos. Me vi a metros do chão. Calafrio na espinha só de lembrar. Mas, eu precisava abrir os olhos por que não dá para seguir a vida por seguir. Também não dá pra se jogar e perder a paisagem do voo.

Estou nesse exato momento. Tomei o empurrãozinho meio inconsciente. Abençoado seja! Mas agora é que não vou perder de viver com os olhos bem abertos. Quer uma dica? Apenas pare de se perguntar. Não importa como você veio parar aqui. Só abra os olhos.

 

É hora de agradecer!

Em Fevereiro a campanha “Compre e Doe Um Encontro Mágico” foi finalizada. Com 38 apoiadores foram vendidos 20 livros e doados outros 42 exemplares, totalizando uma arrecadação de R$1580.

Conforme prometido para todos os apoios realizados, a primeira recompensa a ser “entregue” é a publicação dos agradecimentos. Gostaria de dizer, contudo, que me sinto como a maior recompensada de todas. Ter recebido mais esse apoio de tantas pessoas me enche de alegria e me dá uma grande injeção de ânimo para continuar perseguindo meus sonhos!

Abaixo, a lista dos 36 apoiadores que autorizaram a divulgação de seus nomes:

Alê Calderaro

Alexandre Smith

AnaLu Muñoz

Andréia Rosa da Silva Kurroschi

Ariana Lima

Assisnez de Azevedo Farias

Bruna Corrêa Paz da Silva

Camila Giordani da Rosa

Camila Thomé

Camille Krzyzaniak

Caroline Matei

Celso Wo

Cristiane Pereira Cardoso

Cristine Konat

Cybele Kelm Marques

Eveline Finger

Fabiane Brauner

Fernanda Figueiró

Gabriela Conter Ruiz

Gislaine Zambeli

Janaina Rockenbach Gomes

Juliana Tricot Leal

Karine Storck

Matheus Penafiel

Marina Valente Augusto

Mitiele L de Oliveira

Natália Abrão Cavalheiro

Patrícia Dyonisio De Carvalho

Priscilla Silva da Luz

Renata Zanella

Sosô e Felipe

Talita Silveira Feuser

Tatiana Finato

Romeu Finato

Verônica Christimann Varela

Vinicius da Silva Rodrigues

Gratidão, gratidão, gratidão!

Em breve, mais notícias sobre a escola selecionada para receber os livros. Acreditamos que no segundo semestre desse ano, seja possível fazer a entrega e os autógrafos.

Um Encontro Mágico

Meu primeiro livro infantil, publicado em 2019 pela Lurinha Editorial, está em campanha no catarse!

Lançado em Outubro de 2019, já vendeu 140 cópias

Agora quero que o livro chegue mais longe! Nas mãos de crianças que dificilmente teriam acesso.

Minha inspiração foi o Projeto Despertar criado pela TAG Experiências Literárias. Nos anos de 2017, 2018 e 2019 eles doaram caixinhas com livros e mimos para crianças de diversas ONGs pelo Brasil todo.

Minha campanha COMPRE E DOE UM ENCONTRO MÁGICO funciona da seguinte forma.

Você escolhe entre três valores para apoiar:

R$10 – Seu nome aparece nos agradecimentos a serem postados aqui no blog e no meu instagram. Esse valor ajuda a custear os fretes e o deslocamento para as instituições contempladas.

R$20 – UM livro é doado para uma criança.

R$40 – UM livro é doado para uma criança e UM livro é enviado para sua casa com frente incluso.

Meu livro custou R$14 cada um para ser produzido e impresso. Aqui no site ele era vendido por R$33 com frete incluso. Por isso, os valores da campanha estão super acessíveis.

Ao final da campanha os apoiadores indicarão sua escola ou instituição para receber os livros.

No 2º semestre de 2021 farei a entrega no local, com autógrafos e bate-papo com as crianças!

Na página do Catarse você pode encontrar mais informações e o vídeo mostrando alguns trechos do livro.

Eu acredito que a literatura é capaz de transformar nossa vida. Um livro é um mundo e a leitura nos humaniza, nos inclui, nos acolhe, nos permite suspender um pouco a realidade às vezes tão difícil.

Levar um livro para as mãos de cada criança é uma conquista imensa e transformadora!

Vem comigo nessa?

Clica na imagem pra ir direto para a página da campanha que abrirá em uma nova aba

Filha mulher

Ontem terminamos o dia conversando sobre como ensinaríamos a Luíza a se proteger. E isso dói.

*

Assim que soube que estava grávida achei que era um menino. Não que isso fosse muito relevante. Tenho aversão à ansiedade das pessoas em torno do sexo dos bebês. Por que isso é importante mesmo? Quando tivemos a confirmação de que era uma menina senti um frio na espinha. Fiquei mal, em seguida, pensando no que aquilo significava. Meses depois, já com a Luíza no colo, quando surgiam notícias de estupro de meninas, mulheres, eu entendi. Era medo e uma dor profunda.

