O que incomoda quando olhamos para a infância?

Recentemente – como tem sido praxe na internet dos nossos tempos – houve uma grande mobilização e polêmica em torno de vídeo com crianças em festa de aniversário.

Lembrei-me, naquele momento, de um texto que escrevi no verão de 2019. Fui atrás dele. Quero partilhar com vocês porque algumas reflexões que reencontrei ali fazem sentido ainda. Mas, antes, deixe-me explicar de onde vem meu olhar.

Trabalhei quase dez anos diariamente com crianças pequenas. O que mais busquei nesse tempo foi a capacidade de observar e intervir o menos possível – Ah, e bater papo com os pequenos! Que eu adoro até hoje. Conviver com crianças pequenas, se estivermos dispostos e cientes do possível desconforto, é poesia e filosofia em forma bruta. Conseguir ouvir, acolher e vivenciar suas percepções, movimentos, desejos é de uma riqueza que, acredito, nenhuma experiência no mundo te dá. Mas, exige um enorme deslocamento. Estar de fato com uma criança demanda sairmos do nosso lugar, jeito de ver, de pensar, e abrir-se.

Voltar pra infância pode doer. Eu sei, agora todo mundo fica falando da tal criança interior e se já temos alguma resistência, dessensibilizamos para o assunto. Olhar a infância incomoda porque dói. “Mas eu tive uma ótima infância, eu não tenho traumas”. Não falo de infância destruída. A dureza disso não consigo mensurar. A questão é que há um inevitável confronto entre o mundo visto da perspectiva da criança e o mundo factual em que nós vivemos. As coisas que machucam, frustram, desconfortam uma criança nós não lembramos mais. Normalmente está no tipo de coisa à que os adultos respondem: “mas que bobagem!” ou “não foi nada!”. Para a criança, via de regra, é algo bem significativo. E pode ser que seja para ela e não para outra criança. O incrível livro “Quando eu voltar a ser criança” de Janusz Korczak consegue nos carregar de volta à essas perspectivas que já perdemos.

Crescer dói. Fomos bebês, estivemos entregues ao que bem fizessem com a gente. Fomos bem pequenos, não deu pra fazer tudo que desejávamos. Podia ser “bobo” como não poder dormir na casa de uma amiga, ter feito xixi na calça, apagar uma vela. Costumamos partir da ideia de que o “trauma” fica porque os adultos não souberam intervir. Sim, falamos isso porque, infelizmente, são gerações carregando diversas “bagunças emocionais”. Mas, o que eu quero dizer aqui é que pode até ser que uma criança conviva apenas com adultos equilibrados. Isso não a deixa imune a frustrações! Pelo simples fato de que, a dimensão daquele evento para ela, a maneira com que ela sentiu, ouviu, percebeu o que aconteceu e as intervenções posteriores nós não conseguimos dominar.

Por isso, o convite que as crianças nos fazem – apenas por serem crianças – é tão enriquecedor. Porque elas tem “o mapa da mina” mesmo sem saberem. Elas vão nos levar onde dói apenas por estarmos com elas. Sem dúvida são conteúdos inconscientes, porque na consciência já aprendemos a nomear como bobagem e “minha infância foi ótima”. O livro “O Drama da Criança Bem-dotada” da Alice Miller pode ajudar a entender melhor isso.

Daí a infância ser tão incômoda. Porque é capaz de trazer à tona nossas sombras mais bem guardadas. Reagimos das mais diferentes maneiras. Tá tudo certo sentir raiva de uma criança pequena. Tá errado despejar a raiva em cima dela. Mas tá tudo certo com os nossos sentimentos, todos que aparecem quando estamos com uma criança. Até mesmo a negação de todos eles e a pressa em “civilizar os pequenos selvagens”. O incômodo é sermos capazes de não apontar o dedo para a infância. De nos darmos conta que ali residem indivíduos muito além de nossas dores e projeções. Seres sem responsabilidade alguma com nossas frustrações, temores e vontade de controlar. Indivíduos vivenciando um longo e complexo desenvolvimento biológico, psíquico, social e por aí vai.

Dia desses compartilhei uma frase que dizia que olhar para a infância era revolucionário. De fato, acredito que, no dia em que as crianças estiverem em paz a humanidade caminhará numa direção totalmente nova.

Amanhã compartilho o texto que escrevi no verão de 2019, a partir de uma cena observada na beira da praia.

Obs: a foto destacada nesse post mostra parte das crianças que frequentavam minha primeira creche. Uma delas eu tenho muito clara na memória. Ela me empurrou do escorregador quando eu estava sentada lá em cima. Rolei até chegar esborrachada no chão. Lembro de ir chorando até as professoras e elas dizerem “não foi nada”. Lembro que não doía tanto fisicamente. Mas sim, a raiva que eu sentia. Eu era bem menor do que a menina. Essas são as “pequenas” coisas da infância que ficam. Se eu não acolher essa Bruna pequena, sozinha e com raiva, ela vai aparecer. Quer eu queira, ou não.

Memórias…

apagadas?

Terça-feira pensei muito sobre memória. No final do dia – no banho, claro – fiquei me lembrando dos tempos de FAMECOS. Foi bom sabe? Foi incrível na real, vivi e aprendi coisas ali que nenhuma outra experiência teria me proporcionado. Lembrei que realmente cogitei trabalhar com montagem – ou edição como é mais comum falar. Voltei para as muitas horas na moviola dando risada com os colegas enquanto operávamos aquela geringonça divertida, cheia de personalidade e que te ensina mais sobre montagem do que jamais um curso de Final Cut Pro será capaz de fazer. Uma manivela que faz a película seguir, parar ou retroceder. O lápis que risca o início e final do corte. Para, puxa aquela tripa de fotogramas, fixa na coladeira – sim, é esse o nome – corta onde marcou com o lápis, junta os pedaços na exata marcação e passa durex – sim, é isso mesmo. Prensa na coladeira e reza que não solte durante a projeção. Se tu tivesse que fazer tudo isso pra realizar um corte, pensaria trinta vezes antes de sequer começar a rodar a câmera.

Enquanto o Francis, assistente de fotografia, fazia o fotômetro eu ajustava a câmera.

Só de lembrar me dá um aconchego no peito. Um sorriso no rosto. Resgato meu encantamento com o cinema e penso como a gente pode estragar memórias. Minha amiga Tati disse uma vez: “mas tu só lembra das coisas negativas?”. Eu tinha perguntado se ela já tinha comido a pizza que eu faço. “Claro! Lá na tua irmã, não lembra?”. Meio que não lembrava. Aliás, às vezes penso que devia ter fumado maconha na “FUMECOS” visto que minha memória é péssima e sequer tive essa experiência. #prontofalei

Respondi – depois do esforço pra lembrar – “ah, mas aquela vez queimou, não valeu”. Então ela me deu aquela resposta ali de cima – com toda autoridade que uma capricorniana tem e com toda razão também! A frase ficou na minha cabeça. Me dei conta que não sou propriamente desmemoriada, eu estrago algumas memórias.

