Um Encontro Mágico

Meu primeiro livro infantil, publicado em 2019 pela Lurinha Editorial, está em campanha no catarse!

Lançado em Outubro de 2019, já vendeu 140 cópias

Agora quero que o livro chegue mais longe! Nas mãos de crianças que dificilmente teriam acesso.

Minha inspiração foi o Projeto Despertar criado pela TAG Experiências Literárias. Nos anos de 2017, 2018 e 2019 eles doaram caixinhas com livros e mimos para crianças de diversas ONGs pelo Brasil todo.

Minha campanha COMPRE E DOE UM ENCONTRO MÁGICO funciona da seguinte forma.

Você escolhe entre três valores para apoiar:

R$10 – Seu nome aparece nos agradecimentos a serem postados aqui no blog e no meu instagram. Esse valor ajuda a custear os fretes e o deslocamento para as instituições contempladas.

R$20 – UM livro é doado para uma criança.

R$40 – UM livro é doado para uma criança e UM livro é enviado para sua casa com frente incluso.

Meu livro custou R$14 cada um para ser produzido e impresso. Aqui no site ele era vendido por R$33 com frete incluso. Por isso, os valores da campanha estão super acessíveis.

Ao final da campanha os apoiadores indicarão sua escola ou instituição para receber os livros.

No 2º semestre de 2021 farei a entrega no local, com autógrafos e bate-papo com as crianças!

Na página do Catarse você pode encontrar mais informações e o vídeo mostrando alguns trechos do livro.

Eu acredito que a literatura é capaz de transformar nossa vida. Um livro é um mundo e a leitura nos humaniza, nos inclui, nos acolhe, nos permite suspender um pouco a realidade às vezes tão difícil.

Levar um livro para as mãos de cada criança é uma conquista imensa e transformadora!

Vem comigo nessa?

Clica na imagem pra ir direto para a página da campanha que abrirá em uma nova aba

A idade das mães

Fala-se muito que as mulheres hoje em dia tem filhos “mais velhas”. Enquanto professora cheguei a ouvir de alguns pais: “sabe como é, somos pais velhos”.

Onde ficou estabelecido idade pra ser mãe? Que vozes dizem que o ideal é ser mãe na faixa dos vinte anos? Que estaremos secas e estragadas depois dos 35; que filhos de “pais velhos” são mal educados, mimados?

Tive a Luíza com 33 anos, minha mãe teve a primeira filha com 22. Como seria se eu tivesse a Luíza lá em 2009? Cursando Pedagogia. Saindo de uma depressão.

O discurso hegemônico vai dizer que somos uma geração de fracos que não quer passar trabalho. Bom era o tempo em que se fazia malabarismo pedalando bicicletinha de uma roda em cima da corda bamba sobre um tanque de tubarões. Em benefício de quem?

O mesmo discurso que ecoa entre nós dizendo que é preciso “ter pique” pra ser mãe. Seria exaustivo ser mãe? Seria solitário? O famoso discurso de que tudo é MIMIMI. Bom era aquele tempo. Os anos 80? Em que a licença maternidade era de 60 dias? Pena que inventaram esse feminismo, né?

As mães jovens dos anos 80 foram vantajosas para o sistema. A baixíssimo custo elas mantinham os homens trabalhadores limpos, bem vestidos, alimentados, assim como os futuros trabalhadores, frequentando a escola bem uniformizados, asseados, alimentados. Ainda é assim, para muitas mulheres. Pior ainda para as marginalizadas que muitas vezes tornam-se a única rede de apoio das mulheres que são parte do sistema.

Não é sobre a idade. É sobre escolhas conscientes. Nossos úteros não vão explodir com 40 anos. Estamos cada dia mais munidas de melhores informações para gestar, parir e educar crianças. Estamos nos questionando sobre exaustão materna, paternidade consciente, agressões às crianças.

Quem sabe aí esteja o maior problema, o que o sistema hegemônico detesta. Por que ainda é tão difícil olhar a infância? Porque precisaremos olhar para as mulheres, depois para o tempo, depois para a inutilidade das coisas. Aí o sistema todinho está fadado a se repensar.

Honro todas as mulheres que me antecederam e todas as que me acompanham na vida hoje. As que não tiveram escolha, as que estavam exaustas, as que foram mães jovens, as que não foram, as que não queriam ter sido. As que desejam, mas não conseguem, as que jamais serão mães de crianças, as que gestam ideais, que maternam transformação, que parem sonhos.

Amo todas, simplesmente porque são mulheres.

PÉS DESCALÇOS, CRIATIVIDADE

Essa semana entrei em uma loja de sapatos para crianças. Sempre achei estranho o fato de colocarmos calçados em seres que não caminham. A vendedora aproximou-se e perguntou quanto a Luíza “calçava” – minha filha estava sem meias nesse momento pois agora aprendeu a arrancar as benditas. Ri, dizendo que nem fazia ideia. A menina já me olhava com estranhamento. Chutou 16 ou 17, tentou enfiar o pé da Luíza. Eu, achando a maior graça. Fiquei correndo o olhar pela loja enquanto a menina tentava socar o pé da Luíza naquela forma. A moça já contrariada, disse: ela fica com o pé dobrado, não coloca o pé todo dentro do sapato.

No caso ela é um bebê e não devia fazer ideia do porquê alguém tentava colocar o pé dela naquela “caixinha”. Perguntei se não tinha algo mais molenga, de pano, sei lá. “Tem isso aqui” ela disse quase me atirando uma espécie de botinha de Neoprene. Então, veio a frase: Tu tem que acostumar ela com sapato, se não nunca vai usar.

Ah! Logo pra quem ela disse isso!

Gentilmente respondi: então vai ser como eu, que quase não usei sapatos porque nasci com os pés deformados, usei gesso e bota ortopédica. Chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o calçado!

Coitada. Ficou meio tensa. E contrariada também. Não falei com a intenção de constrangê-la. Eu realmente estava “de brincadeira” dentro daquela loja. Peguei meu caminho pra rua.

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Hoje fomos na pediatra, na saída passamos por uma senhora. Ela estava acompanhada de uma menina de uns 10 anos. “Gritou” essa frase: Olha o bebê! Pobrezinho, sem meia!

Sério, fazia muito tempo que eu não ficava extremamente p…. com alguém. Parei a caminhada me voltei em direção à ela e gritei de volta “mas tu é louca?!”. Mastiguei muitas frases depois disso.

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Tem alguma coisa na minha história que fala de pés. E é tão forte que fui procurar minha botinha de gesso para fotografar e percebi as sapatilhas de ballet ao lado. Gravei muitos pés para o curta “A Teia e o Ponto”. Tenho nervoso de ficar calçada muito tempo. Deve ser falta de terra no mapa astral.

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Sei que essa semana falei com jovens de 9º ano e esse assunto desdobrou-se em uma bela reflexão.

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Usei essa foto numa apresentação que fiz sobre criatividade para jovens essa semana. A ideia era falar sobre criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida, uma inteligência necessária para os nossos tempos. Conversamos sobre profissão, carreira, escolhas. No lugar de usar o slide “quem sou eu” e uma tentativa de currículo, coloquei essa foto e prometi que no final explicava. Eu ia falar sobre estar aberto ao erro, que não existe criação, inovação se você está preocupado em acertar. Seria hipócrita não me colocar no jogo. Eu mesma, que já vinha há meses pensando em como me apresentar profissionalmente. Eu que não tenho os diplomas acadêmicos pra me legitimar.

Descobrir nosso cerne, informar o que somos, mais do que aquilo que fazemos, é difícil sem os “selos do Inmetro”. O medo que temos da autonomia, da criatividade, da inovação é medo de “dar errado”, de não sermos validados por ninguém.

Passei minha vida de educadora acreditando até os ossos no currículo subjetivo. Na trajetória que cada um é capaz de construir. Se eu desejo saber, vou saber. Existe uma potência nesse movimento que nos ensinaram a esquecer. Então, como não me dei conta de que fiz isso comigo mesma?!

