Memórias…

apagadas?

Terça-feira pensei muito sobre memória. No final do dia – no banho, claro – fiquei me lembrando dos tempos de FAMECOS. Foi bom sabe? Foi incrível na real, vivi e aprendi coisas ali que nenhuma outra experiência teria me proporcionado. Lembrei que realmente cogitei trabalhar com montagem – ou edição como é mais comum falar. Voltei para as muitas horas na moviola dando risada com os colegas enquanto operávamos aquela geringonça divertida, cheia de personalidade e que te ensina mais sobre montagem do que jamais um curso de Final Cut Pro será capaz de fazer. Uma manivela que faz a película seguir, parar ou retroceder. O lápis que risca o início e final do corte. Para, puxa aquela tripa de fotogramas, fixa na coladeira – sim, é esse o nome – corta onde marcou com o lápis, junta os pedaços na exata marcação e passa durex – sim, é isso mesmo. Prensa na coladeira e reza que não solte durante a projeção. Se tu tivesse que fazer tudo isso pra realizar um corte, pensaria trinta vezes antes de sequer começar a rodar a câmera.

Enquanto o Francis, assistente de fotografia, fazia o fotômetro eu ajustava a câmera.

Só de lembrar me dá um aconchego no peito. Um sorriso no rosto. Resgato meu encantamento com o cinema e penso como a gente pode estragar memórias. Minha amiga Tati disse uma vez: “mas tu só lembra das coisas negativas?”. Eu tinha perguntado se ela já tinha comido a pizza que eu faço. “Claro! Lá na tua irmã, não lembra?”. Meio que não lembrava. Aliás, às vezes penso que devia ter fumado maconha na “FUMECOS” visto que minha memória é péssima e sequer tive essa experiência. #prontofalei

Respondi – depois do esforço pra lembrar – “ah, mas aquela vez queimou, não valeu”. Então ela me deu aquela resposta ali de cima – com toda autoridade que uma capricorniana tem e com toda razão também! A frase ficou na minha cabeça. Me dei conta que não sou propriamente desmemoriada, eu estrago algumas memórias.

Quando entrei na faculdade de cinema tinha dezessete anos e um zilhão de expectativas. Ainda não sabia que a expectativa é mãe da merda. Como todo Millennial velho fui formatada por uma sociedade de baby-boomers e geração X. Ou seja, ninguém sabia me dizer como fazia para ser artista. Como fazia pra perseguir felicidade acima de qualquer coisa. Era pra ser produtivo, organizado, vestir a camisa da empresa por trinta anos de preferência. Mas fui fazer cinema, e agora?

Set do curta “A Porta”. Locação no Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Quando concluí o curso estava totalmente perdida. Me sentia travada e incapaz. Tinha vontade de fazer muitas outras coisas também. Sentia vergonha de não querer mais me dedicar exclusivamente ao cinema, de querer experimentar-me ainda e da opinião dos outros. Medo de não ter emprego fixo e de precisar viajar muito e ficar longe da minha família. Com tudo isso queimei a memória da FAMECOS me convencendo que tinha sido um período muito difícil. Foi, claro! Estava no final da adolescência tentando me encontrar no mundo com zero ferramentas emocionais e práticas pra fazer acontecer. E tá tudo bem.

Em 2004 uma câmera ligada era aglomeração certo…será que hoje em dia também?

Esse banho foi bom pra lembrar que memória é coisa tão maleável que dá pra estragar e pra consertar também. Foi lindo, gostoso, desafiador, encantador fazer cinema. Eu realmente me diverti demais. Fotografei, filmei, editei, mixei, escrevi, fiz assistência de direção, produção. Vi atores ensaiando, descobri que manter o pessoal da elétrica alimentado é a essência do bom humor no set e que virar madrugada dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro pode ser legal quando os fresnéis estão todos ligados mas que atravessar corredor completamente escuro é pra quase se mijar nas calças. Aprendi que, muito diferentemente da escola, era possível conviver com pessoas COM-PLE-TA-MEN-TE diferentes de mim. Descobri que basta colocar uma câmera em algum lugar dentro de uma universidade para gerar aglomeração – pelo menos era assim em 2004.

Não estou nessa foto porque estava atrás da câmera fazendo o making off do curta!

Sem ter consciência disso sei que aqueles dois anos e meio forjaram lindas memórias no meu espírito e sei que posso voltar lá e retomar tudo aquilo que a alma já sabia. Mais do que isso, tenho muita ferramenta emocional, espiritual e prática para olhar meus “erros e acertos” sem colocar o que vivi nessas caixinhas e sim observar tudo como aquilo que realmente é. Sem ilusões, pretensões, frustrações mas somente com a alegria de quem pode viver absolutamente tudo que estava a sua disposição e ao alcance da sua consciência naquele momento.

Tudo me compõe e agora tenho a segurança de ser esse sopão de habilidades. Precisei construir para mim mesma o caminho de aceitar a multiplicidade. Hoje eu sei que a vida não é corrida de cem metros rasos, uma linha reta pra cumprir bem rápido. É essa jornada tipo “Senhor dos Anéis” cheia de sobe e desce, paradas, florestas, enrascadas. Cada um que faça a sua como sentir no coração e que guarde todas as memórias com tintas de boas vibes mesmo que a pizza tenha queimado e que as expectativas tenham sido todas transformadas em realidade. Esquecer é perder a chance de dar uma boa risada de si mesmo.

Não foi amor à primeira vista

Eu não te amei desde o momento em que vi aparecer os dois risquinhos na fitinha. Eu não tinha certeza. Mas também não te amei quando vi o resultado do teste de sangue. Eu achava que podia estar doente quando fiquei “menstruando” por dez dias. Depois tinha o “saco gestacional com contornos irregulares” e a suposição do médico de que aquele sangramento fosse uma ameaça de aborto. Não dava pra ver embrião ainda. Era só uma bolinha na tela. Eu não te conhecia ainda. Era menino ou menina? Ouvimos teu coração bater enquanto tu parecia um girininho na água. Foi intenso. Mas, não era amor.

Tira sangue. Faz exames. Todo mês na obstetra. Tenta parecer que a vida é a mesma de antes. Que tudo acontece normalmente. Que gravidez não é doença. Eu ainda não te amava. Eu era eu. Bruna. Grávida. Tinha alguém crescendo lá dentro. Mas, era tão abstrato. Você ainda era uma imagem na tela. Eu não conversava toda hora contigo na barriga. Eu tinha medo de que não tivéssemos uma conexão. Eu estava fazendo certo? Eu te amava como “deveria”? Eu era uma mãe minimamente normal? Tentei estudar, me preparar, respirar, me exercitar, meditar.

Nos parimos. Tu chegou. Te olhei pela primeira vez e pensei “esse é meu bebê?”. Bebês parecem tão estranhos quando nascem. Já era amor, será? Ficamos internadas separadas. Eu tinha medo de não sentir o que deveria. Será que toda mãe se sente assim? Será que eu estou errada? A primeira vez que fiquei contigo no colo, na unidade neonatal, estávamos eu e teu pai juntos. Senti meu peito aquecido, um calor que expandia para o corpo todo e dava uma paz imensa. Voltamos para o quarto, eu e teu pai juntos, conversando e eu pensava se já te amava do jeito normal.

Quando retornei pra te ver algumas horas depois eu estava sozinha. Te devolvi pra enfermeira e caminhei até a porta como se cada passo meu doesse. Quando a porta se fechou atrás de mim e o corredor do hospital despontou, comprido, na minha frente o coração rachou e as lágrimas correram pelo meu rosto.

Não, eu não te amei assim que soube que estava grávida, nem assim que te vi. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas é tanto que se falava sobre filhos que achava que, no caso desse jeito de amar, poderia acontecer assim de imediato. Não. É no tecer dos dias que o amor se faz. Quem sabe por isso o começo seja tão sofrido para algumas mães. Porque insistimos nessa história de que já existe um amor inexplicável.

Eu repito muito para mim mesma “eu sou só um ser humano. E a Luíza veio para ser filha de seres humanos, ela tá ciente.” Quem crava essa bandeira pesadíssima de carregar de um suposto amor gigantesco e imediato na nossa alma? Lembro quando ouvi, há uns anos atrás, que quem ama incondicionalmente é deus. Que procurar amor incondicional nos outros seres humanos é injusto com eles e inevitavelmente frustrante para nós. As mulheres, como mães então, parecem ter que carregar especialmente esse fardo.  Durante a gestação e puerpério ouvi de dois homens algo assim: é muito diferente pra gente porque tu vai te dando conta só depois que nasce, vocês já tem essa conexão desde a barriga né? Para um deles, que é amigo próximo, disse de coração aberto: Não. Pra mim não foi assim. Amor é construção sim. Pra pai e pra mãe.

Tô dizendo que meu coração não doía de preocupação cada vez que eu deixava a Unidade Neonatal? Que quando a enfermeira veio me avisar que estávamos de alta eu não quis pular e gritar pelos corredores de alegria? Que eu não dava um pulo a cada suspiro teu durante as madrugadas do primeiro mês? Que eu não colocava a mão sobre a tua barriga pra ver se estavas respirando? Ah! Claro que sim! Foi intenso. Foi como ficar andando sobre uma corda bamba no precipício. Mas é amor? Não sei. Preocupação, zelo, responsabilidade, com certeza.