Quando entrei na faculdade de cinema tinha dezessete anos e um zilhão de expectativas. Ainda não sabia que a expectativa é mãe da merda. Como todo Millennial velho fui formatada por uma sociedade de baby-boomers e geração X. Ou seja, ninguém sabia me dizer como fazia para ser artista. Como fazia pra perseguir felicidade acima de qualquer coisa. Era pra ser produtivo, organizado, vestir a camisa da empresa por trinta anos de preferência. Mas fui fazer cinema, e agora?

Set do curta “A Porta”. Locação no Hospital Psiquiátrico São Pedro.

Quando concluí o curso estava totalmente perdida. Me sentia travada e incapaz. Tinha vontade de fazer muitas outras coisas também. Sentia vergonha de não querer mais me dedicar exclusivamente ao cinema, de querer experimentar-me ainda e da opinião dos outros. Medo de não ter emprego fixo e de precisar viajar muito e ficar longe da minha família. Com tudo isso queimei a memória da FAMECOS me convencendo que tinha sido um período muito difícil. Foi, claro! Estava no final da adolescência tentando me encontrar no mundo com zero ferramentas emocionais e práticas pra fazer acontecer. E tá tudo bem.

Em 2004 uma câmera ligada era aglomeração certo…será que hoje em dia também?

Esse banho foi bom pra lembrar que memória é coisa tão maleável que dá pra estragar e pra consertar também. Foi lindo, gostoso, desafiador, encantador fazer cinema. Eu realmente me diverti demais. Fotografei, filmei, editei, mixei, escrevi, fiz assistência de direção, produção. Vi atores ensaiando, descobri que manter o pessoal da elétrica alimentado é a essência do bom humor no set e que virar madrugada dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro pode ser legal quando os fresnéis estão todos ligados mas que atravessar corredor completamente escuro é pra quase se mijar nas calças. Aprendi que, muito diferentemente da escola, era possível conviver com pessoas COM-PLE-TA-MEN-TE diferentes de mim. Descobri que basta colocar uma câmera em algum lugar dentro de uma universidade para gerar aglomeração – pelo menos era assim em 2004.

Não estou nessa foto porque estava atrás da câmera fazendo o making off do curta!

Sem ter consciência disso sei que aqueles dois anos e meio forjaram lindas memórias no meu espírito e sei que posso voltar lá e retomar tudo aquilo que a alma já sabia. Mais do que isso, tenho muita ferramenta emocional, espiritual e prática para olhar meus “erros e acertos” sem colocar o que vivi nessas caixinhas e sim observar tudo como aquilo que realmente é. Sem ilusões, pretensões, frustrações mas somente com a alegria de quem pode viver absolutamente tudo que estava a sua disposição e ao alcance da sua consciência naquele momento.

Tudo me compõe e agora tenho a segurança de ser esse sopão de habilidades. Precisei construir para mim mesma o caminho de aceitar a multiplicidade. Hoje eu sei que a vida não é corrida de cem metros rasos, uma linha reta pra cumprir bem rápido. É essa jornada tipo “Senhor dos Anéis” cheia de sobe e desce, paradas, florestas, enrascadas. Cada um que faça a sua como sentir no coração e que guarde todas as memórias com tintas de boas vibes mesmo que a pizza tenha queimado e que as expectativas tenham sido todas transformadas em realidade. Esquecer é perder a chance de dar uma boa risada de si mesmo.

Parto é jornada

Faz tempo queria escrever sobre isso. Mais precisamente desde o dia 8 de janeiro desse ano. Dia que Luíza nasceu. Agora sento para escrever, olho a lista dos cinquenta textos da pasta “em processo” (para escolher em qual vou trabalhar) e acabo abrindo o word num arquivo em branco e escrevo: parto é jornada. Abro um outro arquivo e releio meu relato de parto enviado ao grupo de gestantes do qual fiz parte. Me dou conta de que estamos na semana das mães. “Sou mãe agora”. Me dou conta disso também.

O parto da Luíza durou dez horas. Começou dia 7 e terminou dia 8 de janeiro de 2020 às 9h51min. Não. Não foi assim. Tem gente que se preocupa com quantas horas um trabalho de parto vai levar. Se apavora em pensar que pode durar mais de um dia. Às vezes se preocupa em abreviar, quem sabe até zerar essas horas. Não tem como, porque o parto é uma jornada que começa muito antes da primeira contração (mesmo que você nem venha a tê-la).

Eu tinha medo de parto porque no meu nascimento minha mãe teve uma hemorragia gravíssima, entrou em coma, quase morreu. Foi essa a história que eu ouvi, ou foi o jeito que chegou em mim, foi assim que eu arquivei na minha cabeça, no meu coração. Eu não desejei filhos desde sempre, nunca me vi mãe, sempre me achei muito doida pra tal tarefa, muito desnorteada. Mas depois de uns quatro ou cinco anos de namoro comecei a sentir que faria sentido – alguuuummmm dia – partilhar a cumplicidade, as risadas, o afeto sem medo, com mais alguém na nossa equação. Porém, podia ser alguém que já tivesse chegado no mundo. Adotar sempre foi algo que passou pela minha mente. Era, sem dúvida, a travessia do parto que me apavorava.

Em 2017 eu estive na Cidade Escola Ayni, em Guaporé, durante o feriado de Páscoa – a celebração da passagem, da travessia para outra condição. E foi assim, uma das experiências-portal que passei na vida, um divisor de águas. Não vou detalhar aqui porque daria um tratado e desnortearia – um talento que tenho – o texto. Mas foram uma série de vivências focadas no resgate da criança – da nossa, primeiro, para consequentemente resgatar (ou “deixar em paz” como dizia o Tiago Berto) as crianças do mundo. A culminância foi um ritual final em que todos os participantes formaram um corredor e entrávamos ali de olhos fechados. A jornada final. A morte. O nascimento. Travessia vida-morte-vida. Não sei como – nunca tive, óbvio, memórias do meu nascimento – mas quando fechei meus olhos vi o hospital, vi gente de branco, vi mãos me recebendo, me senti nascer. Mas ali, os parceiros daquela jornada tocavam suavemente meu corpo, acariciavam meus cabelos, me encorajavam. Durante aquele feriado a questão da luz e da sombra foi muito presente para mim e um dos facilitadores me disse baixinho ao ouvido durante a travessia final: “a semente precisa da escuridão para encontrar a luz”. Agora, me boto a pensar, o bebê também se nutre na escuridão até irromper para a luz.

Desse momento em diante eu percebi o quanto precisava revisitar meu nascimento. Não apenas a ideia de que minha mãe quase morreu porque eu nasci – que era a frase infantil que permeou minha mente por muito tempo – mas começar a olhar para mim e entender a origem do medo terrível da solidão, da morte, da sensação de que é preciso muita luta para sobreviver, de que o mundo é um lugar hostil. Passei a conversar mais com meus pais sobre isso, principalmente com o meu pai. Entender o que havia sido toda aquela vivência para ele, queria saber os detalhes – dentro do possível – de tudo que havia acontecido. Minha mãe – hoje eu entendo! – só diz maravilhas sobre os dois partos que teve, então ela não era referência! (rindo aqui).