Disse pra eles que não faço ideia dos desafios que vão enfrentar. Não temos como saber que empregos eles terão, o que vai dar certo, quem vai ser bem sucedido. Escolher uma faculdade não é garantia de absolutamente nada. A própria ideia de precisar escolher entre mente ou coração é um paradigma velho. Dá pra andar de pés descalços e às vezes de sapato. Somos capazes de fluir entre as possibilidades. Isso é criatividade, é resolução de problemas.

Sugeri muitos livros, cursos livres, falas do TED, filmes. Há muitas formas de aprender, nuances e jeitos de expressar quem somos. A força que acreditamos ser necessária para “ensinar” alguém é energia desperdiçada. Aquele ser-humano é potente para achar seu próprio caminho, com os próprios pés.

Concluí minha fala e voltei a imagem. Contei minha história de vida “sem sapatos”. Essa menina descalça no meio do restaurante, imersa nas próprias invenções. Essa sou eu. Eu sou contadora de histórias. Ainda que não estivesse consciente, sempre fui. Com o ônus e o bônus. Vivendo a agonia de todas as histórias guardadas em mim, sofrendo com as fantasias sobre a realidade ao invés de criar de forma saudável. Acreditando, sonhando e inventando jeito. O que parece que não deu certo, as escolhas que pareciam sem sentido, as decisões polêmicas, os cursos, os lugares, as pessoas. Tudo existiu para que, um dia, eu pudesse ver o que eu faço e sentir que ali tem muito do que eu sou.

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Ps: Tá começando hoje, lá no meu instagram @ajornadadaescritora

11 dias de criatividade!

Junto com os alunos do 9º do Colégio Santíssima Trindade de Cruz Alta vou lançar uma proposta de criação por dia!

Participa por lá e libera tua mente!

Projeto de Vida

Recentemente recebi dois convites para falar com jovens de Ensino Médio. Um deles é a trabalho e o enfoque é criatividade e escolha profissional. O outro veio da irmã mais nova de uma amiga, participante do Projeto Voar desenvolvido pelo Sebrae junto à Seduc-RS. Ela precisava escolher um “passageiro inspirador”, alguém para falar da sua história pessoal.

Preciso dizer que falar com jovens é algo muito novo (e um tanto assustador) para mim, iniciou em 2019 sem meu controle e tem se intensificado. Assustador porque minha adolescência foi meio embaralhada e as faixas etárias difíceis na nossa história pessoal sempre acabam sendo mais complexas de enfrentar na vida real.

Felizmente, esses convites me fazem pensar. O próprio medo e a sabotadora interior me fazem refletir. O que eu teria de relevante pra dizer? O que minha trajetória pode ter de significativo, de inspirador?  Meu currículo é uma “bagunça”. Minha trajetória não é nem acadêmica, nem carreira em empresa, nem encabeçando grandes empreendimentos. Muitas vezes eu me sinto envergonhada de não ter uma lista de títulos e grandes feitos para legitimarem minha caminhada. Não sou o tipo de pessoa que preenche o estereótipo de “bem sucedida”. A decisão de me nomear escritora foi feita com muito esforço e de propósito pra confrontar o predador da psique – publicou um livrinho de criança e quer se chamar de escritora! Fez um cursinho lá e cá e acha que sabe o que tá fazendo! Hahahahaha.

Já li a biografia de alguns escritores. Em mais de uma aparece o sonho, o desejo de um dia ser escritora profissional. Tentei lembrar se em algum momento da infância tive esse desejo. Gosto de mexer nas minhas velharias. Nos fósseis da vida. Achei uns cadernos de 1996, tinha 10 anos. Um deles, tem – vejam só – uma atividade intitulada “PROJETO DE VIDA PESSOAL”. Segue-se uma garrancheira braba, datada de 8 de agosto de 1996, que diz:

Profissão: bailarina ou trabalhar num grupo teatral

Escola: vou estudar no Pallotti, mas a faculdade não. Vou pra Itália e Paris fazer cursos.

Família: logo que me casar, antes de fazer os cursos, eu irei morar em Porto Seguro, uns tempos, pretendo também ser professora de Ballet, montarei uma escola lá. Até que depois irei morar em Paris num apartamento grande para poder fazer meus cursos.

Sorrio tentando lembrar o que seriam esses “cursos” que eu tanto queria fazer. Em outros textos nos cadernos falo que passei para sapatilha de ponta, invento histórias em que viajo e danço por várias cidades. De outros anos não encontro nada tão bem descrito, mas lembro de fazer aulas de teclado e imaginar que estava em um teatro antigo na Inglaterra, tocando piano enquanto alguém tocava violino ao meu lado e o público emocionava-se com nossa música. Também aconteceu de estar a caminho do litoral e me imaginar morando em uma daquelas fazendas na beira da estrada, produzindo pães e geleias em uma grande cozinha dentro de um chalé de madeira com a lareira acesa. Quando frequentei aulas de esgrima me enxerguei nas Olimpíadas, com medalhas no pescoço. Um pouco mais velha pensava em ser veterinária, agrônoma, zootecnista e me via cavalgando rapidamente para atender um animal ferido, doente ou parindo.

Nada disso faz currículo, nada disso vai pro Lattes, muita gente diria até que fui mal sucedida nos meus projetos, que não tive foco pra atingir meus objetivos, que eu queria tudo e acabei não atingindo o ápice de nada. Ah! Como adoramos falar sobre chegar no topo. Nem sabemos bem que montanha estamos subindo mas temos que chegar lá em cima. Nunca apareceu “escritora” em nenhum desses meus sonhos. Me dou conta do porquê. Eu já era escritora. Todo o tempo eu contava histórias. Via o mundo assim, narrando, viajando na maionese, fantasiando, brincando com a realidade. Mora em mim a bailarina de Paris, a moça que faz pães e geleias, a que trata animais, a esgrimista, a cineasta, a educadora e cada uma me conta histórias, me leva em viagens, desperta sensações, sentimentos.  

Acho que minha alma fez bem em esconder a escritora de mim por um tempo. Protegeu meu self porque, se eu tivesse visto antes, teria transformado ela em alvo pra ser atingido. Teria feito como tantas outras coisas – agarrado em desespero e apertado tão forte com medo de perdê-la que teria consumido até a última brasinha de calor.

Pode ser que nunca mais me chamem para falar com jovens, mas meu coração vai dizer à eles que explodam-se as metas. Há lugares em que nunca chegamos. Não há para onde ir, nem objetivos e planos para agarrar, porque já somos. Mas como a gente sabe o que já é? Aaaa, bom! Se existisse essa resposta, todo mundo já tinha se iluminado e virado purpurina!

Eeeeee, dizer que já sou escritora não significa, nem de longe, que já estou pronta. Que já faço isso muito bem. Que agora basta eu sentar e deixar a vida fazer o resto. Naaadaaaa! Só que isso é papo para outro texto.

Adeus escola

Quinta-feira passada completei 9 anos de formada em Pedagogia. Teria passado em branco não fossem as amigas que carrego desse tempo. Ontem passei em frente ao antigo Instituto Vicente Pallotti, escola que frequentei durante o Ensino Fundamental, e me impactei com as novas estruturas físicas. A pouca vegetação de antes, agora se foi totalmente.

Nunca desejei ser professora. Sabe aquelas crianças que brincavam de escolinha, davam aula para as bonecas? Não era eu. Comecei a frequentar a Educação Infantil com três anos. Adorava a “creche”. Quando comecei a primeira série tinha muita saudade mas me adaptei. Foi lá pela 3º série que as coisas mudaram. A professora só chamava alguns alunos para participar e eu virei a “que não sabe ficar quieta”. Na 5º série tivemos muitas trocas de professor de Geografia. Certa vez disse à um deles que precisávamos de aulas diferentes, de VER as coisas da geografia, de ir pra rua! No Ensino Médio virou raiva mesmo. Cada dia a escola me trazia a sensação de que perdia tempo de vida. Que estava presa ali esperando a liberdade. Nessa época vi um Globo Repórter sobre “Summerhill”. Nunca fiquei tão vidrada no programa, admirada que pudesse existir outro jeito de ser escola. Ali começou a crescer um pequeno brotinho de: “a escola tem que ser diferente”. Ainda que isso palpitasse eu não tinha a menor vontade de voltar pra escola. Fui fazer cinema. Em uma das primeiras aulas devíamos nos apresentar falando de nossa motivação para estar ali, respondi: acredito que a arte educa, transforma a sociedade, por isso quero fazer cinema.