De repente comecei a sentir algo como os apaixonados, que esperam logo ver seu objeto de apreço. Sentia borboletas na barriga cada vez que nos encontrávamos. Me pegava longos minutos olhando uma foto tua, observando teus traços e sorrindo sozinha. Tu me deu teus primeiros sorrisos, teus olhos começaram a cruzar os meus. Fui sentindo tua pele macia. Maciaaaa. Meu deus como é macia! Os cabelinhos começando a despontar na cabeça careca.  Uma vontade de te ter no colo o tempo todo, te acalentar, te fazer dormir.

Não sei quando foi o exato dia, em algum momento te olhei e algo como uma fisgada atravessou meu espírito, expandiu-se aquecendo todo meu corpo e contraiu-se de medo. Senti que não poderia viver sem você. Não sei se isso necessariamente é amor ou apego, ou egoísmo, ou apenas o jeito torto do ser humano amar. Não temos aquele momento, como nos casais, em que transformamos em palavras o amor e aguardamos uma resposta. Não sei se tu me ama. Também não sinto que precisa me amar. Esse amor é meu, eu que me entreguei à ele. Simplesmente te amo. Agora. De um jeito imenso e apavorante, com o medo no encalço.

Te amo porque te conheço, sei dos teus risos banguelas, de teus olhos brilhantes, do toque incerto de tuas mãos pequenas. Não me sinto feliz porque você me fez mãe – esta aí um status que nunca almejei e sequer tenho certeza de que posso desempenhar tal façanha adequadamente – não me sinto em paz porque tu, supostamente, seria tudo na minha vida. Não, eu estou feliz e em paz somente porque amo. Porque tua existência me permite amar mais. Creio que estarei bem se tu não me amar tanto assim, se sentir que não fiz ou não fui o melhor possível. Sobreviverei se eu souber que está bem, que está feliz, que está em paz. E seguirei te amando. Esse amor doido e doído de quem olha, ouve, toca e convive, dia a dia, entregue a outro ser humano e então descobre a flecha, inevitável, atravessada sobre o peito.

Parto é jornada

Faz tempo queria escrever sobre isso. Mais precisamente desde o dia 8 de janeiro desse ano. Dia que Luíza nasceu. Agora sento para escrever, olho a lista dos cinquenta textos da pasta “em processo” (para escolher em qual vou trabalhar) e acabo abrindo o word num arquivo em branco e escrevo: parto é jornada. Abro um outro arquivo e releio meu relato de parto enviado ao grupo de gestantes do qual fiz parte. Me dou conta de que estamos na semana das mães. “Sou mãe agora”. Me dou conta disso também.

O parto da Luíza durou dez horas. Começou dia 7 e terminou dia 8 de janeiro de 2020 às 9h51min. Não. Não foi assim. Tem gente que se preocupa com quantas horas um trabalho de parto vai levar. Se apavora em pensar que pode durar mais de um dia. Às vezes se preocupa em abreviar, quem sabe até zerar essas horas. Não tem como, porque o parto é uma jornada que começa muito antes da primeira contração (mesmo que você nem venha a tê-la).

Eu tinha medo de parto porque no meu nascimento minha mãe teve uma hemorragia gravíssima, entrou em coma, quase morreu. Foi essa a história que eu ouvi, ou foi o jeito que chegou em mim, foi assim que eu arquivei na minha cabeça, no meu coração. Eu não desejei filhos desde sempre, nunca me vi mãe, sempre me achei muito doida pra tal tarefa, muito desnorteada. Mas depois de uns quatro ou cinco anos de namoro comecei a sentir que faria sentido – alguuuummmm dia – partilhar a cumplicidade, as risadas, o afeto sem medo, com mais alguém na nossa equação. Porém, podia ser alguém que já tivesse chegado no mundo. Adotar sempre foi algo que passou pela minha mente. Era, sem dúvida, a travessia do parto que me apavorava.

Em 2017 eu estive na Cidade Escola Ayni, em Guaporé, durante o feriado de Páscoa – a celebração da passagem, da travessia para outra condição. E foi assim, uma das experiências-portal que passei na vida, um divisor de águas. Não vou detalhar aqui porque daria um tratado e desnortearia – um talento que tenho – o texto. Mas foram uma série de vivências focadas no resgate da criança – da nossa, primeiro, para consequentemente resgatar (ou “deixar em paz” como dizia o Tiago Berto) as crianças do mundo. A culminância foi um ritual final em que todos os participantes formaram um corredor e entrávamos ali de olhos fechados. A jornada final. A morte. O nascimento. Travessia vida-morte-vida. Não sei como – nunca tive, óbvio, memórias do meu nascimento – mas quando fechei meus olhos vi o hospital, vi gente de branco, vi mãos me recebendo, me senti nascer. Mas ali, os parceiros daquela jornada tocavam suavemente meu corpo, acariciavam meus cabelos, me encorajavam. Durante aquele feriado a questão da luz e da sombra foi muito presente para mim e um dos facilitadores me disse baixinho ao ouvido durante a travessia final: “a semente precisa da escuridão para encontrar a luz”. Agora, me boto a pensar, o bebê também se nutre na escuridão até irromper para a luz.

Desse momento em diante eu percebi o quanto precisava revisitar meu nascimento. Não apenas a ideia de que minha mãe quase morreu porque eu nasci – que era a frase infantil que permeou minha mente por muito tempo – mas começar a olhar para mim e entender a origem do medo terrível da solidão, da morte, da sensação de que é preciso muita luta para sobreviver, de que o mundo é um lugar hostil. Passei a conversar mais com meus pais sobre isso, principalmente com o meu pai. Entender o que havia sido toda aquela vivência para ele, queria saber os detalhes – dentro do possível – de tudo que havia acontecido. Minha mãe – hoje eu entendo! – só diz maravilhas sobre os dois partos que teve, então ela não era referência! (rindo aqui).

Eu e Conrad vínhamos conversando cada vez mais sobre filhos. Mas, sabe aquela coisa “ah, acho que mais um ano e a gente pode tentar” e vai indo por mais um ano e mais um? Eu já não tomava hormônios há quatro anos e controlávamos bem. Quando, em 2019, decidi pelo meu “ano sabático de me tornar escritora”, veio com muita força uma sensação de “agora eu poderia ter um filho”. Prática dos 21 dias, japamala, mantra pra Ganesha muita abundância, erra a semana da ovulação e, na hora do namoro, manda às favas a camisinha! Pá! Grávida. Congela. Pânico. Um dos primeiros pensamentos? “meu deus eu vou precisar parir um bebê”. O doido? Quase todo o medo do parto se foi. Quando eu senti que não tinha o que pensar, que não tinha saída, que ia acontecer quer eu quisesse, quer não, o medo meio que foi embora.

Na primeira consulta com a obstetra que escolhemos – alinhada com as práticas que acreditávamos – falei brevemente da complicação que minha mãe teve no parto. Disse que eu só conheci minha mãe dois dias depois que nasci. Ela sorriu e disse que só tinha conhecido a mãe dela depois de doze dias. A médica que escolhemos tinha passado pela mesma coisa. Segue a vida e como boa geminiana que sou fui ler, ver filme e tentar me preparar o máximo possível (normalmente achando que eu não estava fazendo o suficiente) com a sensação de que essa questão do meu nascimento já estava vencida.

Fizemos uma oficina de preparação para o parto e descobrimos nossa doula. Vai indo e vai indo, quase fazendo de conta que tá tudo bem, tá tudo certo. Passa das 32 semanas e a Luíza está pélvica (de bumbum pro canal vaginal). Bebê pélvico no cenário obstétrico que temos em Porto Alegre é opção por cesariana. Tristeza, raiva, frustração, medo. Sim, é isso que as mães sentem meus amores, apesar de que se diga que é efusividade, redenção e sei lá mais o que. 34 semanas e tudo permanece da mesma forma. Primeiro encontro pré-parto com nossa doula, ela quer saber mais da nossa história e chego no “é…quando eu nasci”. Terminei a história e ela já mandou na lata “é isso, tu tá com medo do parto”. Vá lágrima rolando, porque no fundo eu sabia que isso estava lá em algum lugar, ainda. E tudo bem, porque nossas dores, nossos dilemas não se curam assim, do dia pra noite. É a famosa cebola que vai tirando e tirando camadas e tem sempre algo mais para aprofundar. Exercícios de spinning babies, engatinha pela casa, vira de ponta cabeça, faz acupuntura, floral, mantra pra Ganesha, o removedor de obstáculos.

37 semanas, pélvica. Culpa, raiva, tristeza, frustração. A doula conversa com a gente sobre a Versão Cefálica Externa. Medo. E eu me dando conta de que não tinha caminho fácil. Não tinha entregar pra deus. Quer dizer, tinha. Eu acredito em deus. Mas o meu deus é o do livre arbítrio. Ele me diz que espera que com minha inteligência e meu coração eu seja capaz de tomar boas decisões e não apenas que eu sente e chore ou que eu apenas olhe para as nuvens e clame (ou reclame) por ele. Houve algum momento no início da gestação que eu pensei que poderia só esperar. Aliás a cultura gestacional é essa né? “O que esperar quando se está esperando?”. Se tem alguma gestante por aí lendo, sinto dizer, mas não tem nada como “ficar esperando” na gravidez. Isso a gente faz quando senta na parada do ônibus. Se bem que, mesmo assim, é preciso caminhar até a parada e subir no ônibus quando ele chega! Não há passividade nem quando se espera esse tipo de coisa.  