*

Em torno dos meus 12 anos eu fui exposta por um grupo de meninos da minha escola. Um deles, especialmente, me perseguia há alguns anos, com “cartinhas de amor” e investidas insistentes. Ali pela 6ª série eu comecei a lidar com os apelos de mais de um menino da turma. Certa vez fui literalmente colocada contra a parede, um tentava me beijar e outros estavam na volta olhando e rindo. Eu saí correndo. Na 7ª série esses colegas ficaram muito irritados com o fato de que eu não queria beijar nenhum deles. Eu conversava com todos, ria, me divertia, brincava, abraçava. Eu era eu. Espontânea, amistosa. Não tinha sido avisada que com 11 anos havia me tornado um objeto sexual. Esses meninos decidiram divertir-se pichando um banco da escola com meu nome, minha turma e uma série de palavras como: vagabunda, puta, vadia, siririqueira. Lembro de olhar tudo aquilo e me perguntar o que significava a palavra siririqueira, tal era minha realidade como menina de 12 anos.

A situação acabou com uma promessa de que os meninos pintariam o banco. Naquele mesmo dia saímos de férias e quando voltamos já estava tudo arrumado. Nenhum responsável foi avisado. Muitos anos depois, essa turma do colégio quis reunir-se em um grupo de whatsapp, perguntaram à uma amiga minha se achava adequado me adicionarem. Ué, por que a dúvida? Ela me relatou que na perspectiva deles, tudo aquilo tinha sido uma grande brincadeira. Homens de hoje, com seus 33-34 anos.

Fui capaz de compreender a dimensão que esse evento teve na minha vida muitos anos depois. Por muito tempo acreditei que estava errada. Que dei motivo. Que precisava ser menos espontânea. Que não podia tocar nos homens porque, obviamente, era um sinal verde.

O nome disso é CULTURA DO ESTUPRO.

Não há nada que possamos fazer. O objetivo não é ensinar a se comportar, a agir de uma forma que nos proteja. Não. Freiras foram estupradas! O objetivo é deixar claro que os corpos das mulheres, não importa o que façam, são objetos e estão à disposição para serem invadidos, retalhados, mastigados, invalidados, destruídos.

Um homem drogado é perdoado por atropelar, roubar, matar, estuprar. Uma mulher drogada (o que tantas vezes ocorre sem que ela mesma saiba) é mais culpada! Mesmo inconsciente ela devia saber!

*

Sim, a Luíza vai aprender judô, jiujitsu e coisas assim. E será avisada do porque estará aprendendo essas lutas. Minha filha receberá as armas do esclarecimento, do diálogo, da cultura, mas, CHEGA! Se, da forma que vivemos, as coisas ainda vão passar pelos nossos corpos, é sim pelo corpo que ela também vai se posicionar.

Estamos cansadas! Mas, o silêncio nunca mais será uma opção.

Me joga areia que eu te soterro.

Praia cheia. Sol fritando os ombros, a pele do rosto já meio repuxada. Amo andar pela beira da praia vazia, aquieta minha mente, mas praia cheia. Ah! É um banquete de observações. Cada guarda-sol uma sentença, um cheiro de protetor solar e as próprias regras. Adolescentes não levam guarda-sol, apenas uma toalha, canga, deitam-se ali, jogam-se na água, voltam, enrolam tudo, saem caminhando, param em outro lugar. Gazebos são diametralmente opostos, ali instalam-se moradores. Tem comida refrigerada, bebidas das mais variadas, cadeiras para todos, toalhas e cangas, protetor solar e óleo bronzeador, mais comida. Quando me sento em algum recanto desses, gosto de assistir os filmes que vão se passando. Verdadeiras narrativas, dramas, romances, comédia, terror sobrenatural. Em um mesmo verão é possível assistir, camuflada pelas lentes escuras, os mais variados enredos.

Numa dessas observei um casal com um menino em torno de três anos. Os pais sentados sob o guarda-sol, olhavam o celular. O menino girava no entorno. Ele quis mostrar algo que fez na areia, um montinho do meu ponto de vista, do dele poderia ser um castelo medieval com um dragão dentro. A mãe deu uma expiada, o pai nem sabia o que acontecia. Ele insistiu, queria mais. Que brincassem? Que participassem da fantasia? Nada. Ele juntou um punhado de areia na mãozinha e jogou na mãe. Ela se levantou rápida e brigou com ele, gritando alguma coisa como: que isso!? E tentando tirar a areia do cabelo. Ele abaixou-se novamente e juntou mais areia. Era uma mão pequena, um punhado de areia que não prometia muito. Admito que torci um pouco por ele. Inclinou-se todo pra trás, o pequeno braço tentando empreender força ao punhado. A mãe deu uma risada e chutou com o pé uma quantia volumosa de areia no menino. Ele tomou um “banho”, da cabeça aos pés. Correu para trás chorando e com as mãos no rosto, meio cego provavelmente juntou ainda corajoso um punhado de areia em cada mão. Tentou em meio às lágrimas jogar novamente na mãe enquanto o pai começava, vagarosamente, a levantar-se da cadeira. Seu golpe terminou no vazio. A mãe então dizia: bem feito! é pra ver como é bom jogarem areia na gente! A confusão, claro, estava armada. Ele estava em prantos e o pai entrou em ação, brigando também. A mãe resolveu ir até o menino e observar mais de perto o rosto, mas ainda ralhava: viu no que dá? Não é pra jogar areia nos outros!