Quando decidi pela pedagogia já tinha certa obsessão com a escola. Fazia pesquisas, descobria autores e livros sobre educação libertária. Além de ser cadeira cativa nas palestras do José Pacheco em Porto Alegre. Revirava tudo que tivesse sobre Escola da Ponte e ficava espantada que quase ninguém na faculdade soubesse algo sobre o assunto. Seguia investigando novas abordagens educacionais pelo mundo. Acreditava que a faculdade de Pedagogia era o lugar em que mais se pensaria sobre uma nova educação. Mas, não foi bem como minha mente viajante e sonhadora imaginou.

Às vezes me bate quase um arrependimento. Fico com a sensação de que estava tão cega com uma ideia que não pude ver o quanto estava fora de lugar. Foram quase 12 anos entre experiências de estágio e depois como professora. Não rolou. Não deu pé pra mim. Me tornei raivosa. Virei uma metralhadora tentando acertar um alvo muito pequeno. Tentei escola pública, ensino fundamental, educação infantil, escola mais tradicional, escola mais alternativa. Foi em 2017, na formação da Cidade Escola Ayni que uma super ficha caiu. Se isso não é problema para os outros, porque mesmo eu estou gastando tanta energia?

Tentei me focar na ideia de que podia “fazer a diferença” com minha atuação individual. Mas eu não acreditava naquilo e cada vez que precisava justificar minhas discordâncias, contextualizar a complexidade do que me irritava, do que me entristecia, sentia que minha energia ia se esgotando. Se tornou comum ouvir o famoso “quem ama a profissão…” para encerrar o debate. Afinal quem amava mesmo a educação tinha que conseguir dar conta.

Ainda me dói quando os educadores sentem que criticar a escola é criticá-los diretamente. Para mim é um paradoxo. A grande parte deles está sofrendo! Doente, estressado, depressivo, ganhando pouco, sofrendo pressões físicas, psíquicas, sociais, institucionais e tantas outras. A ideia de “treinar o professor” em novos métodos é uma lástima. Inovação na educação não deveria ser sobre conferir mais peso aos professores, mas sobre transformar a instituição escolar na sua organização espacial e temporal. Nos diferentes locais em que trabalhei esse ponto acaba sendo o mais frágil. Quando se pensa em mudar a escola é mais para os alunos do que para os educadores. A suposta mudança acaba envolvendo horas de trabalho extraclasse não remunerado, acaba sendo sobre o professor dar conta de mil novas ferramentas, plataformas, pirotecnias enquanto ele segue dentro de uma sala de aula com 30-40 crianças.

Hoje falo do lugar de alguém que não está mais comprometida com a escola mas que vai seguir amando, estudando e se perguntando sobre educação.

É realmente dentro de uma sala de aula com 30 crianças da mesma idade, trocando de caderno ou de livro didático a cada x tempo para dar conta de x matéria, copiando coisas do quadro, infurnados por horas, saindo sem direção por 20 minutos de recreio que estamos construindo o FUNDAMENTAL? Realmente é isso o que temos de mais rico para oferecer como sociedade? Somos incapazes de criar outras formas? Quando ouvimos os terraplanistas, os antivacina, os neonazistas e fascistas esquecemos que eles frequentaram essa escola? Deletamos o fato de que estamos imersos em um sistema que nos deseja desde cedo consumidores e para isso precisamos aprender a seguir a manada? Deletar os desejos pessoais, os impulsos subjetivos da alma, para que sejamos mais facilmente contornáveis. Afinal quem desconecta-se do próprio querer acaba seguindo o protocolo sem pestanejar. Como achamos possível determinar – em 2020! – os conteúdos que uma criança de seis anos vai precisar aprender para a tal vida depois da escola? Será que temos ideia do que será o mundo em 2030? Alguém foi capaz de prever o que estamos vivendo agora?

Sim, educação segue mexendo comigo. Fazia tempo que não me permitia escrever ou pensar sobre esse tema. Sei o quanto minha fala pode ser desconfortável nesse assunto. Hoje reconheço que foi muito tempo jogando a culpa lá fora. Achando que o fato de não ser feliz no trabalho era por que ninguém queria fazer o que eu achava que deviam fazer. Meu ego se debateu, foi difícil aceitar que tanta energia empenhada tinha sido posta fora. Fiquei em paz quando percebi que escola e educação eram coisas diferentes. Que trabalhar com uma não quer dizer trabalhar com a outra, e vice-versa.  Fui vendo ao longo desses 9 anos um número cada vez maior de jeitos de fazer educação. Entendi que o processo acontecia muito além dos meus desejos pessoais ou dos lugares que eu ocupava.  

Escrevi esse texto mais para mim do que qualquer coisa. Acho que foi para tirar tudo do sistema. Concluo e releio sentindo um pouco como é vazio. Mas assim é, deixo que esse sentimento se vá então. Já vai tarde essa minha guerra com a escola.

Memórias…

apagadas?

Terça-feira pensei muito sobre memória. No final do dia – no banho, claro – fiquei me lembrando dos tempos de FAMECOS. Foi bom sabe? Foi incrível na real, vivi e aprendi coisas ali que nenhuma outra experiência teria me proporcionado. Lembrei que realmente cogitei trabalhar com montagem – ou edição como é mais comum falar. Voltei para as muitas horas na moviola dando risada com os colegas enquanto operávamos aquela geringonça divertida, cheia de personalidade e que te ensina mais sobre montagem do que jamais um curso de Final Cut Pro será capaz de fazer. Uma manivela que faz a película seguir, parar ou retroceder. O lápis que risca o início e final do corte. Para, puxa aquela tripa de fotogramas, fixa na coladeira – sim, é esse o nome – corta onde marcou com o lápis, junta os pedaços na exata marcação e passa durex – sim, é isso mesmo. Prensa na coladeira e reza que não solte durante a projeção. Se tu tivesse que fazer tudo isso pra realizar um corte, pensaria trinta vezes antes de sequer começar a rodar a câmera.

Enquanto o Francis, assistente de fotografia, fazia o fotômetro eu ajustava a câmera.

Só de lembrar me dá um aconchego no peito. Um sorriso no rosto. Resgato meu encantamento com o cinema e penso como a gente pode estragar memórias. Minha amiga Tati disse uma vez: “mas tu só lembra das coisas negativas?”. Eu tinha perguntado se ela já tinha comido a pizza que eu faço. “Claro! Lá na tua irmã, não lembra?”. Meio que não lembrava. Aliás, às vezes penso que devia ter fumado maconha na “FUMECOS” visto que minha memória é péssima e sequer tive essa experiência. #prontofalei

Respondi – depois do esforço pra lembrar – “ah, mas aquela vez queimou, não valeu”. Então ela me deu aquela resposta ali de cima – com toda autoridade que uma capricorniana tem e com toda razão também! A frase ficou na minha cabeça. Me dei conta que não sou propriamente desmemoriada, eu estrago algumas memórias.

Quando entrei na faculdade de cinema tinha dezessete anos e um zilhão de expectativas. Ainda não sabia que a expectativa é mãe da merda. Como todo Millennial velho fui formatada por uma sociedade de baby-boomers e geração X. Ou seja, ninguém sabia me dizer como fazia para ser artista. Como fazia pra perseguir felicidade acima de qualquer coisa. Era pra ser produtivo, organizado, vestir a camisa da empresa por trinta anos de preferência. Mas fui fazer cinema, e agora?

Set do curta “A Porta”. Locação no Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Quando concluí o curso estava totalmente perdida. Me sentia travada e incapaz. Tinha vontade de fazer muitas outras coisas também. Sentia vergonha de não querer mais me dedicar exclusivamente ao cinema, de querer experimentar-me ainda e da opinião dos outros. Medo de não ter emprego fixo e de precisar viajar muito e ficar longe da minha família. Com tudo isso queimei a memória da FAMECOS me convencendo que tinha sido um período muito difícil. Foi, claro! Estava no final da adolescência tentando me encontrar no mundo com zero ferramentas emocionais e práticas pra fazer acontecer. E tá tudo bem.