Eu sentia, cada vez com mais força, que até o final tudo seria uma tomada de consciência e tomadas de decisão. Optamos pela VCE e eu tentando dar conta do medo terrível que tomava conta – e que depois do procedimento eu descobriria ter sido um pânico meio idiota. Ainda lembro da manhã subindo a serra, parando pra comer cuca na estrada. Minha mente dando um ar de complexidade em tudo, chegamos no consultório da doutora e não podia ser mais simples. Ela então. Uma bruxona, como dizia nossa doula. Quando ela olhou as ecografias anteriores e realizou uma no consultório disse que Luíza teria tudo para nascer pélvica mesmo, pelas medidas dela. Contou o porquê acreditava tanto nos bebês pélvicos. O nascimento do pai dela lhe inspirava. Ele nasceu de pé! Sim, não era nem o bumbum primeiro, eram os pés mesmo. Quando a parteira chegou, ele já tinha saído. Infelizmente, como a médica é de Encantado esperar a Luíza chegar sentada mesmo, não era uma opção. Mas, ela também nos explicou tudo e informou que havia muitas chances de sucesso na versão. Ela conversou com a Luíza durante a eco e só esse momento teria valido todo o esforço. Fiz as pazes com a situação. Na doçura daquela médica que admirava a determinação dos bebês pélvicos senti meu coração em paz com tudo que tinha feito até ali. Fomos para o hospital. Olha, não temos ideia das coisas que se perderam nessa cultura de dominar a gestação, o parto, o feminino. Deitei e em menos de um minuto – juro pelo meu deusinho – a Luíza estava virada e bem! Assim, tipo parteira do tempo da minha nona. Aliás, pensei muito na minha nona nesse processo. Ah! E a enfermeira que faz parte da equipe dessa médica eu já conhecia, ela foi uma das facilitadoras lá na Ayni em 2017! Jornada é isso, bifurcações, intersecções, cruzamentos, subidas e decidas, retas que parecem infinitas.

38 semanas e cefálica. Foi assim até as 40 semanas, mas eu tinha diabetes gestacional (Rá, não tinha falado disso ainda? Kkkk) precisávamos incentivar a moça a sair. Descolamento de membrana? Sim, vamos lá! Minha consciência já tinha assumido que ao mesmo tempo que não tínhamos controle de nada, tínhamos que ter decisão. Escolher, informar-se e optar pelos caminhos abraçando o que quer que aparecesse. Essa é a dicotomia louca da gestação e parto (da vida no caso)! Entregar-se com consciência. Fluir com responsabilidade. É deixar nas mãos do destino sabendo que ele vai vir te perguntar se é pra colocar no pote azul ou no amarelo. E com o nascimento, se você não estiver totalmente consciente e informada nessa jornada…bem. Vai acontecer, sem dúvida. É mais forte do que você, é a natureza, a força da criação agindo, mas saiba que pode ser que você pratique um divertido rafting no Três Coroas ou que seja somente arrastada pela correnteza. Tu que sabe.

O nascimento da Luíza foi a jornada dentro dessa jornada. Foi de uma intensidade que me pergunto se vou viver algum dia algo parecido. Tento voltar pra lá às vezes pra me conectar com aquela força descomunal que eu não sabia que tinha e sim, às vezes eu encontro culpa de mãe também, me perguntando se fiz tudo “certo”. Luíza precisou ser atendida pela equipe de pediatria. Não correu risco de vida, nada do tipo. Teve um quadro de desconforto respiratório. Precisou ficar em observação. Fiquei sozinha na sala de recuperação. Conrad foi ficar com ela, falar com a médica. O chão se abriu brevemente sob os meus pés, estava de volta no túnel, estava sozinha. “Ela está sozinha”, eu disse pra minha doula que estava ao meu lado ainda e ela rapidamente me puxou “essa é outra história, cada pessoa tem a sua!”.

Em um dos momentos ao lado da incubadora na Unidade Neonatal, já era noite, uma enfermeira trocava a fralda da Luíza e cantava “mãezinha do ceú…”. Eu chorava sentada ao lado, mas não como mãe. Chorava a bebê Bruna, porque num insight me dei conta de que nunca estive sozinha. Mesmo quando minha mãe estava longe alguém cuidou de mim, amorosamente, com dedicação e carinho, cantando uma música, quem sabe? Viver Luíza já me ensinou sobre não entregar tudo e só esperar, me ensinou a tomar parte mas ir no flow e tão profundamente me propôs curar a ferida do meu nascimento, mostrar que essa ideia de solidão e de morte pode estar bastante equivocada desde o início. Tá resolvido? Claro que não.

Parir é um breve portal do começo do longo caminho que temos pela frente. Por isso ele começa no nosso próprio parto. Consciente ou inconscientemente ele nos carrega para o início da nossa vida, costura pontos, desfaz amarras, mostra verdades. Não tem terceirização, não dá pra mandar ninguém no nosso lugar. No puerpério recebi a visita de um amigo que me contou que aquilo que os antigos alquimistas mais desejavam era passar por uma gestação e parto. Eles acreditavam que isso diferenciava tremendamente as mulheres. Sim, a gente toca a face de deus, meus queridos. Com todo seu esplendor aterrorizante e não há o melhor ou o pior jeito de viver tudo isso. Da minha experiência digo, é intenso e visceral para todos que vivenciam o parto, a diferença é que cada um está conectado com as questões de sua própria jornada.  

Monja Coen autografou um livrinho meu em 2007 – quando uma palestra e autógrafos dela na feira do livro tinham algo em torno de vinte pessoas – com uma frase que repito quase diariamente e que responde a quase todos os meus anseios: Intersomos, interconectados com a vida. Não há solidão ainda que estejamos sozinhos, cada um na sua jornada. Somos pontos de uma mesma teia. Paridos nessa existência e de partida, a cada segundo.

*a foto que ilustra esse post é um recorte de um momento do parto da Luíza, queria mostrar principalmente o quadro da sala de parto que está registrado na minha mente até hoje e que me ajudou tremendamente no processo.

Jornada

O texto de abertura do blog, escrito em 2019, chama-se “Como eu vim parar aqui”. Eu muito quis achar esse lugar que a gente chega. E para. E encontra a tal felicidade. Em 2007, meu psicólogo disse que eu tinha uma tendência de querer encontrar a grande cura (da ansiedade, da depressão). Me agarrava a cada nova possibilidade como se aquilo fosse transformar tudo do dia para a noite. Floral, acupuntura, reiki, corrida, ballet, ômega 3, passe, Osho, meditação, yoga. Uma nova esperança de voltar a ser quem eu era, de tudo voltar ao normal.

O psicólogo vivia me dizendo para escrever. Seria um jeito de deixar os monstros saírem. Quando estava insuportável eu fazia. Pegava qualquer papel que visse pela frente e rabiscava sem parar, tipo psicografia do Chico Xavier. Drenava aquela energia toda, dobrava bem aquela coisa pavorosa e guardava em algum canto de alguma caixinha perdida do armário. Foi só em 2013 que eu comprei o primeiro caderno. Eu já não fazia terapia há uns três anos, não tinha mais o psicólogo me dizendo para escrever, mas eu sabia que precisava fazer algo além de só vomitar meus monstros. Escrevi na primeira página:

A JORNADA

Decidi comprar um caderno, sabia onde ia comprar, como ia ser. Esse caderno servirá para registrar a minha jornada. Já fiz algumas, mas essa decidi registrar. Um lugar só meu para botar tudo pra fora. Qualquer pensamento, dúvida, reflexão, sem vergonha ou julgamento (dentro do possível).

Essa era eu em 2013 e o caderno segue até 2014. Alguns dias escritos a fio, depois meses de silêncio. Muitas reflexões, diálogos mentais, dores emocionais, mas…tem trechos de capítulos, rabiscos de ideias. Foi sem dúvida a primeira vez que eu comecei a estruturar escritas, possibilidades de histórias, ideias de livros.

O nome que dei para o caderninho é o primeiro registro que tenho dessa ficha que caiu. Levou quase sete anos para finalmente assumir que não havia um lugar para chegar. É o tal do caminho que se faz caminhando. Nada seria um divisor de águas. Nada do que buscava, encontraria do dia para a noite. Ao mesmo tempo, tudo que eu tinha feito até ali era parte da minha cura. Tudo aquilo era o combustível que me mantinha em movimento, buscando, enxergando melhor, percebendo novas facetas da minha vida. Eu não estava chegando a lugar nenhum, eu estava em uma jornada.

Quando comecei o blog, todo o tempo eu tinha em mente que seria “A Jornada da Escritora”. Eu sentia que precisava me autorizar, dizer em voz alta: eu sou escritora. Mas jornadas não são estradas largas, de tijolinhos amarelos e florezinhas multicores nas bordas. São umas trilhas tortuosas, meio escuras, às vezes um sobe e desce danado, às vezes é uma correria sem fim ou um passo leve e lento de cada vez.

Me propus a partilhar minha jornada, mas no fundo, queria mostrar uma viagem limpa. Bem resolvida. Organizada. Podia dizer diferente, mas essa era a verdade. Eu não queria me colocar por inteiro. Quem ia querer saber? Qual o objetivo? Descobri que estava grávida. Pronto. Eu sabia que não queria, definitivamente, falar sobre isso. Agora todo mundo é #maternidadereal. Eu nem sabia ao certo se eu queria filhos! Eu deveria saber! Como ia falar de algo que não sabia? Minha psicóloga dizia ao final de cada sessão “escreve lá no teu blog sobre isso! Fala de tudo que tu tá vivendo e sentindo”. Aaaff meu predador da psique não permitia. A verdade é que gosto de falar das coisas. Não de mim. No fundo eu não quero falar da minha jornada nua e crua, mas sim de algo sob controle e objetivo.