Me perguntei o que teria sido diferente se no primeiro chamado o pai ou a mãe tivessem simplesmente virado para admirar o montinho? Perguntado sobre o montinho? O que tu construiu? Uau, um castelo? Quem mora nele? O único comentário que costumo fazer com algum amigo ou familiar que esteja por perto é: pois é, somos todos crianças ainda.Na comunicação não-violenta se diz que a violência é o fim trágico de uma necessidade não atendida. E sim, nós adultos temos uma bagagem dessas necessidades, somos todos crianças feridas. Podemos, claro, olhar amorosamente para esses pais, criar rede de apoio e etc. Mas, de maneira mais imediata é preciso ao menos tornar-se consciente das bagagens para não as despejar, simplesmente, em cima dos pequenos sobre quem nós costumamos ter vantagem física e intelectual. Soterrá-los em nossas dores e orgulhos feridos, de maneira imatura e inconsciente é, fatalmente, cruel e irresponsável. Para os que tem a benção de ter por perto crianças de até sete anos, aproveite! Eles são uma fonte imensurável de autoconhecimento.

A infância é linda, muito mais valorizada hoje do que jamais foi na história da humanidade, mas respeitá-la como adulto é, antes de tudo, passar pela sua própria e ficar apenas com o arquétipo da criança dentro de nós. Aquela que quer saber o porquê de tudo, que ri de si mesma, que expressa seus afetos sem vergonha. De resto, deixemos que as crianças sejam crianças e nós os adultos capazes de ser o reduto confiável para que elas avancem.

O que incomoda quando olhamos para a infância?

Recentemente – como tem sido praxe na internet dos nossos tempos – houve uma grande mobilização e polêmica em torno de vídeo com crianças em festa de aniversário.

Lembrei-me, naquele momento, de um texto que escrevi no verão de 2019. Fui atrás dele. Quero partilhar com vocês porque algumas reflexões que reencontrei ali fazem sentido ainda. Mas, antes, deixe-me explicar de onde vem meu olhar.

Trabalhei quase dez anos diariamente com crianças pequenas. O que mais busquei nesse tempo foi a capacidade de observar e intervir o menos possível – Ah, e bater papo com os pequenos! Que eu adoro até hoje. Conviver com crianças pequenas, se estivermos dispostos e cientes do possível desconforto, é poesia e filosofia em forma bruta. Conseguir ouvir, acolher e vivenciar suas percepções, movimentos, desejos é de uma riqueza que, acredito, nenhuma experiência no mundo te dá. Mas, exige um enorme deslocamento. Estar de fato com uma criança demanda sairmos do nosso lugar, jeito de ver, de pensar, e abrir-se.

Voltar pra infância pode doer. Eu sei, agora todo mundo fica falando da tal criança interior e se já temos alguma resistência, dessensibilizamos para o assunto. Olhar a infância incomoda porque dói. “Mas eu tive uma ótima infância, eu não tenho traumas”. Não falo de infância destruída. A dureza disso não consigo mensurar. A questão é que há um inevitável confronto entre o mundo visto da perspectiva da criança e o mundo factual em que nós vivemos. As coisas que machucam, frustram, desconfortam uma criança nós não lembramos mais. Normalmente está no tipo de coisa à que os adultos respondem: “mas que bobagem!” ou “não foi nada!”. Para a criança, via de regra, é algo bem significativo. E pode ser que seja para ela e não para outra criança. O incrível livro “Quando eu voltar a ser criança” de Janusz Korczak consegue nos carregar de volta à essas perspectivas que já perdemos.

Crescer dói. Fomos bebês, estivemos entregues ao que bem fizessem com a gente. Fomos bem pequenos, não deu pra fazer tudo que desejávamos. Podia ser “bobo” como não poder dormir na casa de uma amiga, ter feito xixi na calça, apagar uma vela. Costumamos partir da ideia de que o “trauma” fica porque os adultos não souberam intervir. Sim, falamos isso porque, infelizmente, são gerações carregando diversas “bagunças emocionais”. Mas, o que eu quero dizer aqui é que pode até ser que uma criança conviva apenas com adultos equilibrados. Isso não a deixa imune a frustrações! Pelo simples fato de que, a dimensão daquele evento para ela, a maneira com que ela sentiu, ouviu, percebeu o que aconteceu e as intervenções posteriores nós não conseguimos dominar.