Em 2004 uma câmera ligada era aglomeração certo…será que hoje em dia também?

Esse banho foi bom pra lembrar que memória é coisa tão maleável que dá pra estragar e pra consertar também. Foi lindo, gostoso, desafiador, encantador fazer cinema. Eu realmente me diverti demais. Fotografei, filmei, editei, mixei, escrevi, fiz assistência de direção, produção. Vi atores ensaiando, descobri que manter o pessoal da elétrica alimentado é a essência do bom humor no set e que virar madrugada dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro pode ser legal quando os fresnéis estão todos ligados mas que atravessar corredor completamente escuro é pra quase se mijar nas calças. Aprendi que, muito diferentemente da escola, era possível conviver com pessoas COM-PLE-TA-MEN-TE diferentes de mim. Descobri que basta colocar uma câmera em algum lugar dentro de uma universidade para gerar aglomeração – pelo menos era assim em 2004.

Não estou nessa foto porque estava atrás da câmera fazendo o making off do curta!

Sem ter consciência disso sei que aqueles dois anos e meio forjaram lindas memórias no meu espírito e sei que posso voltar lá e retomar tudo aquilo que a alma já sabia. Mais do que isso, tenho muita ferramenta emocional, espiritual e prática para olhar meus “erros e acertos” sem colocar o que vivi nessas caixinhas e sim observar tudo como aquilo que realmente é. Sem ilusões, pretensões, frustrações mas somente com a alegria de quem pode viver absolutamente tudo que estava a sua disposição e ao alcance da sua consciência naquele momento.

Tudo me compõe e agora tenho a segurança de ser esse sopão de habilidades. Precisei construir para mim mesma o caminho de aceitar a multiplicidade. Hoje eu sei que a vida não é corrida de cem metros rasos, uma linha reta pra cumprir bem rápido. É essa jornada tipo “Senhor dos Anéis” cheia de sobe e desce, paradas, florestas, enrascadas. Cada um que faça a sua como sentir no coração e que guarde todas as memórias com tintas de boas vibes mesmo que a pizza tenha queimado e que as expectativas tenham sido todas transformadas em realidade. Esquecer é perder a chance de dar uma boa risada de si mesmo.

Jornada

O texto de abertura do blog, escrito em 2019, chama-se “Como eu vim parar aqui”. Eu muito quis achar esse lugar que a gente chega. E para. E encontra a tal felicidade. Em 2007, meu psicólogo disse que eu tinha uma tendência de querer encontrar a grande cura (da ansiedade, da depressão). Me agarrava a cada nova possibilidade como se aquilo fosse transformar tudo do dia para a noite. Floral, acupuntura, reiki, corrida, ballet, ômega 3, passe, Osho, meditação, yoga. Uma nova esperança de voltar a ser quem eu era, de tudo voltar ao normal.

O psicólogo vivia me dizendo para escrever. Seria um jeito de deixar os monstros saírem. Quando estava insuportável eu fazia. Pegava qualquer papel que visse pela frente e rabiscava sem parar, tipo psicografia do Chico Xavier. Drenava aquela energia toda, dobrava bem aquela coisa pavorosa e guardava em algum canto de alguma caixinha perdida do armário. Foi só em 2013 que eu comprei o primeiro caderno. Eu já não fazia terapia há uns três anos, não tinha mais o psicólogo me dizendo para escrever, mas eu sabia que precisava fazer algo além de só vomitar meus monstros. Escrevi na primeira página:

A JORNADA

Decidi comprar um caderno, sabia onde ia comprar, como ia ser. Esse caderno servirá para registrar a minha jornada. Já fiz algumas, mas essa decidi registrar. Um lugar só meu para botar tudo pra fora. Qualquer pensamento, dúvida, reflexão, sem vergonha ou julgamento (dentro do possível).

Essa era eu em 2013 e o caderno segue até 2014. Alguns dias escritos a fio, depois meses de silêncio. Muitas reflexões, diálogos mentais, dores emocionais, mas…tem trechos de capítulos, rabiscos de ideias. Foi sem dúvida a primeira vez que eu comecei a estruturar escritas, possibilidades de histórias, ideias de livros.

O nome que dei para o caderninho é o primeiro registro que tenho dessa ficha que caiu. Levou quase sete anos para finalmente assumir que não havia um lugar para chegar. É o tal do caminho que se faz caminhando. Nada seria um divisor de águas. Nada do que buscava, encontraria do dia para a noite. Ao mesmo tempo, tudo que eu tinha feito até ali era parte da minha cura. Tudo aquilo era o combustível que me mantinha em movimento, buscando, enxergando melhor, percebendo novas facetas da minha vida. Eu não estava chegando a lugar nenhum, eu estava em uma jornada.

Quando comecei o blog, todo o tempo eu tinha em mente que seria “A Jornada da Escritora”. Eu sentia que precisava me autorizar, dizer em voz alta: eu sou escritora. Mas jornadas não são estradas largas, de tijolinhos amarelos e florezinhas multicores nas bordas. São umas trilhas tortuosas, meio escuras, às vezes um sobe e desce danado, às vezes é uma correria sem fim ou um passo leve e lento de cada vez.

Me propus a partilhar minha jornada, mas no fundo, queria mostrar uma viagem limpa. Bem resolvida. Organizada. Podia dizer diferente, mas essa era a verdade. Eu não queria me colocar por inteiro. Quem ia querer saber? Qual o objetivo? Descobri que estava grávida. Pronto. Eu sabia que não queria, definitivamente, falar sobre isso. Agora todo mundo é #maternidadereal. Eu nem sabia ao certo se eu queria filhos! Eu deveria saber! Como ia falar de algo que não sabia? Minha psicóloga dizia ao final de cada sessão “escreve lá no teu blog sobre isso! Fala de tudo que tu tá vivendo e sentindo”. Aaaff meu predador da psique não permitia. A verdade é que gosto de falar das coisas. Não de mim. No fundo eu não quero falar da minha jornada nua e crua, mas sim de algo sob controle e objetivo.

Acho que em 2011 ou 2012, minha irmã me presenteou com um mapa natal – entregue em uma sessão com o astrólogo. Foram muitos elementos para pensar, mas algo ficou pendurado muito tempo. O astrólogo disse “tu tens um problema com autoridade.” Eu ri achando meio óbvio. Claro! A rebelde. Mas ele completou: “não é tanto com autoridade dos outros e sim um problema em exercer a tua autoridade. Quem tu é? Tu te misturas muito com o coletivo”. Fiquei sem entender lhufas por anos.

Eu adoro a astrologia como fonte de autoconhecimento. Sim, sou dessas, e bem…eu tomo floral, faço acupuntura, reiki, evangelho no lar, tomo passe, medito, faço yoga e só minha Lua em Peixes poderia explicar isso. Voltando. Li recentemente sobre os nodos lunares no meu mapa astral. O tal do nodo norte também é conhecido como Ascendente Cármico, é uma espécie de guia evolutivo mostrando o que deveríamos desenvolver nessa existência. Descobri que o meu é em Áries e li isso: … há uma necessidade de recuperar sua identidade ao longo da vida, ou até mesmo encontrar uma identidade só sua. Quando você realmente descobrir e desenvolver sua individualidade, o seu EU mais primitivo, parte de sua evolução estará definida. Toma essa Bruna.

Meu nodo norte em Áries está na casa 3, a casa da comunicação. Kíron – que representa nossa ferida – está em Gêmeos. Comunicação, de novo. Meu Sol também é geminiano. Minha voz é meu norte, minha luz, minha ferida aberta que precisa ser curada. Não tem saída. Nem escapatória. Preciso aprender a expressar minha autoridade. Meu EU. Quem eu sou através da minha voz, da minha escrita, da minha comunicação. Não é sobre as coisas. É sobre mim. Puuut…

Os últimos meses me trouxeram a vivência mais intensa e doida que tive até hoje. Querendo ou não, sob meu controle ou não, Luíza me arrastou nessa viagem. Nessa jornada corajosa dos que decidem aterrissar por aqui. Eu tinha medo. Medo de ser muito louca pra ter filho. Medo de ter depressão de novo. Medo do que aconteceria com minhas relações. Medo do medo do medo que dá, já disse Lenine. A todo momento eu enfrentava a sensação de não ter controle junto com uma necessidade de fazer escolhas e colocar minha voz em ação. Ouvi tantas vezes da psicóloga “e o que tu disse?! E o que tu fez?! Ah tu é muito educadinha!”. Sim, essa é minha psicóloga. Num momento extremamente denso do meu puerpério ela me perguntou “para que tu acha que tá vivendo isso?”. Consegui, enfim, verbalizar meio perguntando “pra exercitar minha autoridade?”. Ela deu uma risada.

