Três conchadas de galinha

Adorei quando me enviaram o link da reportagem no whats. Eu não acompanho mais os canais da TV aberta, por isso não poderia ter assistido sem o recurso do compartilhar. Eu sorri quando terminou o vídeo, encantada com aquela amizade tão “pé no chão”. Em seguida me dei conta da proporção que estaria tomando, tudo veiculado pela RBS. Como tudo isso chegaria nas pessoas? O que será que cada um pensava, nas suas casas, na hora do almoço, sobre o almoço daqueles guris, naquela escola?

Será que nos damos conta de que adentramos ali toda uma vida, uma cultura que nos escapa? E não digo com isso para pensarmos em uma divisão maniqueísta, simplória, de periferias e zonas centrais. Ri-me, ao ver o repórter que criou aquela “documentação” dos bastidores da conversa de whatsapp. Como ele falava e falava. Perguntando-respondendo aos meninos, parecia fazer um esforço de fazer-se entender. Supondo que ali não encontraria bons interlocutores?

A própria reportagem em si era um retrato dessas muitas vidas na cidade, ainda que não se propusesse a ser isso. Aquele repórter sentado em um refeitório de uma escola pública, aqueles meninos repetindo as mesmas coisas ao microfone (imaginei se um deles não pensava “afinal de contas o que esse cara quer que eu responda?”). O que poderia ser engraçado em muitas casas de Porto Alegre naquele meio dia, era vida. E a graça que aquela comunidade estaria achando ao ver sua própria vida no Jornal do Almoço certamente era de outra ordem. Com o que se divertiam os portoalegrenses? O que exatamente tornou aquele áudio tão ímpar, para chegar a ser reportagem? A linguagem? A situação? Caímos de paraquedas naquela escola e para o quê mesmo estávamos olhando?

Era de comida que falava-se. É de comida que ainda precisamos falar? Ainda estamos falando dessa escola, em que o conteúdo mais prazeroso do dia é o que chega ao final do turno? Eu não desconheço ou desmereço o fato de que precisamos insistir no básico, de que ainda falamos de escolas que existem como sustento da vida, para que alguém simplesmente não morra de fome. Não tenho como saber se era o caso daqueles meninos, daqui do meu outro mundo me pareceu que não era. Mas, quando chegamos estrangeiros-passageiros ali, quantos pensaram que poderia ser? Que a situação de alguma daquelas crianças “no fundo” da tela seria potencialmente a da fome? É doloroso para mim que ainda seja sobre isso que falamos em educação.

No entanto, ainda que eu tenha pendurado minhas chuteiras, me pergunto e me pergunto: Ainda estamos falando dessa escola, em que o conteúdo mais prazeroso do dia é o que chega ao final do turno? E se podemos transpor os muros daquele prédio específico e adentramos outros muros, os conteúdos prazerosos não seriam ainda e de novo qualquer respiro entre o lanche e o recreio? Entre a cantina e os degraus das escadas? No olhar do outro, no que ele tem pra me dizer das coisas do seu viver.

Que lindos aqueles meninos na reportagem. Que belos seres humanos. Aquela lista saborosa de ingredientes. O desejo visceral de repetir o prato. A amizade viva e crua, de quem sabe o que é mesmo importante. De quem tem o outro no cuidar de si mesmo. As pessoas que cozinharam, felizes pela partilha do prazer da comida. Nutrir, encher o outro de um amor muito prático. Estar em torno da mesa, olhar nos olhos, aprender nos gestos. Quantos tem essa possibilidade? Como tocar o território do outro com consciência de si, sem perder-se nas fronteiras do desconhecido? Como alimentar-se dos saberes querendo sempre mais “três conchadas”? Pois eles querem! O que mesmo temos a ensinar que não seja isso?

*a imagem destacada está em https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_prim%C3%A1ria