Acho que em 2011 ou 2012, minha irmã me presenteou com um mapa natal – entregue em uma sessão com o astrólogo. Foram muitos elementos para pensar, mas algo ficou pendurado muito tempo. O astrólogo disse “tu tens um problema com autoridade.” Eu ri achando meio óbvio. Claro! A rebelde. Mas ele completou: “não é tanto com autoridade dos outros e sim um problema em exercer a tua autoridade. Quem tu é? Tu te misturas muito com o coletivo”. Fiquei sem entender lhufas por anos.

Eu adoro a astrologia como fonte de autoconhecimento. Sim, sou dessas, e bem…eu tomo floral, faço acupuntura, reiki, evangelho no lar, tomo passe, medito, faço yoga e só minha Lua em Peixes poderia explicar isso. Voltando. Li recentemente sobre os nodos lunares no meu mapa astral. O tal do nodo norte também é conhecido como Ascendente Cármico, é uma espécie de guia evolutivo mostrando o que deveríamos desenvolver nessa existência. Descobri que o meu é em Áries e li isso: … há uma necessidade de recuperar sua identidade ao longo da vida, ou até mesmo encontrar uma identidade só sua. Quando você realmente descobrir e desenvolver sua individualidade, o seu EU mais primitivo, parte de sua evolução estará definida. Toma essa Bruna.

Meu nodo norte em Áries está na casa 3, a casa da comunicação. Kíron – que representa nossa ferida – está em Gêmeos. Comunicação, de novo. Meu Sol também é geminiano. Minha voz é meu norte, minha luz, minha ferida aberta que precisa ser curada. Não tem saída. Nem escapatória. Preciso aprender a expressar minha autoridade. Meu EU. Quem eu sou através da minha voz, da minha escrita, da minha comunicação. Não é sobre as coisas. É sobre mim. Puuut…

Os últimos meses me trouxeram a vivência mais intensa e doida que tive até hoje. Querendo ou não, sob meu controle ou não, Luíza me arrastou nessa viagem. Nessa jornada corajosa dos que decidem aterrissar por aqui. Eu tinha medo. Medo de ser muito louca pra ter filho. Medo de ter depressão de novo. Medo do que aconteceria com minhas relações. Medo do medo do medo que dá, já disse Lenine. A todo momento eu enfrentava a sensação de não ter controle junto com uma necessidade de fazer escolhas e colocar minha voz em ação. Ouvi tantas vezes da psicóloga “e o que tu disse?! E o que tu fez?! Ah tu é muito educadinha!”. Sim, essa é minha psicóloga. Num momento extremamente denso do meu puerpério ela me perguntou “para que tu acha que tá vivendo isso?”. Consegui, enfim, verbalizar meio perguntando “pra exercitar minha autoridade?”. Ela deu uma risada.

Por isso resolvi remodelar o blog. Parar de ler tanto sobre geração de conteúdo pra internet. Quem sabe eu deva assumir que sou simplesmente eu por aqui tentando ser escritora. Eu quero escrever. Ponto final. É isso. Não tenho conteúdo relevante pra compartilhar. Sou só eu, aqui do outro lado da tela falando das minhas loucuras, das minhas bobices. É a minha jornada, então por que diabos eu fico me esforçando em ser linear, programada, específica, norteada? O pior é ser o algoz da gente mesmo nessa vida. Essa é a minha Jornada da Escritora, ponto final.

Gente determinada à amar!

“amigo é coisa pra se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração…”

Recebemos essa visita na sexta-feira. Eles vieram no carro – eu soube depois – fantasiando que ficariam por uma horinha – que, supostamente, é o tempo que se deve ficar nas visitas à recém-nascidos. Eles subiram as escadas cochichando e lembrando uns aos outros de que deviam falar baixinho porque, supostamente, é o que se faz em ambientes com recém-nascidos. Eu louvo todas essas “regras”, provavelmente elas devam ser cumpridas mesmo pelas pessoas de maneira geral nesse tipo de visita. Mas, é claro, eles ficaram bem mais que uma horinha e nós falamos alto e demos gargalhadas, que é uma das coisas que fazemos de melhor juntos! Luíza permaneceu incólume. Dormindo ou mamando. Afinal, ela agora já conheceu de perto essa família que é meio minha também. Não. Que é nossa família também. Que não é de sangue…não. É de sangue sim! Porque são amigos que nos enchem de vida, de energia, de vibração de amor e conexão. Isso só pode estar no sangue!

Não nos damos conta do quanto estamos na vida dos outros, não é? Vinte sete anos, a Renata falou. Vinte sete anos juntos e eu tenho trinta e três. Sabe o que significa isso? É tempo pra ca…lho e eu nunca tinha me dado conta de que passei mais tempo com essas pessoas na minha vida do que sem elas. A Renata é essa mulher linda segurando a Luíza no colo. Essa mulher que era uma menina e que foi responsável por dar início à esses vinte e sete anos de amizade. Sim, ela! Determinada, chega chegando, com esse coração imeeenso que tem. Ela que vinha todo dia me chamar no murinho da casa da praia. E eu, que só tinha seis anos mas já tinha a lua em peixes às vezes me perguntava – nunca contei pra ninguém – “ela tá mesmo me chamando de novo? Nossa, eu acho que ela gosta mesmo de mim!”. Eu tinha dificuldade de assumir que aquela estranha gostava mesmo de brincar comigo, todo santo dia, durante um verão inteirinho de férias na praia. “Brunaaaa” ela gritava lá na frente da casa. E nós saíamos a catar graminhas, pedrinhas, florzinhas e todo tipo dessas pequenices da infância pela rua. Minha bicicleta era a moto que eu pegava para ir até o mercado e quando voltava nós cozinhávamos coisas, preparávamos perfumes! No pátio dos fundos da casa, desenhávamos apartamentos e suas mobílias e circulávamos de um espaço para o outro cheias de compromissos e sonhos.

Minha mãe não gostava muito que eu fosse brincar no apartamento deles, tinha medo de que eu fosse atrapalhar. Possivelmente uma das coisas mais importantes que eu tenha aprendido com eles – mas a que levou mais tempo para aprender – é de que amigo não atrapalha! Então, era inevitável, às vezes eu estava lá, dentro do apartamentinho, “atrapalhando”! Tomando banho de piscina – daquelas de mil litros eu acho, que lota com três crianças dentro! – e imaginando que era uma sereia junto com as gurias. Às veze eu embarcava nos passeios deles, nas dunas, nos bailinhos de carnaval de Salinas. Eu sempre admirada com aquele jeito deles de gargalhar e tirar sarro uns dos outros sem parar.

Minha família parece ter se esforçado nesses anos todos em não atrapalhar, mas eles não deixaram. Continuaram vindo no “murinho” e gritando pelo nosso nome, determinados em gostar da gente. Não por acaso essa trupe trouxe na visita um presente-mensagem para a mãe puérpera: “se eu pudesse lhe dar alguma coisa na vida eu lhe daria a capacidade de ver a si mesmo através dos meus olhos. Só então você perceberia como é especial para mim.”

Nossa amizade visitou essa infância de praia, que nunca se via durante o ano. Atravessou a adolescência. A introspecção, a fúria, a tristeza. As distâncias que nunca pareciam existir quando estávamos novamente juntos na beira da praia, tomando chimarrão e tentando compreender essa ideia de existir, de viver. Nos vimos mudando de casa, de cidades, de cursos na faculdade, de trabalho, de amores. Nos conhecemos sempre em mutação. Metamorfoses ambulantes somos, nessa nossa amizade sem paradeiro, mas sempre no coração.

Luíza teve a benção, a alegria, a graça de conhecê-los antes de quaisquer outros amigos da família. E isso é longe de ser uma mensuração de amizade. É só um sinal aleatório da vida para que ela, tão pequena, tão dormindo e mamando e tentando se adaptar a tudo isso, que ela tão somente já saiba que os Figueiró estarão assim, pertinho-longe, sempre nas nossas vidas! Conectados pelo sonho, costurados nas teias das nossas almas, dos nossos corações. Assim de longe, despertando às vezes apreensivos, às vezes esfuziantes. Pensando e lembrando de um jeito querido e apaixonado dessa amizade-vida que passa. Nos atravessa, nos carrega para o fundo e nos devolve para a beira como é o mar, a praia, a água salgada que sempre amarrou essa amizade. Esse nosso tesouro guardado a sete chaves.

PS: Atlanta não tem praia…mas ouvi dizer que tem um dos maiores aquários do mundo. Acho que deve servir para nós, com um chimarrão tudo se ajeita!