Por isso resolvi remodelar o blog. Parar de ler tanto sobre geração de conteúdo pra internet. Quem sabe eu deva assumir que sou simplesmente eu por aqui tentando ser escritora. Eu quero escrever. Ponto final. É isso. Não tenho conteúdo relevante pra compartilhar. Sou só eu, aqui do outro lado da tela falando das minhas loucuras, das minhas bobices. É a minha jornada, então por que diabos eu fico me esforçando em ser linear, programada, específica, norteada? O pior é ser o algoz da gente mesmo nessa vida. Essa é a minha Jornada da Escritora, ponto final.

Sugestões para se profissionalizar na escrita

Muitas pessoas com quem converso tem me perguntado como se faz para ser escritor, escritora. Diversas por curiosidade, outras por desejo, algumas por desconfiança. Resolvi compilar nesse texto alguns passos que dei – e que continuo dando – no caminho de uma profissionalização na escrita.

Alerta! Não me considero – ainda – uma escritora profissional. Apesar de ter decidido me dedicar integralmente a esse ofício, tenho uma trajetória longa pela frente. Por isso, não quero com essas dicas sugerir que basta fazer isso ou aquilo e você será um profissional da escrita, pelamor de Machado de Assis!

  • Você precisa ser autônomo!

Isso quer dizer que além de pesquisar muito para descobrir bons cursos livres, oficinas e literatura especializada você precisa formar um filtro pessoal que equilibre suas escolhas entre custos, retorno em conteúdo, qualidade e diversidade dos professores e assim por diante. Fora da academia há muitos cursos livres e oficinas, vá construindo sua própria “grade curricular” de acordo com seus anseios e necessidades. Se você está fora de São Paulo e Rio de Janeiro, existe muito material de qualidade e oferta de cursos online! Formação acadêmica em Escrita Criativa no Brasil é para poucos, está em poucos lugares e recém começando. Países da Europa ou Estados Unidos já tem na sua cultura a promoção da Criação Literária como parte importante na cadeia do livro, entendida como trabalho, estudo, pesquisa e técnica, não apenas intuição vinda das “musas” ou fruto de golpes boêmios de inspiração. A PUC-RS tem uma trajetória mais longa nesse sentido, muito por causa do prof. Luiz Antônio de Assis Brasil e sua Oficina de Criação Literária com mais de trinta anos. Hoje eles promovem a oficina e cursos em nível de graduação e pós. Aliás, aproveita e dá uma lida nesse texto ótimo do Daniel Gruber “Para que servem as oficinas literárias?”

Com isso tudo quero te dizer que se tens desejo de estudar e de trabalhar com Escrita Criativa é muito mais provável que você tenha que construir um caminho bastante autônomo, compondo seu próprio mosaico de saberes. Isso pode ser difícil, pois fomos educados a receber conhecimentos de maneira estruturada por outros. Matricula aqui nessa graduação, no final diploma e tcharãn! Tudo resolvido.

  • Amplie seu repertório de conhecimentos o máximo possível.

O que tenho feito é construir a visão mais abrangente possível da escrita. Não acho saudável nos colarmos em um tipo de técnica. Algumas pessoas acham que exista uma espécie de receita. Eu escrevo como uma expressão de quem eu sou e para fazer isso melhor estudo e busco ter o maior repertório possível de técnicas para encontrar minha própria voz no meu trabalho.

A primeira oficina que fiz foi em uma Feira do Livro de Porto Alegre, em 2007 ou 2008, com a Anna Claudia Ramos – eu nem estava muito consciente do que estava fazendo e esse assunto voltou para a gaveta por uns bons anos. Com a mente mais focada, em 2016 eu fiz por um semestre o Curso de Introdução à Escrita Criativa com Tiago Novaes – professor de diversas oficinas em São Paulo e da pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Esse curso, sem dúvidas, foi um divisor de águas. Principalmente porque eu estava mais consciente do processo, mas foi nele que desmistifiquei o trabalho do escritor, compreendi meus bloqueios e comecei a me autorizar a escrever, fortemente impulsionada pela publicação da antologia de contos ao final do curso. Troquei muito com colegas, tive meus textos lidos por estranhos pela primeira vez, li muito a produção de outros colegas, recebi comentários, análises do professor. O Tiago é psicólogo então há elementos subjacentes no curso dele que ajudam muito a impulsionar quem é menos autoconfiante ou que ainda não sente que é legítimo de se aventurar na escrita. 

Em 2017, quis me dedicar mais ao estudo do texto infanto-juvenil e fui atrás da Anna Claudia Ramos de novo! Encontrei ela pela internet e iniciei no segundo semestre aulas particulares pelo Skype (ela é do Rio de Janeiro), foram muitas indicações de leitura, análises de textos infantis ruins e bons, criação e revisão. Foi daí que saiu o texto do meu primeiro livro “Um Encontro Mágico”! Em 2018 fiz um curso sobre Literatura Infantil com a especialista na área Elaine Maritza, na Metamorfose Cursos, uma escola aqui em Porto Alegre que realiza diversas oficinas com conteúdos específicos e que oferece o Curso Livre de Formação de Escritores. As turmas são pequenas e acabam resultando em publicações de textos dos alunos através da editora de mesmo nome. Eles também tem cursos online!

No verão de 2019 iniciei a assinatura da Hardcover, a plataforma de membros do escritor André Vianco. Eu já acompanhava há alguns anos o trabalho dele a partir da newsletter e do blog da Vivendo de Inventar, sabia dos cursos que oferecia mas foi esse ano que entendi que aproveitaria melhor o conteúdo que ele oferece. Nessa assinatura temos acesso à algo em torno de 60 horas de aulas mas sempre vamos recebendo conteúdos renovados. Além disso, ocorrem alguns webnários muito bons com a Margareth Brusarosco que faz parte da equipe e com o próprio Vianco. Nessa assinatura também recebemos uma assessoria nas nossas criações literárias e um contato direto com oportunidades de publicação criadas especialmente para os assinantes. André Vianco ensina muito sobre as estruturas mais clássicas para os romances. Tem um grande arcabouço de técnicas de engajamento do leitor, enfocando em criarmos histórias que prendam o leitor até o final do livro. Um ponto muito significativo é que acabamos por fazer parte de uma comunidade muito engajada de escritores através de grupo do Whatsapp, podemos tirar dúvidas, trocar ideias, pedir referências nas mais diferentes áreas, ter contato com colegas que trabalham com revisão, diagramação, criação de capas, ilustrações.

Esse ano também comprei numa promoção o curso online Primeiros Escritos da Raquel Agavino do blog O Livro Aberto. Ela é bastante didática e prática em ensinar técnicas de revisão de textos, mostrar a estrutura básica de diferentes gêneros literários, ótimo para quem está começando. Além disso, estou namorando (muito mesmo) os cursos do LabPub, uma escola voltada à formação EAD na área editorial. Há uma infinidade de cursos online de muita qualidade!

  • Se você quer ser escritora, escritor, aprenda lendo né!?

Há muito conhecimento bem consolidado acessível através da literatura técnica sobre Escrita Criativa. Em 2015 eu havia visto uma nota sobre o lançamento do livro “Sobre a escrita” do Stephen King, comprei e quem sabe tenha sido ele o responsável pelo pontapé de uma fase mais consciente na escrita. Sempre acreditei que os escritores “baixavam” aqueles textos dos livros “automaticamente”. Achava que o que eu lia no livro publicado tinha saído daquele jeito de primeira. Quando li o King contando dos seus processos, de como ele faz uma primeira escrita mais “no fluxo”, deixa o texto descansar e depois volta para a PRINCIPAL parte do trabalho, que é reler, reescrever, tirar as sujeiras e as gorduras, disponibilizar a leitura para os leitores beta, voltar para o texto, mexer, dar para o editor ler, voltar para o texto…enfim! Me dei conta que ter uma história viajando na cabeça era 2% do processo de escrever o livro e foi aí que percebi que poderia haver um caminho de construção para chegar lá.

