Me joga areia que eu te soterro.

Praia cheia. Sol fritando os ombros, a pele do rosto já meio repuxada. Amo andar pela beira da praia vazia, aquieta minha mente, mas praia cheia. Ah! É um banquete de observações. Cada guarda-sol uma sentença, um cheiro de protetor solar e as próprias regras. Adolescentes não levam guarda-sol, apenas uma toalha, canga, deitam-se ali, jogam-se na água, voltam, enrolam tudo, saem caminhando, param em outro lugar. Gazebos são diametralmente opostos, ali instalam-se moradores. Tem comida refrigerada, bebidas das mais variadas, cadeiras para todos, toalhas e cangas, protetor solar e óleo bronzeador, mais comida. Quando me sento em algum recanto desses, gosto de assistir os filmes que vão se passando. Verdadeiras narrativas, dramas, romances, comédia, terror sobrenatural. Em um mesmo verão é possível assistir, camuflada pelas lentes escuras, os mais variados enredos.

Numa dessas observei um casal com um menino em torno de três anos. Os pais sentados sob o guarda-sol, olhavam o celular. O menino girava no entorno. Ele quis mostrar algo que fez na areia, um montinho do meu ponto de vista, do dele poderia ser um castelo medieval com um dragão dentro. A mãe deu uma expiada, o pai nem sabia o que acontecia. Ele insistiu, queria mais. Que brincassem? Que participassem da fantasia? Nada. Ele juntou um punhado de areia na mãozinha e jogou na mãe. Ela se levantou rápida e brigou com ele, gritando alguma coisa como: que isso!? E tentando tirar a areia do cabelo. Ele abaixou-se novamente e juntou mais areia. Era uma mão pequena, um punhado de areia que não prometia muito. Admito que torci um pouco por ele. Inclinou-se todo pra trás, o pequeno braço tentando empreender força ao punhado. A mãe deu uma risada e chutou com o pé uma quantia volumosa de areia no menino. Ele tomou um “banho”, da cabeça aos pés. Correu para trás chorando e com as mãos no rosto, meio cego provavelmente juntou ainda corajoso um punhado de areia em cada mão. Tentou em meio às lágrimas jogar novamente na mãe enquanto o pai começava, vagarosamente, a levantar-se da cadeira. Seu golpe terminou no vazio. A mãe então dizia: bem feito! é pra ver como é bom jogarem areia na gente! A confusão, claro, estava armada. Ele estava em prantos e o pai entrou em ação, brigando também. A mãe resolveu ir até o menino e observar mais de perto o rosto, mas ainda ralhava: viu no que dá? Não é pra jogar areia nos outros!

Me perguntei o que teria sido diferente se no primeiro chamado o pai ou a mãe tivessem simplesmente virado para admirar o montinho? Perguntado sobre o montinho? O que tu construiu? Uau, um castelo? Quem mora nele? O único comentário que costumo fazer com algum amigo ou familiar que esteja por perto é: pois é, somos todos crianças ainda.Na comunicação não-violenta se diz que a violência é o fim trágico de uma necessidade não atendida. E sim, nós adultos temos uma bagagem dessas necessidades, somos todos crianças feridas. Podemos, claro, olhar amorosamente para esses pais, criar rede de apoio e etc. Mas, de maneira mais imediata é preciso ao menos tornar-se consciente das bagagens para não as despejar, simplesmente, em cima dos pequenos sobre quem nós costumamos ter vantagem física e intelectual. Soterrá-los em nossas dores e orgulhos feridos, de maneira imatura e inconsciente é, fatalmente, cruel e irresponsável. Para os que tem a benção de ter por perto crianças de até sete anos, aproveite! Eles são uma fonte imensurável de autoconhecimento.

A infância é linda, muito mais valorizada hoje do que jamais foi na história da humanidade, mas respeitá-la como adulto é, antes de tudo, passar pela sua própria e ficar apenas com o arquétipo da criança dentro de nós. Aquela que quer saber o porquê de tudo, que ri de si mesma, que expressa seus afetos sem vergonha. De resto, deixemos que as crianças sejam crianças e nós os adultos capazes de ser o reduto confiável para que elas avancem.

NÃO ACREDITO

Pode ser em virtude de ter bebê em casa ou porque já trabalhava em home office há mais de um ano. De alguma forma o impacto do isolamento social não tinha se abatido sobre mim. Agora, porém, depois de ler a notícia de que a Feira do Livro de Porto Alegre vai ocorrer de forma on-line, eu percebi.

Saiu um “não acredito” da minha boca. Quando me ouvi doeu mais ainda. Me dei conta que me dei conta. É que a Feira do Livro pra mim era uma espécie de “spa de descompressão do ano”. Quando começava a entrar naquele período em que só queremos vislumbrar as férias de verão, a Feira era pra mim férias antecipadas. Foi lá que fiz as primeiras oficinas de escrita criativa, gratuitas. Nos tempos de faculdade, almoçava ligeiro e corria pra Praça da Alfândega admirar as bancas sendo abertas. Caminhando naqueles corredores quase vazios de gente. Garimpando livros baratos nos balaios, porque os melhores só se encontram nos primeiros dias e nos primeiros horários. Mas, não deixava de ir no último final de semana. Gostava de ver aquela gente abarrotando a praça. Claro que eu não comprava livros nesses dias! Só ia pelo fervo mesmo. Comer churros, pipoca e admirar aquele formigueiro comprando todo best-seller possível.

2017

Amava caminhar até o cais do porto – que infelizmente deixou de ser usado – passar pelas bancas internacionais e seguir até a área infantil. Volta e meia assistia alguma contação no meio da gurizada. Eu ia muito sozinha. Precisava. Era meu lugar preferido. Depois que eu tivesse meus próprios momentos, meu próprio isolamento no paraíso, curtia passear com mais alguém. Esse ano eu ia com a Luíza. Já tinha planejado enquanto andava por lá em 2019, de barrigão. Me via com ela no sling, contando tudo de bom que aquele lugar tinha pra nos oferecer. Escolhendo livros pra ela. Pegando sol na cara, vento do Guaíba encanando nos corredores, pipoca e churros. Ah! Pelo menos um dia eu ia fazer isso! Mas, tinha certeza que eu conseguiria fazer uns dois ou três – pra quem considera muito, entendam que em alguns anos eu cheguei a ir todos os dias na Feira!

2019

Sim, eu vou  participar do maior número de atividades possível on-line e vou comprar livros nas bancas virtuais (blé, que saco…). Mas, não acredito. Agora sim. Agora estou completamente desolada com esse vírus. Com esse isolamento. Não acredito. Não acredito que não vai ter Feira. Não acredito que não vou ganhar os marcadores que coleciono de todos os anos que fui. Não acredito que não vou bater papo com os livreiros. Que não vou levar listinha com dez títulos que de alguma forma eu preciso encaixar no orçamento e vai virar uma sacola com dois ou três e mais uns garimpos. Não acredito. E só vou realmente acreditar nisso quando abrir o computador no dia 30 de outubro. Que saco! Não acredito.