Eu e Conrad vínhamos conversando cada vez mais sobre filhos. Mas, sabe aquela coisa “ah, acho que mais um ano e a gente pode tentar” e vai indo por mais um ano e mais um? Eu já não tomava hormônios há quatro anos e controlávamos bem. Quando, em 2019, decidi pelo meu “ano sabático de me tornar escritora”, veio com muita força uma sensação de “agora eu poderia ter um filho”. Prática dos 21 dias, japamala, mantra pra Ganesha muita abundância, erra a semana da ovulação e, na hora do namoro, manda às favas a camisinha! Pá! Grávida. Congela. Pânico. Um dos primeiros pensamentos? “meu deus eu vou precisar parir um bebê”. O doido? Quase todo o medo do parto se foi. Quando eu senti que não tinha o que pensar, que não tinha saída, que ia acontecer quer eu quisesse, quer não, o medo meio que foi embora.

Na primeira consulta com a obstetra que escolhemos – alinhada com as práticas que acreditávamos – falei brevemente da complicação que minha mãe teve no parto. Disse que eu só conheci minha mãe dois dias depois que nasci. Ela sorriu e disse que só tinha conhecido a mãe dela depois de doze dias. A médica que escolhemos tinha passado pela mesma coisa. Segue a vida e como boa geminiana que sou fui ler, ver filme e tentar me preparar o máximo possível (normalmente achando que eu não estava fazendo o suficiente) com a sensação de que essa questão do meu nascimento já estava vencida.

Fizemos uma oficina de preparação para o parto e descobrimos nossa doula. Vai indo e vai indo, quase fazendo de conta que tá tudo bem, tá tudo certo. Passa das 32 semanas e a Luíza está pélvica (de bumbum pro canal vaginal). Bebê pélvico no cenário obstétrico que temos em Porto Alegre é opção por cesariana. Tristeza, raiva, frustração, medo. Sim, é isso que as mães sentem meus amores, apesar de que se diga que é efusividade, redenção e sei lá mais o que. 34 semanas e tudo permanece da mesma forma. Primeiro encontro pré-parto com nossa doula, ela quer saber mais da nossa história e chego no “é…quando eu nasci”. Terminei a história e ela já mandou na lata “é isso, tu tá com medo do parto”. Vá lágrima rolando, porque no fundo eu sabia que isso estava lá em algum lugar, ainda. E tudo bem, porque nossas dores, nossos dilemas não se curam assim, do dia pra noite. É a famosa cebola que vai tirando e tirando camadas e tem sempre algo mais para aprofundar. Exercícios de spinning babies, engatinha pela casa, vira de ponta cabeça, faz acupuntura, floral, mantra pra Ganesha, o removedor de obstáculos.

37 semanas, pélvica. Culpa, raiva, tristeza, frustração. A doula conversa com a gente sobre a Versão Cefálica Externa. Medo. E eu me dando conta de que não tinha caminho fácil. Não tinha entregar pra deus. Quer dizer, tinha. Eu acredito em deus. Mas o meu deus é o do livre arbítrio. Ele me diz que espera que com minha inteligência e meu coração eu seja capaz de tomar boas decisões e não apenas que eu sente e chore ou que eu apenas olhe para as nuvens e clame (ou reclame) por ele. Houve algum momento no início da gestação que eu pensei que poderia só esperar. Aliás a cultura gestacional é essa né? “O que esperar quando se está esperando?”. Se tem alguma gestante por aí lendo, sinto dizer, mas não tem nada como “ficar esperando” na gravidez. Isso a gente faz quando senta na parada do ônibus. Se bem que, mesmo assim, é preciso caminhar até a parada e subir no ônibus quando ele chega! Não há passividade nem quando se espera esse tipo de coisa.  

Eu sentia, cada vez com mais força, que até o final tudo seria uma tomada de consciência e tomadas de decisão. Optamos pela VCE e eu tentando dar conta do medo terrível que tomava conta – e que depois do procedimento eu descobriria ter sido um pânico meio idiota. Ainda lembro da manhã subindo a serra, parando pra comer cuca na estrada. Minha mente dando um ar de complexidade em tudo, chegamos no consultório da doutora e não podia ser mais simples. Ela então. Uma bruxona, como dizia nossa doula. Quando ela olhou as ecografias anteriores e realizou uma no consultório disse que Luíza teria tudo para nascer pélvica mesmo, pelas medidas dela. Contou o porquê acreditava tanto nos bebês pélvicos. O nascimento do pai dela lhe inspirava. Ele nasceu de pé! Sim, não era nem o bumbum primeiro, eram os pés mesmo. Quando a parteira chegou, ele já tinha saído. Infelizmente, como a médica é de Encantado esperar a Luíza chegar sentada mesmo, não era uma opção. Mas, ela também nos explicou tudo e informou que havia muitas chances de sucesso na versão. Ela conversou com a Luíza durante a eco e só esse momento teria valido todo o esforço. Fiz as pazes com a situação. Na doçura daquela médica que admirava a determinação dos bebês pélvicos senti meu coração em paz com tudo que tinha feito até ali. Fomos para o hospital. Olha, não temos ideia das coisas que se perderam nessa cultura de dominar a gestação, o parto, o feminino. Deitei e em menos de um minuto – juro pelo meu deusinho – a Luíza estava virada e bem! Assim, tipo parteira do tempo da minha nona. Aliás, pensei muito na minha nona nesse processo. Ah! E a enfermeira que faz parte da equipe dessa médica eu já conhecia, ela foi uma das facilitadoras lá na Ayni em 2017! Jornada é isso, bifurcações, intersecções, cruzamentos, subidas e decidas, retas que parecem infinitas.

38 semanas e cefálica. Foi assim até as 40 semanas, mas eu tinha diabetes gestacional (Rá, não tinha falado disso ainda? Kkkk) precisávamos incentivar a moça a sair. Descolamento de membrana? Sim, vamos lá! Minha consciência já tinha assumido que ao mesmo tempo que não tínhamos controle de nada, tínhamos que ter decisão. Escolher, informar-se e optar pelos caminhos abraçando o que quer que aparecesse. Essa é a dicotomia louca da gestação e parto (da vida no caso)! Entregar-se com consciência. Fluir com responsabilidade. É deixar nas mãos do destino sabendo que ele vai vir te perguntar se é pra colocar no pote azul ou no amarelo. E com o nascimento, se você não estiver totalmente consciente e informada nessa jornada…bem. Vai acontecer, sem dúvida. É mais forte do que você, é a natureza, a força da criação agindo, mas saiba que pode ser que você pratique um divertido rafting no Três Coroas ou que seja somente arrastada pela correnteza. Tu que sabe.

O nascimento da Luíza foi a jornada dentro dessa jornada. Foi de uma intensidade que me pergunto se vou viver algum dia algo parecido. Tento voltar pra lá às vezes pra me conectar com aquela força descomunal que eu não sabia que tinha e sim, às vezes eu encontro culpa de mãe também, me perguntando se fiz tudo “certo”. Luíza precisou ser atendida pela equipe de pediatria. Não correu risco de vida, nada do tipo. Teve um quadro de desconforto respiratório. Precisou ficar em observação. Fiquei sozinha na sala de recuperação. Conrad foi ficar com ela, falar com a médica. O chão se abriu brevemente sob os meus pés, estava de volta no túnel, estava sozinha. “Ela está sozinha”, eu disse pra minha doula que estava ao meu lado ainda e ela rapidamente me puxou “essa é outra história, cada pessoa tem a sua!”.