Quando me inscrevi no curso do Tiago Novaes, recebi uma apostila com diversos textos, um dos que ele fala muito é “O Escritor e a Fantasia” do Freud, gostei bastante também de “O Narrador” presente no livro “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura” do Walter Benjamin. Os livros mais indicados pelo Tiago foram:

– Como funciona a ficção, do James Wood (MUITO difícil de encontrar, perneei os sebos aqui de Porto Alegre e não consegui na época, ele ficou esgotado um tempo mas agora está disponível novamente na Amazon, facinho de comprar.

– A arte do romance, do Milan Kundera (não li e não tenho, permanece na lista)

– Aspectos do Romance, do E.M. Forster (tenho mas ainda não li)

Durante as aulas particulares que fiz com a Anna Claudia Ramos adquiri o livro dela:

– Nos bastidores do Imaginário: Criação e Literatura Infantil e Juvenil (só achei no sebo)

Nesse estudo ela analisa quatro obras da Ana Maria Machado. O livro é riquíssimo principalmente para pensarmos a criança, como a representamos e como falamos com ela na literatura infantil e juvenil.

Adquiri alguns livros também, fruto de outras indicações e pesquisas minhas, nem todos estão lidos já, porque, enfim, a lista é grande!

– Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção, do Stephen Koch. Bem abrangente, fala desde a vida do escritor até variedade de estilo e técnicas de revisão. O autor foi professor de pós-graduação na School of Arts da Columbia University por mais de vinte anos.

– A arte de escrever, do Schopenhauer. Está na fila!

– Viver e escrever, vol. 3 da Edla Van Steen. Contém entrevistas com autores como Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. (fruto dos meus garimpos na Feira do Livro de Porto Alegre)

– Como se encontrar na escrita, da Ana Holanda. A autora é jornalista e editora-chefe da revista Vida Simples. Nesse livro ela traz os elementos necessários para uma “Escrita Afetuosa”, quem conhece a revista e os textos que têm lá vai compreender. O objetivo é pensar sobre textos que sejam capazes de provocar empatia, de tocar o outro, de inspirar.

– Escrever Ficção: um manual de criação literária, do Luiz Antônio de Assis Brasil. Lançado esse ano pela Companhia das Letras, assim que pude corri para comprar. Ainda não li todo, mas já passei os olhos e de longe a gente percebe a quantidade de conteúdo que tem ali. Se ainda não podemos fazer a oficina do Assis Brasil, agora podemos levar ele pra casa. Maravilha!

  • Leia muito e de tudo!

Sim, essa é a dica que você mais vai ouvir. Leia muito e leia de tudo. Eu tenho na minha “rotina de trabalho” uma hora para leitura. E antes de dormir eu sempre leio mas essa não está contabilizada como “tarefa”. O Stephen King fala pra ler o que tem de bom, de clássico e tal, mas principalmente ler o que tem de ruim por aí. É onde a gente mais aprende! Mas, ok, às vezes basta passar os olhos e pular uns trechos, porque fica difícil né. Uma escolha importante que fiz nesse processo foi assinar a TAG – Experiências Literárias. Eu fiquei pensando como, afinal, fazer para “ler de tudo”. Horas nas livrarias e a minha indecisão absoluta para escolher apenas um livro não iam ajudar. Faz dois anos então que a TAG manda para minha casa o que ela bem entender e ainda pago por isso! Mas amo! Sem dúvida foi fundamental para ter acesso à uma diversidade literária e ainda receber junto uma revista, com entrevista com a curadoria do mês, texto sobre o autor ou autora do livro enviado, contexto histórico, movimento literário etc. Riquíssimo para quem ama literatura e mais ainda para quem quer estudar literatura.

  • Aproveite o conteúdo gratuito que a internet te oferece

Hoje tem, simplesmente, MUITA coisa sobre Escrita Criativa na internet, seja experto – principalmente se o dindin tá curto – e aproveite tudo que tem de graça por aí. Ok, eles vão tentar te vender cursos e livros depois, mas, é só filtrar e compreender também que conteúdo de qualidade custa para ser produzido e é normal que os criadores estejam fazendo seu marketing. Dicas de gente bacana para acompanhar:

Canal Escrita Criativa no YouTube: é o canal do Tiago Novaes e recomendo fortemente que você assista a série “Diário do Romance” que ele fez em 2016 enquanto escrevia o novo livro dele.

Carreira Literária, site, canal no Youtube e instagram. Organizados pela Flavia e a Alessandra o canal e o insta tem muito conteúdo gratuito e de qualidade, os cursos delas tem ótima fama mas ainda não consegui fazer nenhum (quénquénquén)

O Livro Aberto, Raquel Agavino. Ebook’s com bastante conteúdo legal, blog com material interessante e oferta de cursos também.

Escritor Publicado, blog. MUITO material sobre plataforma de autor, marketing, vendas, organização de projeto literário. Vale muito acompanhar!

Concursos Literários, blog. Faz a seleção e atualização de informações sobre concursos literários, seletivas e premiações. Faço a assinatura da newletter e recebo toda a semana a atualização. Muito importante os escritores iniciantes acompanharem essas oportunidades de perto e como é difícil manter-se informado sobre tudo que tá acontecendo o blog ajuda demais.

Publishnews, site. Mais do que necessário para acompanhar o mercado editorial no Brasil.

LiteraturaRS, site. Acompanho para ter informações mais específicas do estado onde moro, novas publicações, lançamentos, prêmios, cursos, eventos.

  • Esteja consciente!

Lá vou eu tergiversar sobre o ser e o estar da vida no universo. Mas, muito bem, essa sou eu e fato é que nós somos carregados de bloqueios, travas emocionais, distorções da nossa essência. Eu divido minha trajetória na escrita entre um período inconsciente e um consciente. Primeiro era algo que estava lá, permeando meus pensamentos com histórias, rabiscos pra lá e pra cá, mas com zero aceitação ou percepção de que era realmente algo que fazia sentido para mim. Ao final do Ensino Médio eu tinha enorme desejo de fazer faculdade de Cinema (contar histórias, né?!). Meu pai me deu de presente o livro “Manual do Roteiro” do Syd Field, para eu avaliar se era isso mesmo que eu queria. Amei o livro! Me apaixonei mais ainda pelo cinema, mas, juro que não me dei conta de que aquele livro falava muito mais de escrever do que de fazer filmes!

Por muitos anos fiquei em um vai e vem com a expressão de mim no mundo. Aquele famoso “quem sou eu, onde estou, para onde vou?”. Então sugiro que você, antes de mais nada, tome consciência de você, do que você quer, do que você precisa. Não cai nessa de “ai, eu não posso ir por aqui por que isso não dá dinheiro, porque isso não é aceito socialmente, por que isso blábláblá”. Grande parte das coisas são uma questão de escolha e arcar com as consequências. Se você não está disposto às consequências não diga que é por algo externo à você que não vai dar para fazer, só diga: na verdade eu não quero tanto assim, por isso não vou fazer. Pronto. Seja responsável pelas suas escolhas.

Se algo foi útil, comenta aí! Me fala da tua trajetória, do que tem feito em busca dos teus caminhos para realizar quem você é no mundo! E vamu cê feliz que gente feliz não incomoda!

Ah! E no meu canal do Youtube, A Jornada da Escritora tem o vídeo falando ligeirinho sobre tuuudo isso que coloquei explicadinho no texto. Vai lá dar uma olhada!

Vá achar sua turma (e você mesma!)

com pitadas de Clarissa Pinkola Estés

Neste meu ano de 2019 tenho falado muito pouco. Para quem falava por mais de quatro horas seguidas, diariamente, pode-se dizer que hoje vivo em silêncio. Para quem estava em meio à, pelo menos, vinte e cinco seres humanos, hoje vivo sozinha. Traz uma imensa paz e muito autoconhecimento. Sinto que nos meus últimos quinze anos de vida preparei-me, sem saber, para esse momento. Não suportaria essa introjeção em outras épocas.