Cartas para parir

Eu amo as palavras. Falar principalmente. Escrever quase tanto quanto. Esse ano eu tirei pra mim, pra minha alma, uma espécie de ano sabático, mas com viagem pra dentro e não pra fora. Reorganização de rota. Desenhei, planejei, pensei, me joguei (um pouquinho), criei um site, um blog, lancei um livro. Plantei árvores. Fiz um filho. Uma filha, na verdade. Não estava no plano, apesar de estar no desejo. Fiquei sem palavras. Sim, quase nove meses sem saber bem o que dizer, o que escrever. As palavras são meu amor, mas são minha dor também. A roseira balança um pouco e parece que elas somem. É uma coisa engraçada essa de se jogar de paraquedas pra vida, porque tem um cantinho do ego que nos pega e diz que estamos nos soltando “uhuu, que legal”, mas que ainda podemos ficar no controle. Só que não. Nunca. Egoicamente teve um ladinho meu que organizou, pensou e acreditou sim que estava se jogando na vida (mas tudo sob controle). Então a Luíza chegou, assim sem avisar, sem mandar email antes. Nem whatsapp ela mandou. Cara de pau. Implodiu meu planejamento. “O que eu faço agora meu deus do céu?” Na pegadinha do predador da psique (leiam “Mulheres que correm com lobos” fazer o favor!) que estava ali só espreitando, logo vem a enxurrada mental de: pqp onde eu fui me meter?! Eu tinha um mapa tão bonitinho, eu sabia tudo que ia acontecer, e agora?!  Kkkk…gargalha a mulher selvagem dentro da minha mente: amadinha…quando foi que tu pensou que estava no controle da vida?! Ledo engano, soltar e achar (bem lá no fundinho escondido) que ainda está segurando alguma partezinha. Fiquei aí, meio barata tonta sem escrever meus textos semanais, sem dar conta do instagram, e me chicoteando por isso, não é mesmo? Mas, fazendo lista de enxoval, arrumando isso e aquilo, olhando pela janela feito doida tentando visualizar o futuro sem noção nenhuma do que ia acontecer. Com raiva de pedir ajuda, espantada com o tamanho dos meus peitos, com choros compulsivos e sem motivo aparente (ou logo depois de olhar o tamanho dos meus tornozelos), com prazer imenso de andar pela rua e “mostrar” pra Luíza que o mundo é “bão Sebastião”. Fiz um chá de bebê que teve uma roda de mulheres. Sim, eu abri aleatoriamente o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”e li um trecho em voz alta. Capítulo sobre a sexualidade sagrada. Pois é! Enquanto isso a mulherada pintava minha barriga, escolhia pedras naturais que iriam compor uma pulseirinha de bençãos para minha pessoa usar e sentir essa energia feminina da roda durante o nascimento.

Além disso, escreviam uma mensagem para o nascimento da Luíza e deixavam num envelope para que eu lesse perto do parto. Cá estou eu, finalmente, me aproximando do portal vida-morte-vida. Peguei os envelopes e comecei algumas leituras. Claro que já chorei. De espanto, mais do que tudo. Gente, o que as mulheres são capazes de escrever! O quanto um momento desse é capaz de ir lá no fundo da alma da gente! Ah as palavras! Me lembrei delas, de como são capazes de nos transportar para o coração daquele ser que deixou uma mensagem, como telepatia. A força dessas cartas, o conteúdo poderoso, nutritivo, mágico e encantado, gente! Vem de nós mulheres! De uma roda, da nossa força, do nosso nascer e renascer! Bebi nessa fonte, nesse leite materno de amor, acolhimento, carinho e poder. E quem resolveu aparecer? Palavras! Somos matrioshkas, bonecas dentro de bonecas, uma dentro do útero da outra, uma fortalecida pela força da outra. Gratidão eterna às mulheres que fizeram parte dessa roda, que fazem parte da minha jornada. Eu e Luíza seremos para sempre muito gratas!

Sugestões para se profissionalizar na escrita

Muitas pessoas com quem converso tem me perguntado como se faz para ser escritor, escritora. Diversas por curiosidade, outras por desejo, algumas por desconfiança. Resolvi compilar nesse texto alguns passos que dei – e que continuo dando – no caminho de uma profissionalização na escrita.

Alerta! Não me considero – ainda – uma escritora profissional. Apesar de ter decidido me dedicar integralmente a esse ofício, tenho uma trajetória longa pela frente. Por isso, não quero com essas dicas sugerir que basta fazer isso ou aquilo e você será um profissional da escrita, pelamor de Machado de Assis!

  • Você precisa ser autônomo!

Isso quer dizer que além de pesquisar muito para descobrir bons cursos livres, oficinas e literatura especializada você precisa formar um filtro pessoal que equilibre suas escolhas entre custos, retorno em conteúdo, qualidade e diversidade dos professores e assim por diante. Fora da academia há muitos cursos livres e oficinas, vá construindo sua própria “grade curricular” de acordo com seus anseios e necessidades. Se você está fora de São Paulo e Rio de Janeiro, existe muito material de qualidade e oferta de cursos online! Formação acadêmica em Escrita Criativa no Brasil é para poucos, está em poucos lugares e recém começando. Países da Europa ou Estados Unidos já tem na sua cultura a promoção da Criação Literária como parte importante na cadeia do livro, entendida como trabalho, estudo, pesquisa e técnica, não apenas intuição vinda das “musas” ou fruto de golpes boêmios de inspiração. A PUC-RS tem uma trajetória mais longa nesse sentido, muito por causa do prof. Luiz Antônio de Assis Brasil e sua Oficina de Criação Literária com mais de trinta anos. Hoje eles promovem a oficina e cursos em nível de graduação e pós. Aliás, aproveita e dá uma lida nesse texto ótimo do Daniel Gruber “Para que servem as oficinas literárias?”

Com isso tudo quero te dizer que se tens desejo de estudar e de trabalhar com Escrita Criativa é muito mais provável que você tenha que construir um caminho bastante autônomo, compondo seu próprio mosaico de saberes. Isso pode ser difícil, pois fomos educados a receber conhecimentos de maneira estruturada por outros. Matricula aqui nessa graduação, no final diploma e tcharãn! Tudo resolvido.

  • Amplie seu repertório de conhecimentos o máximo possível.

O que tenho feito é construir a visão mais abrangente possível da escrita. Não acho saudável nos colarmos em um tipo de técnica. Algumas pessoas acham que exista uma espécie de receita. Eu escrevo como uma expressão de quem eu sou e para fazer isso melhor estudo e busco ter o maior repertório possível de técnicas para encontrar minha própria voz no meu trabalho.

A primeira oficina que fiz foi em uma Feira do Livro de Porto Alegre, em 2007 ou 2008, com a Anna Claudia Ramos – eu nem estava muito consciente do que estava fazendo e esse assunto voltou para a gaveta por uns bons anos. Com a mente mais focada, em 2016 eu fiz por um semestre o Curso de Introdução à Escrita Criativa com Tiago Novaes – professor de diversas oficinas em São Paulo e da pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Esse curso, sem dúvidas, foi um divisor de águas. Principalmente porque eu estava mais consciente do processo, mas foi nele que desmistifiquei o trabalho do escritor, compreendi meus bloqueios e comecei a me autorizar a escrever, fortemente impulsionada pela publicação da antologia de contos ao final do curso. Troquei muito com colegas, tive meus textos lidos por estranhos pela primeira vez, li muito a produção de outros colegas, recebi comentários, análises do professor. O Tiago é psicólogo então há elementos subjacentes no curso dele que ajudam muito a impulsionar quem é menos autoconfiante ou que ainda não sente que é legítimo de se aventurar na escrita. 

Em 2017, quis me dedicar mais ao estudo do texto infanto-juvenil e fui atrás da Anna Claudia Ramos de novo! Encontrei ela pela internet e iniciei no segundo semestre aulas particulares pelo Skype (ela é do Rio de Janeiro), foram muitas indicações de leitura, análises de textos infantis ruins e bons, criação e revisão. Foi daí que saiu o texto do meu primeiro livro “Um Encontro Mágico”! Em 2018 fiz um curso sobre Literatura Infantil com a especialista na área Elaine Maritza, na Metamorfose Cursos, uma escola aqui em Porto Alegre que realiza diversas oficinas com conteúdos específicos e que oferece o Curso Livre de Formação de Escritores. As turmas são pequenas e acabam resultando em publicações de textos dos alunos através da editora de mesmo nome. Eles também tem cursos online!

No verão de 2019 iniciei a assinatura da Hardcover, a plataforma de membros do escritor André Vianco. Eu já acompanhava há alguns anos o trabalho dele a partir da newsletter e do blog da Vivendo de Inventar, sabia dos cursos que oferecia mas foi esse ano que entendi que aproveitaria melhor o conteúdo que ele oferece. Nessa assinatura temos acesso à algo em torno de 60 horas de aulas mas sempre vamos recebendo conteúdos renovados. Além disso, ocorrem alguns webnários muito bons com a Margareth Brusarosco que faz parte da equipe e com o próprio Vianco. Nessa assinatura também recebemos uma assessoria nas nossas criações literárias e um contato direto com oportunidades de publicação criadas especialmente para os assinantes. André Vianco ensina muito sobre as estruturas mais clássicas para os romances. Tem um grande arcabouço de técnicas de engajamento do leitor, enfocando em criarmos histórias que prendam o leitor até o final do livro. Um ponto muito significativo é que acabamos por fazer parte de uma comunidade muito engajada de escritores através de grupo do Whatsapp, podemos tirar dúvidas, trocar ideias, pedir referências nas mais diferentes áreas, ter contato com colegas que trabalham com revisão, diagramação, criação de capas, ilustrações.

Esse ano também comprei numa promoção o curso online Primeiros Escritos da Raquel Agavino do blog O Livro Aberto. Ela é bastante didática e prática em ensinar técnicas de revisão de textos, mostrar a estrutura básica de diferentes gêneros literários, ótimo para quem está começando. Além disso, estou namorando (muito mesmo) os cursos do LabPub, uma escola voltada à formação EAD na área editorial. Há uma infinidade de cursos online de muita qualidade!

  • Se você quer ser escritora, escritor, aprenda lendo né!?

Há muito conhecimento bem consolidado acessível através da literatura técnica sobre Escrita Criativa. Em 2015 eu havia visto uma nota sobre o lançamento do livro “Sobre a escrita” do Stephen King, comprei e quem sabe tenha sido ele o responsável pelo pontapé de uma fase mais consciente na escrita. Sempre acreditei que os escritores “baixavam” aqueles textos dos livros “automaticamente”. Achava que o que eu lia no livro publicado tinha saído daquele jeito de primeira. Quando li o King contando dos seus processos, de como ele faz uma primeira escrita mais “no fluxo”, deixa o texto descansar e depois volta para a PRINCIPAL parte do trabalho, que é reler, reescrever, tirar as sujeiras e as gorduras, disponibilizar a leitura para os leitores beta, voltar para o texto, mexer, dar para o editor ler, voltar para o texto…enfim! Me dei conta que ter uma história viajando na cabeça era 2% do processo de escrever o livro e foi aí que percebi que poderia haver um caminho de construção para chegar lá.