Por isso, o convite que as crianças nos fazem – apenas por serem crianças – é tão enriquecedor. Porque elas tem “o mapa da mina” mesmo sem saberem. Elas vão nos levar onde dói apenas por estarmos com elas. Sem dúvida são conteúdos inconscientes, porque na consciência já aprendemos a nomear como bobagem e “minha infância foi ótima”. O livro “O Drama da Criança Bem-dotada” da Alice Miller pode ajudar a entender melhor isso.

Daí a infância ser tão incômoda. Porque é capaz de trazer à tona nossas sombras mais bem guardadas. Reagimos das mais diferentes maneiras. Tá tudo certo sentir raiva de uma criança pequena. Tá errado despejar a raiva em cima dela. Mas tá tudo certo com os nossos sentimentos, todos que aparecem quando estamos com uma criança. Até mesmo a negação de todos eles e a pressa em “civilizar os pequenos selvagens”. O incômodo é sermos capazes de não apontar o dedo para a infância. De nos darmos conta que ali residem indivíduos muito além de nossas dores e projeções. Seres sem responsabilidade alguma com nossas frustrações, temores e vontade de controlar. Indivíduos vivenciando um longo e complexo desenvolvimento biológico, psíquico, social e por aí vai.

Dia desses compartilhei uma frase que dizia que olhar para a infância era revolucionário. De fato, acredito que, no dia em que as crianças estiverem em paz a humanidade caminhará numa direção totalmente nova.

Amanhã compartilho o texto que escrevi no verão de 2019, a partir de uma cena observada na beira da praia.

Obs: a foto destacada nesse post mostra parte das crianças que frequentavam minha primeira creche. Uma delas eu tenho muito clara na memória. Ela me empurrou do escorregador quando eu estava sentada lá em cima. Rolei até chegar esborrachada no chão. Lembro de ir chorando até as professoras e elas dizerem “não foi nada”. Lembro que não doía tanto fisicamente. Mas sim, a raiva que eu sentia. Eu era bem menor do que a menina. Essas são as “pequenas” coisas da infância que ficam. Se eu não acolher essa Bruna pequena, sozinha e com raiva, ela vai aparecer. Quer eu queira, ou não.

A idade das mães

Fala-se muito que as mulheres hoje em dia tem filhos “mais velhas”. Enquanto professora cheguei a ouvir de alguns pais: “sabe como é, somos pais velhos”.

Onde ficou estabelecido idade pra ser mãe? Que vozes dizem que o ideal é ser mãe na faixa dos vinte anos? Que estaremos secas e estragadas depois dos 35; que filhos de “pais velhos” são mal educados, mimados?

Tive a Luíza com 33 anos, minha mãe teve a primeira filha com 22. Como seria se eu tivesse a Luíza lá em 2009? Cursando Pedagogia. Saindo de uma depressão.

O discurso hegemônico vai dizer que somos uma geração de fracos que não quer passar trabalho. Bom era o tempo em que se fazia malabarismo pedalando bicicletinha de uma roda em cima da corda bamba sobre um tanque de tubarões. Em benefício de quem?

O mesmo discurso que ecoa entre nós dizendo que é preciso “ter pique” pra ser mãe. Seria exaustivo ser mãe? Seria solitário? O famoso discurso de que tudo é MIMIMI. Bom era aquele tempo. Os anos 80? Em que a licença maternidade era de 60 dias? Pena que inventaram esse feminismo, né?

As mães jovens dos anos 80 foram vantajosas para o sistema. A baixíssimo custo elas mantinham os homens trabalhadores limpos, bem vestidos, alimentados, assim como os futuros trabalhadores, frequentando a escola bem uniformizados, asseados, alimentados. Ainda é assim, para muitas mulheres. Pior ainda para as marginalizadas que muitas vezes tornam-se a única rede de apoio das mulheres que são parte do sistema.

Não é sobre a idade. É sobre escolhas conscientes. Nossos úteros não vão explodir com 40 anos. Estamos cada dia mais munidas de melhores informações para gestar, parir e educar crianças. Estamos nos questionando sobre exaustão materna, paternidade consciente, agressões às crianças.

Quem sabe aí esteja o maior problema, o que o sistema hegemônico detesta. Por que ainda é tão difícil olhar a infância? Porque precisaremos olhar para as mulheres, depois para o tempo, depois para a inutilidade das coisas. Aí o sistema todinho está fadado a se repensar.

Honro todas as mulheres que me antecederam e todas as que me acompanham na vida hoje. As que não tiveram escolha, as que estavam exaustas, as que foram mães jovens, as que não foram, as que não queriam ter sido. As que desejam, mas não conseguem, as que jamais serão mães de crianças, as que gestam ideais, que maternam transformação, que parem sonhos.

Amo todas, simplesmente porque são mulheres.