Passei uma boa parte da vida preocupada que os outros compreendessem o que eu compreendia. Falava e falava e falava. Muito! Queria convencê-los. Despendia uma energia colossal em explicar. E explicava e explicava. Já adolescente ouvi listas dos meus defeitos, de todos os lados alguém sabia mais sobre mim, o que eu devia ou não ser e fazer do que eu mesma. Eu tinha uma necessidade sufocante de me comunicar. Precisava falar, precisava colocar para fora o mundo que residia dentro da minha mente. Ouvi ainda e por muito tempo o quanto eu era inconveniente, percebia os olhares, os comentários, como se inevitavelmente minhas palavras ferissem as pessoas, como se eu fosse algo temível ou odiável. “Por que ela não consegue ficar quieta?” Eu não tinha a escrita naquele momento. Na verdade, eu a tinha, mas cada tentativa de transpor para o papel era um sufoco. Achava tudo horrível, pensava que os livros que eu lia tinham saído da mente da autora ou do autor exatamente daquele jeito e eu não era genial como eles, eu não era perfeita como pensava que eles eram, então não estava autorizada a escrever.

Gradualmente fui me culpando, aprendi a odiar quem eu era. Dizia na terapia, no início da vida adulta, que eu queria poder não falar mais, que eu queria ser outra pessoa. Me esforcei tantas vezes para isso, em rodas de conversa ficava em silêncio e acabava ouvindo: “não vai dizer nada Bruna? Vai lá, tu sempre fala!”. Não conseguia compreender e sentia ainda mais raiva. Carreguei por muito tempo dentro de mim a triste ideia de tentar encaixar-me. Sim, apesar da rebeldia e da raiva eu queria o que todo ser humano quer: encontrar minha turma, uma mínima torcida, como diz a Clarissa.

O que fiz ao longo do caminho foi tentar, sozinha, achar as ferramentas para dar conta disso. Tentei articular o que queriam de mim com o que eu achava que eu queria de mim mesma. Fui virando um Frankenstein. Já tinha perdido os instintos, não sabia mais farejar os perigos. Me perdi da minha essência. Não entendia por que minhas falas eram tão odiosas, não entendia por que eu deveria falar menos, ser menos, incomodar menos. Foi duramente que aprendi que tentar ser outra coisa, sendo ainda – e inevitavelmente – quem se é, traz um resultado tenebroso. Além da mente colapsar, nos tornamos um arremedo de gente. Tentamos agradar um pouco aqui, nos impor um pouco ali. Quando tentava ser suave acabava sendo dura, quando precisava ser mais dura era suave demais. Quando o silêncio seria uma resposta melhor, eu falava, e vice-versa.

(…) digamos que nesse ponto o patinho passa pela mesma experiência pela qual passaram milhares de mulheres “exiladas” – aquela de uma incompatibilidade básica com pessoas diferentes, que não é culpa de ninguém, apesar de que a maioria das mulheres, num excesso de amabilidade, assumam o fato como se fosse sua culpa exclusiva. Quando isso acontece, vemos mulheres que estão sempre dispostas a pedir desculpas pelo espaço que ocupam. Vemos mulheres com medo de dizer simplesmente, “não, obrigada”, e ir embora. Vemos mulheres dando ouvidos a alguém que lhes repete insistentemente que elas são teimosas, sem compreender que os gatos não nadam e que as galinhas não mergulham.

(Estés, 1994, pg. 235)

Na jornada fui descobrindo que quando passamos pelos desmontes psíquicos da infância – que os adultos por ignorância, inconsciência, executam – torna-se cada vez mais complexo reencontrar-se consigo mesmo. Muitas vezes o trabalho é tão bem feito que nos vemos em pânico ao tentar esse contato com nossa essência. No meu caso, foi um trabalho árduo e triste me tornar o que me tornei e sendo tão custoso não queria sair novamente do isolamento e descobrir sabe-se lá com o quê depois da curva. O patinho feio nem se reconhece cisne na primeira vez que olha seu reflexo no lago. No entanto, a eterna sensação de não se encaixar, de não pertencer é devastadora e te faz seguir tateando, meio às cegas, à procura de alguma coisa que te preencha.

Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. (…) É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. (…) Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.

(Estés, 1994, pg. 234)

Essas citações aí em cima são da Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”. Todas no capítulo seis “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma benção” em que ela analisa o conto “O patinho feio” que reli recentemente, fazendo despencar mais um bocado de fichas. Ela diz que essa foi “uma das poucas histórias a incentivar sucessivas gerações de gente diferente a aguentar até encontrar sua turma”. Lembro-me do primeiro contato que tive com o livro, sentia que ali havia algo muito importante, alguma espécie de mistério ou ensinamento profundo, mas não conseguia seguir na leitura. Era difícil e nem sei bem por quê. Levei anos para avançar nas páginas. Ele ainda é meu livro de cabeceira, porque há camadas e camadas de aprendizados . Cada vez que retomo, descubro mais um segredo.

Quando revisito minha época de escola tenho vontade de ir lá me buscar. Tagarela, inquieta, oferecida, vagabunda. Sim, quanto mais crescemos mais forte o machado da cultura vem pra te derrubar. Quem você pensa que é? Não faz muito me caiu mais essa ficha. Se eu fosse menino, me adjetivariam como? Perspicaz? Eloquente? Gênio forte? Sim, é sério. Eu nunca tinha me dado conta (tão bem a cultura faz seu serviço) de que boa parte da inconveniência do meu ser se deve ao fato de ser mulher. Já fazia algum tempo que eu tinha a Clarissa de companheira e sorri pra ela na minha cabeceira, lembrando que já havia lido isso, mas ainda não estava pronta pra entender.

As condições culturais mais destrutivas para o nascimento e a vida de uma mulher são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, aquelas sem carinhosos rituais de absolvição, aquelas que forçam a mulher a escolher entre a alma e a sociedade, aquelas nas quais a compaixão é segregada pelas classes econômicas ou por castas, em que o corpo é visto como algo que precisa ser “purificado” ou como um santuário a ser regulamentado por decreto, nas quais o novo, o incomum ou o diferente não geram prazer, nas quais a curiosidade e a criatividade são punidas e censuradas em vez de recompensadas, ou recompensadas apenas quando não se é mulher, nas quais são perpetrados contra o corpo atos dolorosos que são chamados de sagrados, ou nas quais a mulher é castigada, como diz Alice Miller sucintamente, “para seu próprio bem”, nas quais a alma não é reconhecida como um ser por seus próprios méritos.

(Estés, 1994, pg. 222)
Anna Pavlova, bailarina russa, com seu cisne de estimação, Jack.

Nesses golpes de insights penetrantes, a gente tem momentos de se perguntar: mas porque diabos eu fui por aquele caminho. Aprendi que não importa. As decisões que tomei eram as possíveis naquele estado de consciência. Não podiam ter sido melhores pois me trouxeram até aqui. Eu construí esse lugar que ocupo hoje. Estar consciente é para os corajosos! Quanto mais aguçada a intuição mais e mais profundamente viajamos, para dentro de si e para o mundo. E lá, na verdade, não encontramos muita coisa. Nada muito exato. Vamos achando esses pedaços, reflexos, borrões. Não tem receita. E olha que eu procurei! Até quando li a Clarissa pela primeira vez achava que poderia encontrar ali a revelação de todos os mistérios. Por um bom tempo eu procurei o grande segredo, o livro que revelaria tudo, o tratamento que me ajudaria de uma hora pra outra.

Quem sabe esse tenha sido um dos principais insights que tive na vida. Não seria o floral, a acupuntura, o reiki, o passe, a palestra, Osho, Estés, Dalke, Morin, ballet, corrida, Kardec, Jesus, Gandhi, aquarela, meditação, japamala, constelação familiar…que me transportariam para o paraíso. Para onde enfim, eu teria paz. Seria tão somente a eterna busca. A medida exata de uma gota para cada possibilidade de ver. Quem sabe por isso eu me pegue perdendo as palavras, preciso reaprender a falar. Não sei mais dizer grandes verdades, perdi a capacidade de abarcar todas as respostas. Tentaram me ensinar a ser pata, mas só conseguiram me fazer não ser cisne. Deixo-me no “não sei”, porque aprendi que sempre há uma outra promessa de encontrar comigo mesma logo adiante, só que agora eu sou capaz de me reconhecer no reflexo do lago.

