Filha mulher

Ontem terminamos o dia conversando sobre como ensinaríamos a Luíza a se proteger. E isso dói.

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Assim que soube que estava grávida achei que era um menino. Não que isso fosse muito relevante. Tenho aversão à ansiedade das pessoas em torno do sexo dos bebês. Por que isso é importante mesmo? Quando tivemos a confirmação de que era uma menina senti um frio na espinha. Fiquei mal, em seguida, pensando no que aquilo significava. Meses depois, já com a Luíza no colo, quando surgiam notícias de estupro de meninas, mulheres, eu entendi. Era medo e uma dor profunda.

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Em torno dos meus 12 anos eu fui exposta por um grupo de meninos da minha escola. Um deles, especialmente, me perseguia há alguns anos, com “cartinhas de amor” e investidas insistentes. Ali pela 6ª série eu comecei a lidar com os apelos de mais de um menino da turma. Certa vez fui literalmente colocada contra a parede, um tentava me beijar e outros estavam na volta olhando e rindo. Eu saí correndo. Na 7ª série esses colegas ficaram muito irritados com o fato de que eu não queria beijar nenhum deles. Eu conversava com todos, ria, me divertia, brincava, abraçava. Eu era eu. Espontânea, amistosa. Não tinha sido avisada que com 11 anos havia me tornado um objeto sexual. Esses meninos decidiram divertir-se pichando um banco da escola com meu nome, minha turma e uma série de palavras como: vagabunda, puta, vadia, siririqueira. Lembro de olhar tudo aquilo e me perguntar o que significava a palavra siririqueira, tal era minha realidade como menina de 12 anos.

A situação acabou com uma promessa de que os meninos pintariam o banco. Naquele mesmo dia saímos de férias e quando voltamos já estava tudo arrumado. Nenhum responsável foi avisado. Muitos anos depois, essa turma do colégio quis reunir-se em um grupo de whatsapp, perguntaram à uma amiga minha se achava adequado me adicionarem. Ué, por que a dúvida? Ela me relatou que na perspectiva deles, tudo aquilo tinha sido uma grande brincadeira. Homens de hoje, com seus 33-34 anos.

Fui capaz de compreender a dimensão que esse evento teve na minha vida muitos anos depois. Por muito tempo acreditei que estava errada. Que dei motivo. Que precisava ser menos espontânea. Que não podia tocar nos homens porque, obviamente, era um sinal verde.

O nome disso é CULTURA DO ESTUPRO.

Não há nada que possamos fazer. O objetivo não é ensinar a se comportar, a agir de uma forma que nos proteja. Não. Freiras foram estupradas! O objetivo é deixar claro que os corpos das mulheres, não importa o que façam, são objetos e estão à disposição para serem invadidos, retalhados, mastigados, invalidados, destruídos.

Um homem drogado é perdoado por atropelar, roubar, matar, estuprar. Uma mulher drogada (o que tantas vezes ocorre sem que ela mesma saiba) é mais culpada! Mesmo inconsciente ela devia saber!

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Sim, a Luíza vai aprender judô, jiujitsu e coisas assim. E será avisada do porque estará aprendendo essas lutas. Minha filha receberá as armas do esclarecimento, do diálogo, da cultura, mas, CHEGA! Se, da forma que vivemos, as coisas ainda vão passar pelos nossos corpos, é sim pelo corpo que ela também vai se posicionar.

Estamos cansadas! Mas, o silêncio nunca mais será uma opção.

A idade das mães

Fala-se muito que as mulheres hoje em dia tem filhos “mais velhas”. Enquanto professora cheguei a ouvir de alguns pais: “sabe como é, somos pais velhos”.

Onde ficou estabelecido idade pra ser mãe? Que vozes dizem que o ideal é ser mãe na faixa dos vinte anos? Que estaremos secas e estragadas depois dos 35; que filhos de “pais velhos” são mal educados, mimados?

Tive a Luíza com 33 anos, minha mãe teve a primeira filha com 22. Como seria se eu tivesse a Luíza lá em 2009? Cursando Pedagogia. Saindo de uma depressão.

O discurso hegemônico vai dizer que somos uma geração de fracos que não quer passar trabalho. Bom era o tempo em que se fazia malabarismo pedalando bicicletinha de uma roda em cima da corda bamba sobre um tanque de tubarões. Em benefício de quem?

O mesmo discurso que ecoa entre nós dizendo que é preciso “ter pique” pra ser mãe. Seria exaustivo ser mãe? Seria solitário? O famoso discurso de que tudo é MIMIMI. Bom era aquele tempo. Os anos 80? Em que a licença maternidade era de 60 dias? Pena que inventaram esse feminismo, né?

As mães jovens dos anos 80 foram vantajosas para o sistema. A baixíssimo custo elas mantinham os homens trabalhadores limpos, bem vestidos, alimentados, assim como os futuros trabalhadores, frequentando a escola bem uniformizados, asseados, alimentados. Ainda é assim, para muitas mulheres. Pior ainda para as marginalizadas que muitas vezes tornam-se a única rede de apoio das mulheres que são parte do sistema.

Não é sobre a idade. É sobre escolhas conscientes. Nossos úteros não vão explodir com 40 anos. Estamos cada dia mais munidas de melhores informações para gestar, parir e educar crianças. Estamos nos questionando sobre exaustão materna, paternidade consciente, agressões às crianças.

Quem sabe aí esteja o maior problema, o que o sistema hegemônico detesta. Por que ainda é tão difícil olhar a infância? Porque precisaremos olhar para as mulheres, depois para o tempo, depois para a inutilidade das coisas. Aí o sistema todinho está fadado a se repensar.

Honro todas as mulheres que me antecederam e todas as que me acompanham na vida hoje. As que não tiveram escolha, as que estavam exaustas, as que foram mães jovens, as que não foram, as que não queriam ter sido. As que desejam, mas não conseguem, as que jamais serão mães de crianças, as que gestam ideais, que maternam transformação, que parem sonhos.

Amo todas, simplesmente porque são mulheres.