PÉS DESCALÇOS, CRIATIVIDADE

Essa semana entrei em uma loja de sapatos para crianças. Sempre achei estranho o fato de colocarmos calçados em seres que não caminham. A vendedora aproximou-se e perguntou quanto a Luíza “calçava” – minha filha estava sem meias nesse momento pois agora aprendeu a arrancar as benditas. Ri, dizendo que nem fazia ideia. A menina já me olhava com estranhamento. Chutou 16 ou 17, tentou enfiar o pé da Luíza. Eu, achando a maior graça. Fiquei correndo o olhar pela loja enquanto a menina tentava socar o pé da Luíza naquela forma. A moça já contrariada, disse: ela fica com o pé dobrado, não coloca o pé todo dentro do sapato.

No caso ela é um bebê e não devia fazer ideia do porquê alguém tentava colocar o pé dela naquela “caixinha”. Perguntei se não tinha algo mais molenga, de pano, sei lá. “Tem isso aqui” ela disse quase me atirando uma espécie de botinha de Neoprene. Então, veio a frase: Tu tem que acostumar ela com sapato, se não nunca vai usar.

Ah! Logo pra quem ela disse isso!

Gentilmente respondi: então vai ser como eu, que quase não usei sapatos porque nasci com os pés deformados, usei gesso e bota ortopédica. Chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o calçado!

Coitada. Ficou meio tensa. E contrariada também. Não falei com a intenção de constrangê-la. Eu realmente estava “de brincadeira” dentro daquela loja. Peguei meu caminho pra rua.

*

Hoje fomos na pediatra, na saída passamos por uma senhora. Ela estava acompanhada de uma menina de uns 10 anos. “Gritou” essa frase: Olha o bebê! Pobrezinho, sem meia!

Sério, fazia muito tempo que eu não ficava extremamente p…. com alguém. Parei a caminhada me voltei em direção à ela e gritei de volta “mas tu é louca?!”. Mastiguei muitas frases depois disso.

*

Tem alguma coisa na minha história que fala de pés. E é tão forte que fui procurar minha botinha de gesso para fotografar e percebi as sapatilhas de ballet ao lado. Gravei muitos pés para o curta “A Teia e o Ponto”. Tenho nervoso de ficar calçada muito tempo. Deve ser falta de terra no mapa astral.

*

Sei que essa semana falei com jovens de 9º ano e esse assunto desdobrou-se em uma bela reflexão.

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Usei essa foto numa apresentação que fiz sobre criatividade para jovens essa semana. A ideia era falar sobre criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida, uma inteligência necessária para os nossos tempos. Conversamos sobre profissão, carreira, escolhas. No lugar de usar o slide “quem sou eu” e uma tentativa de currículo, coloquei essa foto e prometi que no final explicava. Eu ia falar sobre estar aberto ao erro, que não existe criação, inovação se você está preocupado em acertar. Seria hipócrita não me colocar no jogo. Eu mesma, que já vinha há meses pensando em como me apresentar profissionalmente. Eu que não tenho os diplomas acadêmicos pra me legitimar.

Descobrir nosso cerne, informar o que somos, mais do que aquilo que fazemos, é difícil sem os “selos do Inmetro”. O medo que temos da autonomia, da criatividade, da inovação é medo de “dar errado”, de não sermos validados por ninguém.

Passei minha vida de educadora acreditando até os ossos no currículo subjetivo. Na trajetória que cada um é capaz de construir. Se eu desejo saber, vou saber. Existe uma potência nesse movimento que nos ensinaram a esquecer. Então, como não me dei conta de que fiz isso comigo mesma?!

Disse pra eles que não faço ideia dos desafios que vão enfrentar. Não temos como saber que empregos eles terão, o que vai dar certo, quem vai ser bem sucedido. Escolher uma faculdade não é garantia de absolutamente nada. A própria ideia de precisar escolher entre mente ou coração é um paradigma velho. Dá pra andar de pés descalços e às vezes de sapato. Somos capazes de fluir entre as possibilidades. Isso é criatividade, é resolução de problemas.

Sugeri muitos livros, cursos livres, falas do TED, filmes. Há muitas formas de aprender, nuances e jeitos de expressar quem somos. A força que acreditamos ser necessária para “ensinar” alguém é energia desperdiçada. Aquele ser-humano é potente para achar seu próprio caminho, com os próprios pés.

Concluí minha fala e voltei a imagem. Contei minha história de vida “sem sapatos”. Essa menina descalça no meio do restaurante, imersa nas próprias invenções. Essa sou eu. Eu sou contadora de histórias. Ainda que não estivesse consciente, sempre fui. Com o ônus e o bônus. Vivendo a agonia de todas as histórias guardadas em mim, sofrendo com as fantasias sobre a realidade ao invés de criar de forma saudável. Acreditando, sonhando e inventando jeito. O que parece que não deu certo, as escolhas que pareciam sem sentido, as decisões polêmicas, os cursos, os lugares, as pessoas. Tudo existiu para que, um dia, eu pudesse ver o que eu faço e sentir que ali tem muito do que eu sou.

*

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Ps: Tá começando hoje, lá no meu instagram @ajornadadaescritora

11 dias de criatividade!