Em um dos momentos ao lado da incubadora na Unidade Neonatal, já era noite, uma enfermeira trocava a fralda da Luíza e cantava “mãezinha do ceú…”. Eu chorava sentada ao lado, mas não como mãe. Chorava a bebê Bruna, porque num insight me dei conta de que nunca estive sozinha. Mesmo quando minha mãe estava longe alguém cuidou de mim, amorosamente, com dedicação e carinho, cantando uma música, quem sabe? Viver Luíza já me ensinou sobre não entregar tudo e só esperar, me ensinou a tomar parte mas ir no flow e tão profundamente me propôs curar a ferida do meu nascimento, mostrar que essa ideia de solidão e de morte pode estar bastante equivocada desde o início. Tá resolvido? Claro que não.

Parir é um breve portal do começo do longo caminho que temos pela frente. Por isso ele começa no nosso próprio parto. Consciente ou inconscientemente ele nos carrega para o início da nossa vida, costura pontos, desfaz amarras, mostra verdades. Não tem terceirização, não dá pra mandar ninguém no nosso lugar. No puerpério recebi a visita de um amigo que me contou que aquilo que os antigos alquimistas mais desejavam era passar por uma gestação e parto. Eles acreditavam que isso diferenciava tremendamente as mulheres. Sim, a gente toca a face de deus, meus queridos. Com todo seu esplendor aterrorizante e não há o melhor ou o pior jeito de viver tudo isso. Da minha experiência digo, é intenso e visceral para todos que vivenciam o parto, a diferença é que cada um está conectado com as questões de sua própria jornada.  

Monja Coen autografou um livrinho meu em 2007 – quando uma palestra e autógrafos dela na feira do livro tinham algo em torno de vinte pessoas – com uma frase que repito quase diariamente e que responde a quase todos os meus anseios: Intersomos, interconectados com a vida. Não há solidão ainda que estejamos sozinhos, cada um na sua jornada. Somos pontos de uma mesma teia. Paridos nessa existência e de partida, a cada segundo.

*a foto que ilustra esse post é um recorte de um momento do parto da Luíza, queria mostrar principalmente o quadro da sala de parto que está registrado na minha mente até hoje e que me ajudou tremendamente no processo.

Vá achar sua turma (e você mesma!)

com pitadas de Clarissa Pinkola Estés

Neste meu ano de 2019 tenho falado muito pouco. Para quem falava por mais de quatro horas seguidas, diariamente, pode-se dizer que hoje vivo em silêncio. Para quem estava em meio à, pelo menos, vinte e cinco seres humanos, hoje vivo sozinha. Traz uma imensa paz e muito autoconhecimento. Sinto que nos meus últimos quinze anos de vida preparei-me, sem saber, para esse momento. Não suportaria essa introjeção em outras épocas.

Passei uma boa parte da vida preocupada que os outros compreendessem o que eu compreendia. Falava e falava e falava. Muito! Queria convencê-los. Despendia uma energia colossal em explicar. E explicava e explicava. Já adolescente ouvi listas dos meus defeitos, de todos os lados alguém sabia mais sobre mim, o que eu devia ou não ser e fazer do que eu mesma. Eu tinha uma necessidade sufocante de me comunicar. Precisava falar, precisava colocar para fora o mundo que residia dentro da minha mente. Ouvi ainda e por muito tempo o quanto eu era inconveniente, percebia os olhares, os comentários, como se inevitavelmente minhas palavras ferissem as pessoas, como se eu fosse algo temível ou odiável. “Por que ela não consegue ficar quieta?” Eu não tinha a escrita naquele momento. Na verdade, eu a tinha, mas cada tentativa de transpor para o papel era um sufoco. Achava tudo horrível, pensava que os livros que eu lia tinham saído da mente da autora ou do autor exatamente daquele jeito e eu não era genial como eles, eu não era perfeita como pensava que eles eram, então não estava autorizada a escrever.

Gradualmente fui me culpando, aprendi a odiar quem eu era. Dizia na terapia, no início da vida adulta, que eu queria poder não falar mais, que eu queria ser outra pessoa. Me esforcei tantas vezes para isso, em rodas de conversa ficava em silêncio e acabava ouvindo: “não vai dizer nada Bruna? Vai lá, tu sempre fala!”. Não conseguia compreender e sentia ainda mais raiva. Carreguei por muito tempo dentro de mim a triste ideia de tentar encaixar-me. Sim, apesar da rebeldia e da raiva eu queria o que todo ser humano quer: encontrar minha turma, uma mínima torcida, como diz a Clarissa.

O que fiz ao longo do caminho foi tentar, sozinha, achar as ferramentas para dar conta disso. Tentei articular o que queriam de mim com o que eu achava que eu queria de mim mesma. Fui virando um Frankenstein. Já tinha perdido os instintos, não sabia mais farejar os perigos. Me perdi da minha essência. Não entendia por que minhas falas eram tão odiosas, não entendia por que eu deveria falar menos, ser menos, incomodar menos. Foi duramente que aprendi que tentar ser outra coisa, sendo ainda – e inevitavelmente – quem se é, traz um resultado tenebroso. Além da mente colapsar, nos tornamos um arremedo de gente. Tentamos agradar um pouco aqui, nos impor um pouco ali. Quando tentava ser suave acabava sendo dura, quando precisava ser mais dura era suave demais. Quando o silêncio seria uma resposta melhor, eu falava, e vice-versa.

(…) digamos que nesse ponto o patinho passa pela mesma experiência pela qual passaram milhares de mulheres “exiladas” – aquela de uma incompatibilidade básica com pessoas diferentes, que não é culpa de ninguém, apesar de que a maioria das mulheres, num excesso de amabilidade, assumam o fato como se fosse sua culpa exclusiva. Quando isso acontece, vemos mulheres que estão sempre dispostas a pedir desculpas pelo espaço que ocupam. Vemos mulheres com medo de dizer simplesmente, “não, obrigada”, e ir embora. Vemos mulheres dando ouvidos a alguém que lhes repete insistentemente que elas são teimosas, sem compreender que os gatos não nadam e que as galinhas não mergulham.

(Estés, 1994, pg. 235)

Na jornada fui descobrindo que quando passamos pelos desmontes psíquicos da infância – que os adultos por ignorância, inconsciência, executam – torna-se cada vez mais complexo reencontrar-se consigo mesmo. Muitas vezes o trabalho é tão bem feito que nos vemos em pânico ao tentar esse contato com nossa essência. No meu caso, foi um trabalho árduo e triste me tornar o que me tornei e sendo tão custoso não queria sair novamente do isolamento e descobrir sabe-se lá com o quê depois da curva. O patinho feio nem se reconhece cisne na primeira vez que olha seu reflexo no lago. No entanto, a eterna sensação de não se encaixar, de não pertencer é devastadora e te faz seguir tateando, meio às cegas, à procura de alguma coisa que te preencha.

Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. (…) É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. (…) Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.