Quando me inscrevi no curso do Tiago Novaes, recebi uma apostila com diversos textos, um dos que ele fala muito é “O Escritor e a Fantasia” do Freud, gostei bastante também de “O Narrador” presente no livro “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura” do Walter Benjamin. Os livros mais indicados pelo Tiago foram:

– Como funciona a ficção, do James Wood (MUITO difícil de encontrar, perneei os sebos aqui de Porto Alegre e não consegui na época, ele ficou esgotado um tempo mas agora está disponível novamente na Amazon, facinho de comprar.

– A arte do romance, do Milan Kundera (não li e não tenho, permanece na lista)

– Aspectos do Romance, do E.M. Forster (tenho mas ainda não li)

Durante as aulas particulares que fiz com a Anna Claudia Ramos adquiri o livro dela:

– Nos bastidores do Imaginário: Criação e Literatura Infantil e Juvenil (só achei no sebo)

Nesse estudo ela analisa quatro obras da Ana Maria Machado. O livro é riquíssimo principalmente para pensarmos a criança, como a representamos e como falamos com ela na literatura infantil e juvenil.

Adquiri alguns livros também, fruto de outras indicações e pesquisas minhas, nem todos estão lidos já, porque, enfim, a lista é grande!

– Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção, do Stephen Koch. Bem abrangente, fala desde a vida do escritor até variedade de estilo e técnicas de revisão. O autor foi professor de pós-graduação na School of Arts da Columbia University por mais de vinte anos.

– A arte de escrever, do Schopenhauer. Está na fila!

– Viver e escrever, vol. 3 da Edla Van Steen. Contém entrevistas com autores como Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. (fruto dos meus garimpos na Feira do Livro de Porto Alegre)

– Como se encontrar na escrita, da Ana Holanda. A autora é jornalista e editora-chefe da revista Vida Simples. Nesse livro ela traz os elementos necessários para uma “Escrita Afetuosa”, quem conhece a revista e os textos que têm lá vai compreender. O objetivo é pensar sobre textos que sejam capazes de provocar empatia, de tocar o outro, de inspirar.

– Escrever Ficção: um manual de criação literária, do Luiz Antônio de Assis Brasil. Lançado esse ano pela Companhia das Letras, assim que pude corri para comprar. Ainda não li todo, mas já passei os olhos e de longe a gente percebe a quantidade de conteúdo que tem ali. Se ainda não podemos fazer a oficina do Assis Brasil, agora podemos levar ele pra casa. Maravilha!

  • Leia muito e de tudo!

Sim, essa é a dica que você mais vai ouvir. Leia muito e leia de tudo. Eu tenho na minha “rotina de trabalho” uma hora para leitura. E antes de dormir eu sempre leio mas essa não está contabilizada como “tarefa”. O Stephen King fala pra ler o que tem de bom, de clássico e tal, mas principalmente ler o que tem de ruim por aí. É onde a gente mais aprende! Mas, ok, às vezes basta passar os olhos e pular uns trechos, porque fica difícil né. Uma escolha importante que fiz nesse processo foi assinar a TAG – Experiências Literárias. Eu fiquei pensando como, afinal, fazer para “ler de tudo”. Horas nas livrarias e a minha indecisão absoluta para escolher apenas um livro não iam ajudar. Faz dois anos então que a TAG manda para minha casa o que ela bem entender e ainda pago por isso! Mas amo! Sem dúvida foi fundamental para ter acesso à uma diversidade literária e ainda receber junto uma revista, com entrevista com a curadoria do mês, texto sobre o autor ou autora do livro enviado, contexto histórico, movimento literário etc. Riquíssimo para quem ama literatura e mais ainda para quem quer estudar literatura.

  • Aproveite o conteúdo gratuito que a internet te oferece

Hoje tem, simplesmente, MUITA coisa sobre Escrita Criativa na internet, seja experto – principalmente se o dindin tá curto – e aproveite tudo que tem de graça por aí. Ok, eles vão tentar te vender cursos e livros depois, mas, é só filtrar e compreender também que conteúdo de qualidade custa para ser produzido e é normal que os criadores estejam fazendo seu marketing. Dicas de gente bacana para acompanhar:

Canal Escrita Criativa no YouTube: é o canal do Tiago Novaes e recomendo fortemente que você assista a série “Diário do Romance” que ele fez em 2016 enquanto escrevia o novo livro dele.

Carreira Literária, site, canal no Youtube e instagram. Organizados pela Flavia e a Alessandra o canal e o insta tem muito conteúdo gratuito e de qualidade, os cursos delas tem ótima fama mas ainda não consegui fazer nenhum (quénquénquén)

O Livro Aberto, Raquel Agavino. Ebook’s com bastante conteúdo legal, blog com material interessante e oferta de cursos também.

Escritor Publicado, blog. MUITO material sobre plataforma de autor, marketing, vendas, organização de projeto literário. Vale muito acompanhar!

Concursos Literários, blog. Faz a seleção e atualização de informações sobre concursos literários, seletivas e premiações. Faço a assinatura da newletter e recebo toda a semana a atualização. Muito importante os escritores iniciantes acompanharem essas oportunidades de perto e como é difícil manter-se informado sobre tudo que tá acontecendo o blog ajuda demais.

Publishnews, site. Mais do que necessário para acompanhar o mercado editorial no Brasil.

LiteraturaRS, site. Acompanho para ter informações mais específicas do estado onde moro, novas publicações, lançamentos, prêmios, cursos, eventos.

  • Esteja consciente!

Lá vou eu tergiversar sobre o ser e o estar da vida no universo. Mas, muito bem, essa sou eu e fato é que nós somos carregados de bloqueios, travas emocionais, distorções da nossa essência. Eu divido minha trajetória na escrita entre um período inconsciente e um consciente. Primeiro era algo que estava lá, permeando meus pensamentos com histórias, rabiscos pra lá e pra cá, mas com zero aceitação ou percepção de que era realmente algo que fazia sentido para mim. Ao final do Ensino Médio eu tinha enorme desejo de fazer faculdade de Cinema (contar histórias, né?!). Meu pai me deu de presente o livro “Manual do Roteiro” do Syd Field, para eu avaliar se era isso mesmo que eu queria. Amei o livro! Me apaixonei mais ainda pelo cinema, mas, juro que não me dei conta de que aquele livro falava muito mais de escrever do que de fazer filmes!

Por muitos anos fiquei em um vai e vem com a expressão de mim no mundo. Aquele famoso “quem sou eu, onde estou, para onde vou?”. Então sugiro que você, antes de mais nada, tome consciência de você, do que você quer, do que você precisa. Não cai nessa de “ai, eu não posso ir por aqui por que isso não dá dinheiro, porque isso não é aceito socialmente, por que isso blábláblá”. Grande parte das coisas são uma questão de escolha e arcar com as consequências. Se você não está disposto às consequências não diga que é por algo externo à você que não vai dar para fazer, só diga: na verdade eu não quero tanto assim, por isso não vou fazer. Pronto. Seja responsável pelas suas escolhas.

Se algo foi útil, comenta aí! Me fala da tua trajetória, do que tem feito em busca dos teus caminhos para realizar quem você é no mundo! E vamu cê feliz que gente feliz não incomoda!

Ah! E no meu canal do Youtube, A Jornada da Escritora tem o vídeo falando ligeirinho sobre tuuudo isso que coloquei explicadinho no texto. Vai lá dar uma olhada!

Vá achar sua turma (e você mesma!)

com pitadas de Clarissa Pinkola Estés

Neste meu ano de 2019 tenho falado muito pouco. Para quem falava por mais de quatro horas seguidas, diariamente, pode-se dizer que hoje vivo em silêncio. Para quem estava em meio à, pelo menos, vinte e cinco seres humanos, hoje vivo sozinha. Traz uma imensa paz e muito autoconhecimento. Sinto que nos meus últimos quinze anos de vida preparei-me, sem saber, para esse momento. Não suportaria essa introjeção em outras épocas.

Passei uma boa parte da vida preocupada que os outros compreendessem o que eu compreendia. Falava e falava e falava. Muito! Queria convencê-los. Despendia uma energia colossal em explicar. E explicava e explicava. Já adolescente ouvi listas dos meus defeitos, de todos os lados alguém sabia mais sobre mim, o que eu devia ou não ser e fazer do que eu mesma. Eu tinha uma necessidade sufocante de me comunicar. Precisava falar, precisava colocar para fora o mundo que residia dentro da minha mente. Ouvi ainda e por muito tempo o quanto eu era inconveniente, percebia os olhares, os comentários, como se inevitavelmente minhas palavras ferissem as pessoas, como se eu fosse algo temível ou odiável. “Por que ela não consegue ficar quieta?” Eu não tinha a escrita naquele momento. Na verdade, eu a tinha, mas cada tentativa de transpor para o papel era um sufoco. Achava tudo horrível, pensava que os livros que eu lia tinham saído da mente da autora ou do autor exatamente daquele jeito e eu não era genial como eles, eu não era perfeita como pensava que eles eram, então não estava autorizada a escrever.