Junto com os alunos do 9º do Colégio Santíssima Trindade de Cruz Alta vou lançar uma proposta de criação por dia!

Participa por lá e libera tua mente!

Projeto de Vida

Recentemente recebi dois convites para falar com jovens de Ensino Médio. Um deles é a trabalho e o enfoque é criatividade e escolha profissional. O outro veio da irmã mais nova de uma amiga, participante do Projeto Voar desenvolvido pelo Sebrae junto à Seduc-RS. Ela precisava escolher um “passageiro inspirador”, alguém para falar da sua história pessoal.

Preciso dizer que falar com jovens é algo muito novo (e um tanto assustador) para mim, iniciou em 2019 sem meu controle e tem se intensificado. Assustador porque minha adolescência foi meio embaralhada e as faixas etárias difíceis na nossa história pessoal sempre acabam sendo mais complexas de enfrentar na vida real.

Felizmente, esses convites me fazem pensar. O próprio medo e a sabotadora interior me fazem refletir. O que eu teria de relevante pra dizer? O que minha trajetória pode ter de significativo, de inspirador?  Meu currículo é uma “bagunça”. Minha trajetória não é nem acadêmica, nem carreira em empresa, nem encabeçando grandes empreendimentos. Muitas vezes eu me sinto envergonhada de não ter uma lista de títulos e grandes feitos para legitimarem minha caminhada. Não sou o tipo de pessoa que preenche o estereótipo de “bem sucedida”. A decisão de me nomear escritora foi feita com muito esforço e de propósito pra confrontar o predador da psique – publicou um livrinho de criança e quer se chamar de escritora! Fez um cursinho lá e cá e acha que sabe o que tá fazendo! Hahahahaha.

Já li a biografia de alguns escritores. Em mais de uma aparece o sonho, o desejo de um dia ser escritora profissional. Tentei lembrar se em algum momento da infância tive esse desejo. Gosto de mexer nas minhas velharias. Nos fósseis da vida. Achei uns cadernos de 1996, tinha 10 anos. Um deles, tem – vejam só – uma atividade intitulada “PROJETO DE VIDA PESSOAL”. Segue-se uma garrancheira braba, datada de 8 de agosto de 1996, que diz:

Profissão: bailarina ou trabalhar num grupo teatral

Escola: vou estudar no Pallotti, mas a faculdade não. Vou pra Itália e Paris fazer cursos.

Família: logo que me casar, antes de fazer os cursos, eu irei morar em Porto Seguro, uns tempos, pretendo também ser professora de Ballet, montarei uma escola lá. Até que depois irei morar em Paris num apartamento grande para poder fazer meus cursos.

Sorrio tentando lembrar o que seriam esses “cursos” que eu tanto queria fazer. Em outros textos nos cadernos falo que passei para sapatilha de ponta, invento histórias em que viajo e danço por várias cidades. De outros anos não encontro nada tão bem descrito, mas lembro de fazer aulas de teclado e imaginar que estava em um teatro antigo na Inglaterra, tocando piano enquanto alguém tocava violino ao meu lado e o público emocionava-se com nossa música. Também aconteceu de estar a caminho do litoral e me imaginar morando em uma daquelas fazendas na beira da estrada, produzindo pães e geleias em uma grande cozinha dentro de um chalé de madeira com a lareira acesa. Quando frequentei aulas de esgrima me enxerguei nas Olimpíadas, com medalhas no pescoço. Um pouco mais velha pensava em ser veterinária, agrônoma, zootecnista e me via cavalgando rapidamente para atender um animal ferido, doente ou parindo.

Nada disso faz currículo, nada disso vai pro Lattes, muita gente diria até que fui mal sucedida nos meus projetos, que não tive foco pra atingir meus objetivos, que eu queria tudo e acabei não atingindo o ápice de nada. Ah! Como adoramos falar sobre chegar no topo. Nem sabemos bem que montanha estamos subindo mas temos que chegar lá em cima. Nunca apareceu “escritora” em nenhum desses meus sonhos. Me dou conta do porquê. Eu já era escritora. Todo o tempo eu contava histórias. Via o mundo assim, narrando, viajando na maionese, fantasiando, brincando com a realidade. Mora em mim a bailarina de Paris, a moça que faz pães e geleias, a que trata animais, a esgrimista, a cineasta, a educadora e cada uma me conta histórias, me leva em viagens, desperta sensações, sentimentos.  

Acho que minha alma fez bem em esconder a escritora de mim por um tempo. Protegeu meu self porque, se eu tivesse visto antes, teria transformado ela em alvo pra ser atingido. Teria feito como tantas outras coisas – agarrado em desespero e apertado tão forte com medo de perdê-la que teria consumido até a última brasinha de calor.

Pode ser que nunca mais me chamem para falar com jovens, mas meu coração vai dizer à eles que explodam-se as metas. Há lugares em que nunca chegamos. Não há para onde ir, nem objetivos e planos para agarrar, porque já somos. Mas como a gente sabe o que já é? Aaaa, bom! Se existisse essa resposta, todo mundo já tinha se iluminado e virado purpurina!