(Estés, 1994, pg. 234)

Essas citações aí em cima são da Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”. Todas no capítulo seis “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma benção” em que ela analisa o conto “O patinho feio” que reli recentemente, fazendo despencar mais um bocado de fichas. Ela diz que essa foi “uma das poucas histórias a incentivar sucessivas gerações de gente diferente a aguentar até encontrar sua turma”. Lembro-me do primeiro contato que tive com o livro, sentia que ali havia algo muito importante, alguma espécie de mistério ou ensinamento profundo, mas não conseguia seguir na leitura. Era difícil e nem sei bem por quê. Levei anos para avançar nas páginas. Ele ainda é meu livro de cabeceira, porque há camadas e camadas de aprendizados . Cada vez que retomo, descubro mais um segredo.

Quando revisito minha época de escola tenho vontade de ir lá me buscar. Tagarela, inquieta, oferecida, vagabunda. Sim, quanto mais crescemos mais forte o machado da cultura vem pra te derrubar. Quem você pensa que é? Não faz muito me caiu mais essa ficha. Se eu fosse menino, me adjetivariam como? Perspicaz? Eloquente? Gênio forte? Sim, é sério. Eu nunca tinha me dado conta (tão bem a cultura faz seu serviço) de que boa parte da inconveniência do meu ser se deve ao fato de ser mulher. Já fazia algum tempo que eu tinha a Clarissa de companheira e sorri pra ela na minha cabeceira, lembrando que já havia lido isso, mas ainda não estava pronta pra entender.

As condições culturais mais destrutivas para o nascimento e a vida de uma mulher são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, aquelas sem carinhosos rituais de absolvição, aquelas que forçam a mulher a escolher entre a alma e a sociedade, aquelas nas quais a compaixão é segregada pelas classes econômicas ou por castas, em que o corpo é visto como algo que precisa ser “purificado” ou como um santuário a ser regulamentado por decreto, nas quais o novo, o incomum ou o diferente não geram prazer, nas quais a curiosidade e a criatividade são punidas e censuradas em vez de recompensadas, ou recompensadas apenas quando não se é mulher, nas quais são perpetrados contra o corpo atos dolorosos que são chamados de sagrados, ou nas quais a mulher é castigada, como diz Alice Miller sucintamente, “para seu próprio bem”, nas quais a alma não é reconhecida como um ser por seus próprios méritos.

(Estés, 1994, pg. 222)
Anna Pavlova, bailarina russa, com seu cisne de estimação, Jack.

Nesses golpes de insights penetrantes, a gente tem momentos de se perguntar: mas porque diabos eu fui por aquele caminho. Aprendi que não importa. As decisões que tomei eram as possíveis naquele estado de consciência. Não podiam ter sido melhores pois me trouxeram até aqui. Eu construí esse lugar que ocupo hoje. Estar consciente é para os corajosos! Quanto mais aguçada a intuição mais e mais profundamente viajamos, para dentro de si e para o mundo. E lá, na verdade, não encontramos muita coisa. Nada muito exato. Vamos achando esses pedaços, reflexos, borrões. Não tem receita. E olha que eu procurei! Até quando li a Clarissa pela primeira vez achava que poderia encontrar ali a revelação de todos os mistérios. Por um bom tempo eu procurei o grande segredo, o livro que revelaria tudo, o tratamento que me ajudaria de uma hora pra outra.

Quem sabe esse tenha sido um dos principais insights que tive na vida. Não seria o floral, a acupuntura, o reiki, o passe, a palestra, Osho, Estés, Dalke, Morin, ballet, corrida, Kardec, Jesus, Gandhi, aquarela, meditação, japamala, constelação familiar…que me transportariam para o paraíso. Para onde enfim, eu teria paz. Seria tão somente a eterna busca. A medida exata de uma gota para cada possibilidade de ver. Quem sabe por isso eu me pegue perdendo as palavras, preciso reaprender a falar. Não sei mais dizer grandes verdades, perdi a capacidade de abarcar todas as respostas. Tentaram me ensinar a ser pata, mas só conseguiram me fazer não ser cisne. Deixo-me no “não sei”, porque aprendi que sempre há uma outra promessa de encontrar comigo mesma logo adiante, só que agora eu sou capaz de me reconhecer no reflexo do lago.

Expectativa e frustração. Cem metros e maratona.

Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything’s okay and everything’s going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything’s gone wrong and everything blows up in your face

(Ironic, Alanis Morissette, sempre tem uma música que toca né?)

Redemoinho de procrastinação e resistência. Eu não sei como essa semana foi para você, mas, para mim, foi meio meleca. Sabe? Aquelas semanas enroladas em que nada sai conforme a gente desenhou e fica uma sensação de frustração? Eu estava assim, até começar esse texto. Não adianta, a escrita sempre acaba me salvando! Escrever é terapêutico, faça isso pela sua sanidade mental, é lindo! Vai lá, faz um diário, semanário, algo do tipo. Escreve tudo que se passa aí dentro, tudo mesmo. Ufa. Dá um alívio igual fazer xixi quando estamos super apertados, sabe?!

Voltando! Quando eu fazia terapia meu psicólogo costumava me dizer que frustração vem de criarmos expectativas. Quem não cria expectativas não se frustra. Foi uma das melhores coisas que aprendi. Quando fico muito frustrada penso em que expectativas criei. Elas eram realistas? Eram relevantes? O que aconteceu no lugar do que eu pretendia é tão péssimo assim? Soltar as expectativas é abrir espaço para o que a vida traz. Posso não ter cumprido as expectativas que me impus essa semana, mas agora me dou conta de quantas coisas lindas aconteceram no lugar.

Almocei com minha irmã. Falávamos um pouco sobre essa sensação da semana melequenta e sem direção. De jeitos diferentes, nós duas estávamos nos sentindo assim. Disse pra ela do quanto era complexo estar completamente comigo mesma, com minha escrita, dia a pós dia em uma imersão de autoconhecimento nível super-hard. Então minha irmã lembrou de quando fez seu “ano sabático”. Oito meses viajando sozinha, estando ela com ela mesma nas belezas e durezas de uma viagem e o quanto isso foi de transformador à enlouquecedor à transformador de novo. Lembramos de quantas pessoas diziam que aquilo que ela estava fazendo era “pra quem pode” e como agora eu também escuto essa expressão. A ideia normalmente está em torno do dinheiro. Falamos por dez segundos sobre o fato de as pessoas deletarem a trajetória de economias e muito trabalho. Depois chegamos à conclusão de que, sim, é para quem pode. Mergulhar profundamente dentro de si mesmo exige um trabalho para o qual nem sempre estamos preparados. Ficar sozinho consigo mesmo, questionar a sua própria existência, sua formação profissional, seu lugar no mundo, o lugar do trabalho, do dinheiro, das relações que temos, do que gostamos, do que temos talento ou não para fazer. Perder as referências que fomos ensinados a ter: instituições, chefes, horários, salário. Lidar com os julgamentos, as críticas, as elucubrações de quem olha de fora. Enfim, isso é pra quem pode, mais ainda, é para quem realmente quer.