MAIS FICÇÃO, POR FAVOR

Vivemos tempos obscuros. Uma das frases que mais tenho visto nas redes. Há uma sensação de desalento, de esgotamento, impotência. Mas ainda são travadas intensas batalhas e me parece que muito das disputas está no campo da verdade.  O que é fato, o que é opinião, o que é real, o que não é. Pessoalmente, não acredito que seja possível descobrir, encontrar, a verdade ou, ainda, aS verdadeS. Nesses nossos dias parece haver uma contraposição entre a “verdade da diversidade” e a “verdade da tradição”. Não deixa de ser uma disputa pela verdade, ou pela realidade. Existe algo de fato. Algo que é fato porque eu disse ou algo que é fato porque estudiosos, pensadores, cientistas disseram.

Eu entendo que possa dar um mal-estar esse lugar difuso das impossibilidades, das inverdades, das irrealidades, das incertezas. Mas acho que é justamente por aí que temos que voltar a nos aventurar. Nossos antepassados tinham esse mal-estar mais presente. Eles não sabiam o que havia do outro lado do oceano. Não sabiam o que havia para além da Lua e do Sol. Quantas fantasias e explicações criaram para tentar entender! De repente – como costumam fazer os pais e mães – não quiseram nos deixar nessa mesma angústia. Nos ensinaram, nos explicaram cada dia mais sobre tudo que foram descobrindo. Fomos destrinchando a vida e construindo a realidade e nos esforçando para transmitir cada resposta, cada minúcia, nome de planta, fórmula matemática, formação rochosa, organização política, guerras, zoologia, ciclo da água, etc, etc, etc. Ai do mal-estar do não-saber.  Nós próprios, em um bate-papo qualquer, quando surge essa zona obscura do não sei não corremos para o celular? É divertido, sim, eu também faço muitas vezes. Mas e aquele suspiro de meio minuto tentando imaginar uma explicação, morreu?

Penso que nos mergulhamos – ao longo dos últimos quinze anos mais ou menos – cada vez mais profundamente em uma tal realidade que nos barbariza. Fomos noticiados, jornalizados, documentados. Dia e noite a televisão nos mostra a realidade. Crime, doença, morte, acidente, devastação. Parece letra do Arnaldo Antunes. Peste bubônica, câncer, pneumonia. Raiva, rubéola, tuberculose, anemia. E o pulso ainda pulsa. Vamos vivendo, mas nossa mente não foi formatada pra encarar cada faceta mais terrível da vida, dia após dia, sem intervalo, sem refresco. Chegou a internet. Estamos libertos dos ditames da grande mídia! Mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Na minha adolescência o que mais circulava na rede e mais mobilizava a galera eram imagens de gente morta. Crimes ou acidentes famosos na tv, encontravam no www a liberdade de mostrar-se sem tapar as vergonhas. Demasiada realidade. Não há quem suporte.

Tenho uma frase do Tolkien aqui na minha mesa: É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela. Parece que chegamos em um tempo onde nos preocupamos demasiadamente em tornar tudo reconhecível, só que esquecemos que é necessário também se transportar, momentaneamente, para fora do real. Isso é humano, fantasiar é humanizar-se também. Contamos histórias desde que desenvolvemos os rudimentos da comunicação. Precisávamos dizer das coisas fantásticas que víamos aos que não puderam acompanhar a caçada. Precisávamos contar sobre os seres que viviam no fundo do mar, sobre os mitos escondidos nas florestas, os seres que criavam o arco-íris, a tempestade. Para que a realidade possível fizesse um pouco mais de sentido ou doesse um pouco menos. Precisamos, ainda, falar do que se passa dentro de nós, dos nossos sonhos, ou então de um mundo paralelo todo possível na nossa mente. Isso nos dá sobrevida, nos faz respirar mais um pouco, nos transporta para outra dimensão, nos faz sentir a pele do outro, o pensar do outro e, ao mesmo tempo, nos conectar com nós mesmos.

Na ficção qualquer coisa pode ser real, pode ser verdade. Mas é no campo da ficção. Quando voltamos para a realidade, tantas vezes dolorosa, sabemos que não tem varinha mágica por aqui. A gente não é bobo. Até as crianças pequenas sabem que a cama tem que ser arrumada de verdade, mas também sabem que é infinitamente mais divertido fazer de conta que tem um poder mágico que faz os lençóis voarem sozinhos. Quando retornamos do lado de lá – onde a imaginação impera – estamos com os pés muito mais no chão, principalmente porque nosso coração pôde suspirar aliviado ao sair pra dar uma volta. Não sei bem quem nos convenceu que ficar no mundo da Lua faria a pessoa se desconectar. Nos desconectamos da realidade quando ela é demais. Nos desumanizamos para poder sobreviver ao excesso de barbárie e, normalmente, acabamos por criar mais barbárie porque a banalizamos.

Quando não há mais lugar para a ficção, o campo da verdade e da fantasia embaça e tudo vira uma massa disforme. Acabamos por ter essa sensação de que estamos em um filme. Ouvimos certas falas, ou vemos certas atitudes e pensamos: não pode ser que a pessoa esteja dizendo/fazendo isso, não é real. Ao mesmo tempo qualquer invenção da mente, do desejo, da vontade se torna real: Eu vi um vídeo no Youtube, o cara falou: a terra é plana. É verdade. A gente tem um afã de correr e mostrar todas as descobertas da ciência, as comprovações, as evidências. Mas não se trata disso. Não se trata de disputar o campo da verdade ou da realidade porque, nesse momento, não é mais possível reconhecer as bordas desse campo. Não há, de novo, fronteiras entre o que é ficção e o que é real.

Percebem como nos últimos dez anos a indústria do blockbuster no cinema entrou em um redemoinho de refilmagens? Hollywood tem retornado aos seus arquivos para buscar novidades? Para reapresentar ao mundo histórias que já foram contadas? Por um lado, é um bom sinal, fazemos o que for possível para continuar contando histórias, mas também nos mostra como tem sido difícil criar do ponto zero. A literatura amadora, o Wattpad, com muita produção adolescente está repleto das tais Fanfic’s. Ficção de fã. Costumeiramente os mais jovens pegam os personagens que amam e continuam a escrever a história. Cria-se um pouco, claro, mas eu sinto como se estivéssemos engessados, enferrujados para o mundo das invenções.

Há, nesse caldeirão da vida, sem dúvida, espaços onde a ficção parece ser mais celebrada. Netflix tem gerado muito conteúdo bom, com qualidade narrativa e estética. As lojas de ebook tem trazido escritores iniciantes à tona com mais facilidade do que nunca. Sim, é mais fácil hoje encontrar material sobre criatividade, criação, etc. Mas sinto que precisamos com urgência nos medicar com ficção e mais do que tudo, reestabelecer o lugar do mágico. Vamos parar de temer o mundo da fantasia. Vamos deixar de nos sobrecarregar com excesso de realidade dia e noite. Precisamos da fantasia. Sim, mais do que nunca precisamos ficar no mundo da Lua. Precisamos escrever e ler muita ficção. Precisamos reconhecer novamente essa fronteira. Atravessar para o lado de lá e voltar para olhar o mundo. Reconhecer as diferenças entre evidência e fantasia, entre desejo e convivência pacífica. Precisamos sair do quadrado da verdade, pegar a mala e entrar pelo túnel do terror, da vontade de matar alguém e quem sabe matar mesmo, do amor adolescente não correspondido, da viagem espacial com todos os seres inimagináveis que viram amigos, das dores sofridas por um estranho das quais eu nunca teria conhecimento na minha vida real e ao final da viagem fazer o caminho de volta. Olhar para nossa vida com todas essas experiências irreais na bagagem, toda essa fantasia partilhada por telepatia – como diria Sthephen King. Aí, quem sabe, possamos nos despojar um pouco de nossas certezas, nossos absolutismos da razão, respirar, e tentar fazer a realidade um pouco mais reconhecível.