Eeeeee, dizer que já sou escritora não significa, nem de longe, que já estou pronta. Que já faço isso muito bem. Que agora basta eu sentar e deixar a vida fazer o resto. Naaadaaaa! Só que isso é papo para outro texto.

NÃO ACREDITO

Pode ser em virtude de ter bebê em casa ou porque já trabalhava em home office há mais de um ano. De alguma forma o impacto do isolamento social não tinha se abatido sobre mim. Agora, porém, depois de ler a notícia de que a Feira do Livro de Porto Alegre vai ocorrer de forma on-line, eu percebi.

Saiu um “não acredito” da minha boca. Quando me ouvi doeu mais ainda. Me dei conta que me dei conta. É que a Feira do Livro pra mim era uma espécie de “spa de descompressão do ano”. Quando começava a entrar naquele período em que só queremos vislumbrar as férias de verão, a Feira era pra mim férias antecipadas. Foi lá que fiz as primeiras oficinas de escrita criativa, gratuitas. Nos tempos de faculdade, almoçava ligeiro e corria pra Praça da Alfândega admirar as bancas sendo abertas. Caminhando naqueles corredores quase vazios de gente. Garimpando livros baratos nos balaios, porque os melhores só se encontram nos primeiros dias e nos primeiros horários. Mas, não deixava de ir no último final de semana. Gostava de ver aquela gente abarrotando a praça. Claro que eu não comprava livros nesses dias! Só ia pelo fervo mesmo. Comer churros, pipoca e admirar aquele formigueiro comprando todo best-seller possível.

2017

Amava caminhar até o cais do porto – que infelizmente deixou de ser usado – passar pelas bancas internacionais e seguir até a área infantil. Volta e meia assistia alguma contação no meio da gurizada. Eu ia muito sozinha. Precisava. Era meu lugar preferido. Depois que eu tivesse meus próprios momentos, meu próprio isolamento no paraíso, curtia passear com mais alguém. Esse ano eu ia com a Luíza. Já tinha planejado enquanto andava por lá em 2019, de barrigão. Me via com ela no sling, contando tudo de bom que aquele lugar tinha pra nos oferecer. Escolhendo livros pra ela. Pegando sol na cara, vento do Guaíba encanando nos corredores, pipoca e churros. Ah! Pelo menos um dia eu ia fazer isso! Mas, tinha certeza que eu conseguiria fazer uns dois ou três – pra quem considera muito, entendam que em alguns anos eu cheguei a ir todos os dias na Feira!

2019

Sim, eu vou  participar do maior número de atividades possível on-line e vou comprar livros nas bancas virtuais (blé, que saco…). Mas, não acredito. Agora sim. Agora estou completamente desolada com esse vírus. Com esse isolamento. Não acredito. Não acredito que não vai ter Feira. Não acredito que não vou ganhar os marcadores que coleciono de todos os anos que fui. Não acredito que não vou bater papo com os livreiros. Que não vou levar listinha com dez títulos que de alguma forma eu preciso encaixar no orçamento e vai virar uma sacola com dois ou três e mais uns garimpos. Não acredito. E só vou realmente acreditar nisso quando abrir o computador no dia 30 de outubro. Que saco! Não acredito.

Adeus escola

Quinta-feira passada completei 9 anos de formada em Pedagogia. Teria passado em branco não fossem as amigas que carrego desse tempo. Ontem passei em frente ao antigo Instituto Vicente Pallotti, escola que frequentei durante o Ensino Fundamental, e me impactei com as novas estruturas físicas. A pouca vegetação de antes, agora se foi totalmente.

Nunca desejei ser professora. Sabe aquelas crianças que brincavam de escolinha, davam aula para as bonecas? Não era eu. Comecei a frequentar a Educação Infantil com três anos. Adorava a “creche”. Quando comecei a primeira série tinha muita saudade mas me adaptei. Foi lá pela 3º série que as coisas mudaram. A professora só chamava alguns alunos para participar e eu virei a “que não sabe ficar quieta”. Na 5º série tivemos muitas trocas de professor de Geografia. Certa vez disse à um deles que precisávamos de aulas diferentes, de VER as coisas da geografia, de ir pra rua! No Ensino Médio virou raiva mesmo. Cada dia a escola me trazia a sensação de que perdia tempo de vida. Que estava presa ali esperando a liberdade. Nessa época vi um Globo Repórter sobre “Summerhill”. Nunca fiquei tão vidrada no programa, admirada que pudesse existir outro jeito de ser escola. Ali começou a crescer um pequeno brotinho de: “a escola tem que ser diferente”. Ainda que isso palpitasse eu não tinha a menor vontade de voltar pra escola. Fui fazer cinema. Em uma das primeiras aulas devíamos nos apresentar falando de nossa motivação para estar ali, respondi: acredito que a arte educa, transforma a sociedade, por isso quero fazer cinema.