As pessoas adoram aquele texto sobre cuidar do jardim para atrair as borboletas mas, basta alguém parar, no meio da tarde, para podar uma roseira ou regar um girassol que um louco em um carro do ano, dirigindo acelerado, pensa “isso aí é pra quem pode, eu não tenho tempo pra ficar regando plantinha”.  Raramente estamos dispostos a cuidar do tal jardim que não traz segurança e sucesso imediatos. Mas, é real que as borboletas vêm. Se minha semana não cumpriu alguma expectativa que coloquei para o meu trabalho ela trouxe outras alegrias: passei a tarde com amigas que eu amo, almocei com minha irmã, comemorei o aniversário da minha sogra, tive uma conversa reveladora com meu marido, recebi uma oferta de trabalho e iniciei os esboços de um projeto que acabou de cair de paraquedas na minha vida.

Almoçar com minha irmã me lembrou de como é bom ter alguém que está contigo desde o início da sua vida, recebeu os mesmos valores que você, foi educada pelas mesmas pessoas, conhece toda a sua trajetória. Dá pra aprofundar mais as questões e rola um “transmimento de pensação” como nós duas costumamos falar só entre nós, porque irmãs tem dessas coisas.

Celebrar o aniversário da minha sogra fez eu lembrar de como sou grata pela vida da mulher que deu a vida ao amor da minha vida. Ter tido uma conversa reveladora com meu marido me fez perceber tudo que eu já fiz até aqui. Eu tinha terminado um desses dias frustrada com minhas um milhão de expectativas. Tomando um café no final da tarde com ele, disse o quanto estava com medo de não concluir os projetos que tinha me proposto, do quanto sentia que não estava produzindo tudo que devia. Ele com as poucas, diretas e retas palavras me disse: “olha, eu só acho, assim, só acho, que alguém que tem um livro sendo produzido e que vai ser publicado no meio do ano não está “sem fazer nada”.

Eliud Kipchoge, campeão da maratona olímpica Rio 2016. Crédito da foto: Matthias Hangst

Aí caiu a ficha de como precisava valorizar muito as minhas conquistas, pegar mais leve comigo e me dar conta de que nossa lógica de “produtividade” está muito relacionada ao curtíssimo prazo. Todo mundo adora o Usain Bolt (ex-velocista olímpico) e nem fazemos ideia de quem é Eliud Kipchoge (maior maratonista olímpico da atualidade – e dois anos mais velho que o Bolt, que já se aposentou). Fico achando que nossos sonhos são ganhos com muito mais cadência e resistência do que com força e explosão (claro que tem momentos em que os sprints são necessários). Dificilmente enxergamos os resultados de anos de mudanças, transformações pessoais, dinheiro economizado, cursos, aulas, diálogos, filmes, leituras. Queremos sonhos realizados no fast food, só que o tomate plantado no jardim – que demora mais de um mês para ficar pronto – tem um sabor bem diferente.

A foto da menina regando as plantas está em http://hmjardins.com.br/4-dicas-cuidar-plantas-verao/ um site cheio de dicas sobre jardinagem hein!?

Você se esforça?

Quando não tem ninguém te cobrando? Não tem chefe, não tem prazo, não tem ponto pra bater. Você se esforça? A narrativa do esforço é normalmente edificante, transformadora. Nos comunicamos assim. Tudo é uma luta, um esforço, uma guerra, uma correria. Sem dor, sem ganho, preciso matar um leão por dia, homem cria biblioteca com livros do lixão, não precisa chorar. Pare para observar os títulos de filmes de guerra: Fomos Heróis, Tempo de Glória, O Patriota, Coração Valente, Corações de Ferro, Santos ou Soldados, Honra e Lealdade. A guerra é o território da coragem, da glória, da honra. Vivemos pressionados pela sensação de que precisamos estar nos ferrando para estar dando certo. Se você não foi hospitalizado no último ano, bem, você não está se esforçando o bastante.

Quando perdemos – emprego, carro, namorado, a hora no dentista – nos sentimos desorientados por que organizamos nossa vida em torno do esforço para manter tudo na linha. Aprendemos que perder é horrível. Você sofre e a mente não quer te deixar aceitar o vazio. Aceitar que você pode ficar sem matar nenhum leão. No primeiro mês dessa recente jornada – que dura pouco mais de três meses – eu estava de um lado para o outro pensando no que eu devia fazer (sim, por que me aceitar escritora nunca era uma opção). Criei uma batalha pessoal e precisava ganhar. Seguir a razão, elaborar uma estratégia, agir como em um campo de guerra, fazer o certo. Peguei uma régua maluca e comecei a medir minha vida com tabelas financeiras, contas a pagar, entradas e saídas. Foi difícil aceitar que eu poderia não ter nenhuma estratégia. Que eu não ia ganhar, ou perder, nenhuma guerra. Se cogitamos deixar de nos esforçar corre o ego na frente e grita: vagabundo! Vai ficar sem fazer nada? Se você se dá conta e responde “é, vou ficar sem fazer nada e tá tudo bem” isso traz uma fé arrebatadora. Você se joga no colo do universo – Deus, Alá, Jeová, Tupã, Oxalá…– e confia. Agradeça quando perder! É ótimo! Se você aceitar, é como um reset no sistema. Um chacoalhão.

Nesse reset me vi sem escolha. Tinha que escrever. Ainda assim, quase transformei isso em uma nova guerra. Como lidar com a força das velhas narrativas internas? Houve dias em que me peguei trabalhando por horas a fio, sem parar para comer, sem ir ao banheiro. Claro, em muitos momentos era pura empolgação com o que eu estava vivendo, mas também fui me dando conta de que estava inconscientemente voltando a cumprir um protocolo.  Ninguém nos ensina a viver de sonho. Todos têm um plano bem arquitetado sobre qualquer outra coisa. Mas, viver com as coisas da alma? Quem sabe como fazer essa jornada? Eu não sei! Ninguém te ensina a fazer o “não-script”. Primeiro você vai listar todas as coisas que te impedem: o dinheiro, os filhos, a casa, o cachorro, o alinhamento dos astros. Tente esvaziar todas elas da sua cabeça. E aí? O que você faria com sua vida? Às vezes sai, em um bate-papo íntimo e descontraído: Aff! Eu vou é morar na praia e vender sanduíche! Nisso a galera se solta e começam: se eu pudesse abriria meu próprio café; queria ter mais filhos e ficar só cuidando deles; queria vender tudo e cair no mundo; queria viver da minha arte. Por que a gente não pega e faz? O que nos impede?

Quando decidi não ter mais nenhum emprego me dei conta de como a vida era cômoda. Comprometer-se com o trabalho que supostamente devemos fazer é ótimo. Alguém que trabalha, que bate o ponto no horário certo, que faz tudo conforme lhe pedem não poderá nunca ser taxado de descomprometido. Quantas vezes você já escutou coisas como: fulana é diferente, ela nunca reclama, tá sempre disposta! Beltrano é ótimo, cumpre tudo que é pedido para ele e ainda faz mais! Ah! Se todos fossem como a Ciclana, que faz o que pedimos sem questionar, não dá trabalho! Esforçar-se é muito cômodo. Fazemos o compromisso com algo externo. É fácil. Ninguém vai te chamar de relaxado se você tem um trabalho. Você pode até reclamar pelos corredores. Resmungar e murmurar. Mas acaba sendo aplaudido. Quanto mais envolvido com qualquer trabalho árduo, fatigante, extenuante de preferência, mais esforçado, dedicado, comprometido você é. Aprendemos que isso é bonito, que é esperado e desejado. Façamos de novo aquele exercício. E se? Amanhã você não precisa mais trabalhar. Alguma conjectura do universo mudou, a vida funciona de outro jeito e você pode ficar no sofá o dia inteiro. O resto da vida até! Com o que você se comprometeria? Tente responder isso falando apenas de você, esqueça as demandas externas. Provavelmente você ficaria perdido. Não tem ninguém lhe cobrando um caminho e você não vai saber para onde ir.  É confortável não precisar se comprometer conosco, não é? Quando nos colocamos no centro do processo, qual é a demanda? Se ninguém está nos cutucando somos capazes de nos movimentar em alguma direção?