Gradualmente fui me culpando, aprendi a odiar quem eu era. Dizia na terapia, no início da vida adulta, que eu queria poder não falar mais, que eu queria ser outra pessoa. Me esforcei tantas vezes para isso, em rodas de conversa ficava em silêncio e acabava ouvindo: “não vai dizer nada Bruna? Vai lá, tu sempre fala!”. Não conseguia compreender e sentia ainda mais raiva. Carreguei por muito tempo dentro de mim a triste ideia de tentar encaixar-me. Sim, apesar da rebeldia e da raiva eu queria o que todo ser humano quer: encontrar minha turma, uma mínima torcida, como diz a Clarissa.

O que fiz ao longo do caminho foi tentar, sozinha, achar as ferramentas para dar conta disso. Tentei articular o que queriam de mim com o que eu achava que eu queria de mim mesma. Fui virando um Frankenstein. Já tinha perdido os instintos, não sabia mais farejar os perigos. Me perdi da minha essência. Não entendia por que minhas falas eram tão odiosas, não entendia por que eu deveria falar menos, ser menos, incomodar menos. Foi duramente que aprendi que tentar ser outra coisa, sendo ainda – e inevitavelmente – quem se é, traz um resultado tenebroso. Além da mente colapsar, nos tornamos um arremedo de gente. Tentamos agradar um pouco aqui, nos impor um pouco ali. Quando tentava ser suave acabava sendo dura, quando precisava ser mais dura era suave demais. Quando o silêncio seria uma resposta melhor, eu falava, e vice-versa.

(…) digamos que nesse ponto o patinho passa pela mesma experiência pela qual passaram milhares de mulheres “exiladas” – aquela de uma incompatibilidade básica com pessoas diferentes, que não é culpa de ninguém, apesar de que a maioria das mulheres, num excesso de amabilidade, assumam o fato como se fosse sua culpa exclusiva. Quando isso acontece, vemos mulheres que estão sempre dispostas a pedir desculpas pelo espaço que ocupam. Vemos mulheres com medo de dizer simplesmente, “não, obrigada”, e ir embora. Vemos mulheres dando ouvidos a alguém que lhes repete insistentemente que elas são teimosas, sem compreender que os gatos não nadam e que as galinhas não mergulham.

(Estés, 1994, pg. 235)

Na jornada fui descobrindo que quando passamos pelos desmontes psíquicos da infância – que os adultos por ignorância, inconsciência, executam – torna-se cada vez mais complexo reencontrar-se consigo mesmo. Muitas vezes o trabalho é tão bem feito que nos vemos em pânico ao tentar esse contato com nossa essência. No meu caso, foi um trabalho árduo e triste me tornar o que me tornei e sendo tão custoso não queria sair novamente do isolamento e descobrir sabe-se lá com o quê depois da curva. O patinho feio nem se reconhece cisne na primeira vez que olha seu reflexo no lago. No entanto, a eterna sensação de não se encaixar, de não pertencer é devastadora e te faz seguir tateando, meio às cegas, à procura de alguma coisa que te preencha.

Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. (…) É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. (…) Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.

(Estés, 1994, pg. 234)

Essas citações aí em cima são da Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”. Todas no capítulo seis “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma benção” em que ela analisa o conto “O patinho feio” que reli recentemente, fazendo despencar mais um bocado de fichas. Ela diz que essa foi “uma das poucas histórias a incentivar sucessivas gerações de gente diferente a aguentar até encontrar sua turma”. Lembro-me do primeiro contato que tive com o livro, sentia que ali havia algo muito importante, alguma espécie de mistério ou ensinamento profundo, mas não conseguia seguir na leitura. Era difícil e nem sei bem por quê. Levei anos para avançar nas páginas. Ele ainda é meu livro de cabeceira, porque há camadas e camadas de aprendizados . Cada vez que retomo, descubro mais um segredo.

Quando revisito minha época de escola tenho vontade de ir lá me buscar. Tagarela, inquieta, oferecida, vagabunda. Sim, quanto mais crescemos mais forte o machado da cultura vem pra te derrubar. Quem você pensa que é? Não faz muito me caiu mais essa ficha. Se eu fosse menino, me adjetivariam como? Perspicaz? Eloquente? Gênio forte? Sim, é sério. Eu nunca tinha me dado conta (tão bem a cultura faz seu serviço) de que boa parte da inconveniência do meu ser se deve ao fato de ser mulher. Já fazia algum tempo que eu tinha a Clarissa de companheira e sorri pra ela na minha cabeceira, lembrando que já havia lido isso, mas ainda não estava pronta pra entender.

As condições culturais mais destrutivas para o nascimento e a vida de uma mulher são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, aquelas sem carinhosos rituais de absolvição, aquelas que forçam a mulher a escolher entre a alma e a sociedade, aquelas nas quais a compaixão é segregada pelas classes econômicas ou por castas, em que o corpo é visto como algo que precisa ser “purificado” ou como um santuário a ser regulamentado por decreto, nas quais o novo, o incomum ou o diferente não geram prazer, nas quais a curiosidade e a criatividade são punidas e censuradas em vez de recompensadas, ou recompensadas apenas quando não se é mulher, nas quais são perpetrados contra o corpo atos dolorosos que são chamados de sagrados, ou nas quais a mulher é castigada, como diz Alice Miller sucintamente, “para seu próprio bem”, nas quais a alma não é reconhecida como um ser por seus próprios méritos.

(Estés, 1994, pg. 222)
Anna Pavlova, bailarina russa, com seu cisne de estimação, Jack.

Nesses golpes de insights penetrantes, a gente tem momentos de se perguntar: mas porque diabos eu fui por aquele caminho. Aprendi que não importa. As decisões que tomei eram as possíveis naquele estado de consciência. Não podiam ter sido melhores pois me trouxeram até aqui. Eu construí esse lugar que ocupo hoje. Estar consciente é para os corajosos! Quanto mais aguçada a intuição mais e mais profundamente viajamos, para dentro de si e para o mundo. E lá, na verdade, não encontramos muita coisa. Nada muito exato. Vamos achando esses pedaços, reflexos, borrões. Não tem receita. E olha que eu procurei! Até quando li a Clarissa pela primeira vez achava que poderia encontrar ali a revelação de todos os mistérios. Por um bom tempo eu procurei o grande segredo, o livro que revelaria tudo, o tratamento que me ajudaria de uma hora pra outra.

Quem sabe esse tenha sido um dos principais insights que tive na vida. Não seria o floral, a acupuntura, o reiki, o passe, a palestra, Osho, Estés, Dalke, Morin, ballet, corrida, Kardec, Jesus, Gandhi, aquarela, meditação, japamala, constelação familiar…que me transportariam para o paraíso. Para onde enfim, eu teria paz. Seria tão somente a eterna busca. A medida exata de uma gota para cada possibilidade de ver. Quem sabe por isso eu me pegue perdendo as palavras, preciso reaprender a falar. Não sei mais dizer grandes verdades, perdi a capacidade de abarcar todas as respostas. Tentaram me ensinar a ser pata, mas só conseguiram me fazer não ser cisne. Deixo-me no “não sei”, porque aprendi que sempre há uma outra promessa de encontrar comigo mesma logo adiante, só que agora eu sou capaz de me reconhecer no reflexo do lago.

MAIS FICÇÃO, POR FAVOR

Vivemos tempos obscuros. Uma das frases que mais tenho visto nas redes. Há uma sensação de desalento, de esgotamento, impotência. Mas ainda são travadas intensas batalhas e me parece que muito das disputas está no campo da verdade.  O que é fato, o que é opinião, o que é real, o que não é. Pessoalmente, não acredito que seja possível descobrir, encontrar, a verdade ou, ainda, aS verdadeS. Nesses nossos dias parece haver uma contraposição entre a “verdade da diversidade” e a “verdade da tradição”. Não deixa de ser uma disputa pela verdade, ou pela realidade. Existe algo de fato. Algo que é fato porque eu disse ou algo que é fato porque estudiosos, pensadores, cientistas disseram.

Eu entendo que possa dar um mal-estar esse lugar difuso das impossibilidades, das inverdades, das irrealidades, das incertezas. Mas acho que é justamente por aí que temos que voltar a nos aventurar. Nossos antepassados tinham esse mal-estar mais presente. Eles não sabiam o que havia do outro lado do oceano. Não sabiam o que havia para além da Lua e do Sol. Quantas fantasias e explicações criaram para tentar entender! De repente – como costumam fazer os pais e mães – não quiseram nos deixar nessa mesma angústia. Nos ensinaram, nos explicaram cada dia mais sobre tudo que foram descobrindo. Fomos destrinchando a vida e construindo a realidade e nos esforçando para transmitir cada resposta, cada minúcia, nome de planta, fórmula matemática, formação rochosa, organização política, guerras, zoologia, ciclo da água, etc, etc, etc. Ai do mal-estar do não-saber.  Nós próprios, em um bate-papo qualquer, quando surge essa zona obscura do não sei não corremos para o celular? É divertido, sim, eu também faço muitas vezes. Mas e aquele suspiro de meio minuto tentando imaginar uma explicação, morreu?

Penso que nos mergulhamos – ao longo dos últimos quinze anos mais ou menos – cada vez mais profundamente em uma tal realidade que nos barbariza. Fomos noticiados, jornalizados, documentados. Dia e noite a televisão nos mostra a realidade. Crime, doença, morte, acidente, devastação. Parece letra do Arnaldo Antunes. Peste bubônica, câncer, pneumonia. Raiva, rubéola, tuberculose, anemia. E o pulso ainda pulsa. Vamos vivendo, mas nossa mente não foi formatada pra encarar cada faceta mais terrível da vida, dia após dia, sem intervalo, sem refresco. Chegou a internet. Estamos libertos dos ditames da grande mídia! Mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Na minha adolescência o que mais circulava na rede e mais mobilizava a galera eram imagens de gente morta. Crimes ou acidentes famosos na tv, encontravam no www a liberdade de mostrar-se sem tapar as vergonhas. Demasiada realidade. Não há quem suporte.