Quando decidi pela pedagogia já tinha certa obsessão com a escola. Fazia pesquisas, descobria autores e livros sobre educação libertária. Além de ser cadeira cativa nas palestras do José Pacheco em Porto Alegre. Revirava tudo que tivesse sobre Escola da Ponte e ficava espantada que quase ninguém na faculdade soubesse algo sobre o assunto. Seguia investigando novas abordagens educacionais pelo mundo. Acreditava que a faculdade de Pedagogia era o lugar em que mais se pensaria sobre uma nova educação. Mas, não foi bem como minha mente viajante e sonhadora imaginou.

Às vezes me bate quase um arrependimento. Fico com a sensação de que estava tão cega com uma ideia que não pude ver o quanto estava fora de lugar. Foram quase 12 anos entre experiências de estágio e depois como professora. Não rolou. Não deu pé pra mim. Me tornei raivosa. Virei uma metralhadora tentando acertar um alvo muito pequeno. Tentei escola pública, ensino fundamental, educação infantil, escola mais tradicional, escola mais alternativa. Foi em 2017, na formação da Cidade Escola Ayni que uma super ficha caiu. Se isso não é problema para os outros, porque mesmo eu estou gastando tanta energia?

Tentei me focar na ideia de que podia “fazer a diferença” com minha atuação individual. Mas eu não acreditava naquilo e cada vez que precisava justificar minhas discordâncias, contextualizar a complexidade do que me irritava, do que me entristecia, sentia que minha energia ia se esgotando. Se tornou comum ouvir o famoso “quem ama a profissão…” para encerrar o debate. Afinal quem amava mesmo a educação tinha que conseguir dar conta.

Ainda me dói quando os educadores sentem que criticar a escola é criticá-los diretamente. Para mim é um paradoxo. A grande parte deles está sofrendo! Doente, estressado, depressivo, ganhando pouco, sofrendo pressões físicas, psíquicas, sociais, institucionais e tantas outras. A ideia de “treinar o professor” em novos métodos é uma lástima. Inovação na educação não deveria ser sobre conferir mais peso aos professores, mas sobre transformar a instituição escolar na sua organização espacial e temporal. Nos diferentes locais em que trabalhei esse ponto acaba sendo o mais frágil. Quando se pensa em mudar a escola é mais para os alunos do que para os educadores. A suposta mudança acaba envolvendo horas de trabalho extraclasse não remunerado, acaba sendo sobre o professor dar conta de mil novas ferramentas, plataformas, pirotecnias enquanto ele segue dentro de uma sala de aula com 30-40 crianças.

Hoje falo do lugar de alguém que não está mais comprometida com a escola mas que vai seguir amando, estudando e se perguntando sobre educação.

É realmente dentro de uma sala de aula com 30 crianças da mesma idade, trocando de caderno ou de livro didático a cada x tempo para dar conta de x matéria, copiando coisas do quadro, infurnados por horas, saindo sem direção por 20 minutos de recreio que estamos construindo o FUNDAMENTAL? Realmente é isso o que temos de mais rico para oferecer como sociedade? Somos incapazes de criar outras formas? Quando ouvimos os terraplanistas, os antivacina, os neonazistas e fascistas esquecemos que eles frequentaram essa escola? Deletamos o fato de que estamos imersos em um sistema que nos deseja desde cedo consumidores e para isso precisamos aprender a seguir a manada? Deletar os desejos pessoais, os impulsos subjetivos da alma, para que sejamos mais facilmente contornáveis. Afinal quem desconecta-se do próprio querer acaba seguindo o protocolo sem pestanejar. Como achamos possível determinar – em 2020! – os conteúdos que uma criança de seis anos vai precisar aprender para a tal vida depois da escola? Será que temos ideia do que será o mundo em 2030? Alguém foi capaz de prever o que estamos vivendo agora?

Sim, educação segue mexendo comigo. Fazia tempo que não me permitia escrever ou pensar sobre esse tema. Sei o quanto minha fala pode ser desconfortável nesse assunto. Hoje reconheço que foi muito tempo jogando a culpa lá fora. Achando que o fato de não ser feliz no trabalho era por que ninguém queria fazer o que eu achava que deviam fazer. Meu ego se debateu, foi difícil aceitar que tanta energia empenhada tinha sido posta fora. Fiquei em paz quando percebi que escola e educação eram coisas diferentes. Que trabalhar com uma não quer dizer trabalhar com a outra, e vice-versa.  Fui vendo ao longo desses 9 anos um número cada vez maior de jeitos de fazer educação. Entendi que o processo acontecia muito além dos meus desejos pessoais ou dos lugares que eu ocupava.  

Escrevi esse texto mais para mim do que qualquer coisa. Acho que foi para tirar tudo do sistema. Concluo e releio sentindo um pouco como é vazio. Mas assim é, deixo que esse sentimento se vá então. Já vai tarde essa minha guerra com a escola.