Amo a sincronicidade das músicas quando estou escrevendo. Toca “Under Pressure” do Queen agora. Afastei-me disso tudo como um homem cego. Sentado em uma cerca, mas não funciona, continuo vindo com amor, mas ele está tão despedaçado. A insanidade ri, sob pressão estamos cedendo. Não podemos dar a nós mesmos mais uma chance. Por que não podemos dar ao amor mais uma chance? Porque o amor é uma palavra tão fora de moda e o amor te desafia a se importar com as pessoas e o amor desafia você a mudar nosso modo de nos preocupar conosco. Esta é nossa última dança. Isto somos nós mesmos sob pressão.

Ainda que eu tivesse decidido viver da minha arte, quando me vi efetivamente nessa situação ideal, me dei conta de que não tinha recebido nenhuma ferramenta para isso. Não somos educados para o protagonismo da nossa própria vida. Somos educados para o esforço. A palavra vem de exfortiare, sendo que EX significa fora. Ou seja, é a ideia de mostrar nossa força para fora e parece que não importa muito se isso está em consonância com sua força interior. Pode ser inclusive que o seu esforço esteja matando sua força interior. Somos educados de uma maneira que diz mais respeito a encaixar-se do que fazer uso de suas próprias formas. Como alguém que nasce gargalhando na terra dos tristes. Não somos educados a testar nossas potências ao máximo, errando o suficiente no processo de autodescobrir-se. Parece que o discurso entre nós, humanos, está sempre mais voltado ao que é preciso controlar. O ambiente, o outro, o corpo. Basta falarmos em deixar as crianças livres e o pessoal já tem calafrios! Insistimos mais no que é necessário entregar à nova geração – quais conteúdos, comportamentos, habilidades – do que sobre quem eles são ou como eles poderiam descobrir quem são.

Ai Bruna, a vida não pode ser um descaminho louco! Eu sei, é a primeira coisa que tememos. Fomos educados para temer a falta de controle. Eu digo para mim mesma essa frase quase todos os dias. Ai Bruna, você devia estar fazendo tal coisa agora! É difícil relaxar. Já percebeu como usamos relaxado ou relaxamento como sinônimos de sujo, malcuidado? Há umas semanas estava num bate papo de mesa de bar – literalmente – e surgiu algum assunto envolvendo os tempos obscuros que vivemos – sem dúvidas! – e logo a ideia de que sempre resistiremos. Pensei comigo – acho que falei também, com essa língua geminiana que Deus me deu! – eu não quero mais resistir, não quero uma vida de sobreviver, de resistência. Até quando vamos ficar nesse cabo de força?  

Essa educação nos trouxe até aqui, nesse ponto da história em que estamos em uma guerra infinita (tem filme com esse nome!). Todos estamos fazendo esforços descomunais para mostrar ao outro algo que ele não viu, que ele não sabe, que ele não entende. E se soltarmos? Se relaxarmos? Se de repente eu não tenho nada para dizer a ninguém? Nada para ensinar? Mas não podemos! Estamos sob pressão e é preciso sempre agir! Você não se cansa? Nosso HD veio com o protocolo “estar totalmente entregue, presente”, mas seguimos substituindo pelo protocolo “esforço” e é a partir dele que passamos a produzir. É preciso esforçar-se – muito! – para sair da sua essência, para ler quando todos leem, escrever quanto todos escrevem, sentar-se quando todos sentam. Deixe de seguir seus instintos, siga nosso protocolo. Aprenda a engolir o choro, a colorir dentro das linhas, a ouvir quando queremos que você ouça, a falar quando queremos que você fale. Geramos resultados pois nos esforçamos e quanto mais nos esforçamos mais geramos resultados. Somos educados na reatividade. Quanto mais alguém nos cutuca, mais respondemos.

Tem uma geração vindo aí que diz que quer viver com propósito. Li barbaridades sobre eles. As pessoas não gostam muito. Isso tira o eixo. Como assim você ousa viver sua vida como bem entende? Como assim não vai seguir o roteiro? Que ultraje! Essa geração que está adulta jovem agora – em torno dos vinte anos de idade – tem colocado em evidência nossa dificuldade em dialogar com novos sistemas. São taxados de descomprometidos, pessoas que querem tudo fácil. Cuidado! Não misture a pequena parcela disfuncional de uma geração, com toda a potência que ela tem. Haja visto os movimentos de adolescentes fazendo greve da escola. Além disso, são eles que não se encaixam nas necessidades da sociedade ou a maneira que vivemos está em profunda crise e alguns aspectos não fazem mais nenhum sentido mesmo?

Quanto às problemáticas que são trazidas – intolerância a frustração como a mais pungente – me pergunto: o fato de terem sido educados por pessoas que tiveram que ouvir sobre sofrer e então sofrer e sofrer para conquistar não teve efeito rebote? Quem sabe muitos desses pais ao se depararem com o chacoalhão que é ter um filho, perceberam a oportunidade de não seguir o protocolo – ao menos nessa área de suas vidas – e não quiseram mais dar seguimento ao sistema de sobrevivência. No entanto, eles não receberam ferramentas suficientes de autoconhecimento, estão construindo um mapa enquanto navegam. Quem de nós está lá para ajudar ao invés de criticar? Quase ninguém, de fato, porque afinal não sabemos, também nos falta descobrimento de si.

Ana Thomaz diz em um vídeo que assisti há uns dois anos, que liberdade é não ter escolha. Dentro de você existe o seu caminho e quando nos despojamos dos personagens, dos afazeres, podemos vislumbrar uma única trilha, a única possibilidade de sermos quem somos. Não há escolha porque é o que é. Por que não podemos falar sobre quem nós somos, o que sentimos, o que nos dá prazer, o que nos faz feliz? Quem de nós é realmente capaz de dizer que conteúdos as crianças que entram na escola hoje precisarão quando saírem, daqui há quatorze anos? Pelas mudanças que se operam no mundo, não fazemos ideia. Mas, quem sabe seja muito simples, pois trata-se de ser mais humano e menos máquina, de conhecer mais aqui dentro, de saber cuidar de si e do outro do que sobre como fazer força do lado de fora.