Tenho uma frase do Tolkien aqui na minha mesa: É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela. Parece que chegamos em um tempo onde nos preocupamos demasiadamente em tornar tudo reconhecível, só que esquecemos que é necessário também se transportar, momentaneamente, para fora do real. Isso é humano, fantasiar é humanizar-se também. Contamos histórias desde que desenvolvemos os rudimentos da comunicação. Precisávamos dizer das coisas fantásticas que víamos aos que não puderam acompanhar a caçada. Precisávamos contar sobre os seres que viviam no fundo do mar, sobre os mitos escondidos nas florestas, os seres que criavam o arco-íris, a tempestade. Para que a realidade possível fizesse um pouco mais de sentido ou doesse um pouco menos. Precisamos, ainda, falar do que se passa dentro de nós, dos nossos sonhos, ou então de um mundo paralelo todo possível na nossa mente. Isso nos dá sobrevida, nos faz respirar mais um pouco, nos transporta para outra dimensão, nos faz sentir a pele do outro, o pensar do outro e, ao mesmo tempo, nos conectar com nós mesmos.

Na ficção qualquer coisa pode ser real, pode ser verdade. Mas é no campo da ficção. Quando voltamos para a realidade, tantas vezes dolorosa, sabemos que não tem varinha mágica por aqui. A gente não é bobo. Até as crianças pequenas sabem que a cama tem que ser arrumada de verdade, mas também sabem que é infinitamente mais divertido fazer de conta que tem um poder mágico que faz os lençóis voarem sozinhos. Quando retornamos do lado de lá – onde a imaginação impera – estamos com os pés muito mais no chão, principalmente porque nosso coração pôde suspirar aliviado ao sair pra dar uma volta. Não sei bem quem nos convenceu que ficar no mundo da Lua faria a pessoa se desconectar. Nos desconectamos da realidade quando ela é demais. Nos desumanizamos para poder sobreviver ao excesso de barbárie e, normalmente, acabamos por criar mais barbárie porque a banalizamos.

Quando não há mais lugar para a ficção, o campo da verdade e da fantasia embaça e tudo vira uma massa disforme. Acabamos por ter essa sensação de que estamos em um filme. Ouvimos certas falas, ou vemos certas atitudes e pensamos: não pode ser que a pessoa esteja dizendo/fazendo isso, não é real. Ao mesmo tempo qualquer invenção da mente, do desejo, da vontade se torna real: Eu vi um vídeo no Youtube, o cara falou: a terra é plana. É verdade. A gente tem um afã de correr e mostrar todas as descobertas da ciência, as comprovações, as evidências. Mas não se trata disso. Não se trata de disputar o campo da verdade ou da realidade porque, nesse momento, não é mais possível reconhecer as bordas desse campo. Não há, de novo, fronteiras entre o que é ficção e o que é real.

Percebem como nos últimos dez anos a indústria do blockbuster no cinema entrou em um redemoinho de refilmagens? Hollywood tem retornado aos seus arquivos para buscar novidades? Para reapresentar ao mundo histórias que já foram contadas? Por um lado, é um bom sinal, fazemos o que for possível para continuar contando histórias, mas também nos mostra como tem sido difícil criar do ponto zero. A literatura amadora, o Wattpad, com muita produção adolescente está repleto das tais Fanfic’s. Ficção de fã. Costumeiramente os mais jovens pegam os personagens que amam e continuam a escrever a história. Cria-se um pouco, claro, mas eu sinto como se estivéssemos engessados, enferrujados para o mundo das invenções.

Há, nesse caldeirão da vida, sem dúvida, espaços onde a ficção parece ser mais celebrada. Netflix tem gerado muito conteúdo bom, com qualidade narrativa e estética. As lojas de ebook tem trazido escritores iniciantes à tona com mais facilidade do que nunca. Sim, é mais fácil hoje encontrar material sobre criatividade, criação, etc. Mas sinto que precisamos com urgência nos medicar com ficção e mais do que tudo, reestabelecer o lugar do mágico. Vamos parar de temer o mundo da fantasia. Vamos deixar de nos sobrecarregar com excesso de realidade dia e noite. Precisamos da fantasia. Sim, mais do que nunca precisamos ficar no mundo da Lua. Precisamos escrever e ler muita ficção. Precisamos reconhecer novamente essa fronteira. Atravessar para o lado de lá e voltar para olhar o mundo. Reconhecer as diferenças entre evidência e fantasia, entre desejo e convivência pacífica. Precisamos sair do quadrado da verdade, pegar a mala e entrar pelo túnel do terror, da vontade de matar alguém e quem sabe matar mesmo, do amor adolescente não correspondido, da viagem espacial com todos os seres inimagináveis que viram amigos, das dores sofridas por um estranho das quais eu nunca teria conhecimento na minha vida real e ao final da viagem fazer o caminho de volta. Olhar para nossa vida com todas essas experiências irreais na bagagem, toda essa fantasia partilhada por telepatia – como diria Sthephen King. Aí, quem sabe, possamos nos despojar um pouco de nossas certezas, nossos absolutismos da razão, respirar, e tentar fazer a realidade um pouco mais reconhecível.  

ÁRVORE

Hoje me acordei com sons de motosserra. Vez ou outra, entre meus afazeres, olhei pelas janelas do apartamento em busca da árvore que estava sendo cortada. Quem sabe não fosse o caso, quem sabe fosse apenas uma poda necessária, quem sabe fosse outra coisa sendo cortada. Estendendo a roupa, segui novamente o som que retornou depois do almoço, disse em voz alta “vem de lá” e assim que disse um enorme galho da copa despencou.

Devem achar algo muito idiota, mas sempre me dá algum tipo de dor ver uma árvore sendo derrubada. Tenho uma coisa com as árvores. Pequena, tinha um espanto delas, daquelas enormes. Sentia como se fossem seres gigantes e monstruosos. Lembro-me nas viagens de carro até a praia, ou até a casa da minha nona, quando já era noite e as beiras das estradas, densas de árvores, me apavoravam. Tinha uma impressão tão real de que dali sairiam seres obscuros. Ainda assim, meus olhos não saíam delas. Um pouco mais velha aprendi a assustar os mais novos com histórias tenebrosas de bruxas em florestas. E mentia sobre os seres que eu via. Melhor era deixar os outros assustados do que viver sozinha com meus monstros.

Voltando à árvore que esperançosamente, eu acreditava, não seria derrubada, me coloquei a admirá-la. Ali, já espremida entre prédios, parece que ainda lhe achavam inconveniente. Quando olho árvores grandes penso em todo o trabalho. Quanto tempo carregando o sol para suas células. Quanto tempo para perseguir a luz com cada galho. Tolkien escreveu no seu Senhor dos Anéis sobre os Ents. Seres que falam em outro tempo. Uma pequena frase leva horas para ser dita. É o tempo das árvores. Elas vivem em outro tempo, muito diferente do nosso. É por que somos tão efêmeros, tão passageiros que achamos lentos os seres milenares. Não compreendemos as montanhas, nem as conchas que virarão areia fina na praia. Sequer as árvores, que são tão mais velozes. A araucária leva trinta anos para dar o primeiro pinhão. É rápido para a montanha. Mas, uma vida para um ser humano. Quem sabe seja por isso que nos tornamos incapazes de nos conectarmos com esses monstros de outro mundo. Escuto a motosserra insistente, penso ainda em como lutam as árvores, frente ao metal, veloz, contundente. Regozijo-me em ao menos saber quantos homens e quantas lâminas são necessários para abater o gigante. O tempo ainda se faz presente. Um dia todo para derrubá-la. É rápido. Um átimo na vida da árvore. Mas, um dia todo de trabalho humano, de energia elétrica, de cordas para puxar, de caminhões e combustível para carregar seus pedaços. Ela resiste.

Costumamos achar tudo tão trabalhoso. É tanto serviço, é tanta correria. Tudo tão rápido. Não nos toca os, pelo menos, quarenta anos que leva para chegar aquela altura. Fala-se em crescer, em desenvolvimento, mas não se olha as raízes profundas, não se repara nos galhos velhos que encorpam vagarosamente com o passar das décadas. Um prédio sobe em menos tempo. Mas esquecemos dos tempos das muitas vidas que fazem crescer um prédio.

Resolvi fotografar. Olhei por essa janela, por onde já olho há trinta anos. Quis fazer um retrato de cada árvore. Quis dizer-lhes (na língua dos Ents) que eu as conhecia há muito. Que me lembrava de acompanhar seu tamanho no horizonte. Que vi algumas irem ao chão e dessas não haveria registro.

Mas que vi também essa enorme amiga que sempre encheu minha janela, ser atingida por um raio e ter sua copa majestosa rompida ao meio. Quisera poder lhe tocar e dizer o quanto admiro seu trabalho de cinco anos voltando a crescer e preencher de folhas o espaço vazio arrebatado pela tempestade.

Contar à araucária que assisti a poda cruel que lhe fizeram, descaracterizando sua copa tão peculiar – porque as pinhas caem e estragam os telhados.

Eu devo mesmo ser muito piegas. Meio boba, inocente, sonhadora, sem noção. Já ouvi tudo. É porque me detenho nas árvores. Deve ser. Vou seguir me doendo com sons de motosserra. Só porque prefiro viver um pouco o tempo das montanhas, das conchas e dos galhos em busca do sol.