Desaparecer

Depois que o site foi ao ar encontrei um baita problema. Travei. Me peguei dando voltas e voltas em torno do que eu escreveria essa semana. Eu estava em êxtase. O site tinha ido ao ar, enfim! Tudo estava fluindo conforme eu havia esperado, só que travei. Fiquei em torno do próprio rabo pensando em qual temática abordaria. Eram tantas ideias, tantas coisas que estava vivenciando. Fazia anotações, pensei em planejar alguns temas iniciais…e aparecia um medo, aquela vozinha começando a soprar tem certeza que você dá conta? E se você falar tudo, não haverá mais nada para dizer! Esse texto vai ficar ruim, claro! Não solte tudo de uma vez.

Em 2016, quando estava a caminho de São Paulo para o lançamento da antologia do curso de escrita criativa, postei um texto do Osho no Facebook. Dizia algo mais ou menos assim: antes do rio mergulhar no oceano ele treme de medo, olha para a jornada que percorreu até ali e vê à sua frente uma vastidão em que ele desaparecerá.  Naquele momento eu estava em pânico. Era o avião, a cidade, a noite de autógrafos. Será que o rio estava pronto pra ser oceano? Acontece que aquele texto voltou à minha mente, querendo me dizer alguma coisa de novo. Sabe quando lemos algo uma segunda vez e parece que enxergamos coisas que nem tínhamos visto antes? Fui fisgada pela ideia de que o rio tinha medo de desaparecer.  

Sentei na frente do computador, coloquei umas músicas e tentei deixar fluir. Não como uma escrita que vai jogando tudo pra fora, mas queria entender um pouco o porquê estava travando. Afinal de contas, do que se tratava tudo isso? Na lista aleatória do YouTubeMusic tocou “Landslide” do Fleetwood Mac. Só fechei os olhos, quando me dei conta. Pode a criança dentro do meu coração se erguer ainda mais? Será que eu posso navegar através das mudanças de marés do oceano? Eu posso lidar com as estações da minha vida? Bem, eu tive medo de mudar, porque construí minha vida ao seu redor. Mas o tempo te deixa mais ousado, até as crianças envelhecem e eu também estou envelhecendo.

Construí minha vida ao redor de alguém que eu acreditava que existia. Era tão real, tão palpável. Se você não existir mais, o que eu faço? Abraçar tudo isso, mergulhar de cabeça no oceano que se desnuda a minha frente é deixar de ser tudo que fui até aqui. É me desfazer do EU que construí e tentar navegar pelas marés desses novos mares. A persona em torno da qual eu construí a minha vida, aquela que me fazia sentir sempre fora do tempo, fora de lugar, incapaz, insuficiente, aquela Bruna que passou por tantas crises de ansiedade, afogada em redemoinhos de pensamentos, tentando ir à superfície para verificar se algum dia isso teria fim, se algum dia seria feliz, aquela moça estava desaparecendo. Pode parecer que foi ontem ou que tenha exclusivamente a ver com a jornada dos últimos três meses – a jornada da escritora – mas esse rio é bem mais antigo e eu honro profundamente o entendimento que tenho hoje do quanto caminhei até aqui. Não houve mágica, nenhuma transcendência imediata, nem insight revelador – apesar de ter desejado muito as resoluções milagrosas. São as estações da vida e provavelmente haverá muitos outros invernos – e verões também!

Você já preparou uma muda? Nas que fiz até hoje aprendi a usar quase sempre o mesmo procedimento. Retirar as folhas de uma boa parte do raminho, deixando apenas o topo. Perder folhas sinaliza para a planta que ela deve expandir as raízes. É preciso despir-se, limpar, soltar, abrir espaço para, então, construir um novo começo. Para brotar em um novo lugar, para vicejar uma nova existência. A essência permanece. Estava ali o tempo todo, inclusive, mesmo quando não estávamos muito atentos e vai despontar de maneira vibrante com um pouco de cuidado. No entanto, o desnecessário precisa ir.

Enquanto escrevia a música trocou e começou “Here comes the sun” do Beatles. Dei uma risada, levantei os olhos da tela do computador e mirei a parede a minha frente. Era sobre felicidade. Eu estava tremendamente feliz, sentada no meu escritório olhando para parede em meio à minha escrita. Eu estava travada porque estava feliz, a velha Bruna não conhecia esse lugar. Fim de tarde e o sol esta mais para despedida do que para chegada. Mas aqui dentro de mim tem um sol. Um sol e eu estou feliz com ele. Esse sol que derrete toda a montanha gelada. Essas avalanches que vão carregando o desnecessário, deixando a mostra os cadáveres do passado, deslizando e voltando a ser água que corre por entre os vales, que volta a ser rio, que nutre o caminho, alimenta peixes, plantas, transforma pedra em areia. Que é tudo isso e não é nada disso e só segue. Para ser oceano, ser gota.

Como eu vim parar aqui?

É tipo aquela cena de “Eduardo e Mônica” do Legião Urbana. O Eduardo que só levava aquela vida certinha fica achando a festa estranha e aquela gente toda esquisita. Possível que ele tenha pensado “como diabos vim parar nessa situação.”

À essas alturas já perdi as contas de quantas vezes eu estava no trabalho, parecia fora do meu próprio corpo, olhando tudo que se passava na minha frente (eu era professora de crianças pequenas, então, belive me, era tipo “Onde está Wally?”) e me perguntando “como foi que isso aconteceu? quando foi que me tornei essa pessoa? em que lugar do caminho eu esqueci de mim mesma e me adaptei tão facilmente à isso tudo?”.

Existe uma pegadinha nessa vida que se chama ego. Ele é aquela vozinha em alguma das suas orelhas te dizendo “seja alguma coisa que você acha que DEVE ser e sinta-se muito importante depois de cumprir todos os seus DEVERES”. É a parte que garante que vamos ficar seguindo o script custe o que custar.

Só que, cada vez menos raramente, a gente sente um apertinho ali no lugar do coração. Às vezes na boca do estômago. Quer alguma coisa que não sabe o que é. Começa a ler umas coisas perigosas. Participa de retiros, vivências, partilhas. Experimenta umas sensações de prazer lá do fundo da alma. Daquele tempo que gargalhava solto quando tinha não mais do que quatro anos.

Aí o eguinho vai lá e diz “Fica quieto aí e taca ficha no serviço meu filho!”. Você fica obcecado com certas coisas. Já que a vida é isso, então eu DEVO ter alguma razão pra fazer tudo isso. Quem sabe eu TENHA que trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas, por que isso vai realmente significar que eu sou importante e bem sucedido. Quem sabe eu PRECISE transformar meu ambiente de trabalho, dizendo as pessoas o quanto tudo está errado e como todos deviam fazer tudo diferente para otimizar, aprofundar, melhorar as práticas. Ou então eu DEVA limpar, organizar, preparar, revisar, me ocupar e ocupar para que todos percebam o quanto eu realmente sou fundamental. Êta egotrip louca!

Mas, se você já tocou a casa preciosa da sua alma, garanto, é quase impossível voltar aos velhos trilhos. Você fica sacolejando enquanto o trem anda, totalmente sem lugar. “Que é que eu tô fazendo aqui?!”.

Aí é que são elas. Não tem ninguém pra te responder. Não tem. Esquece. Não tem mestre, guru, santo iluminado que vá te dizer o que fazer. Foi isso que fiz em 2018. Tinha que ter uma resposta pra essa sensação. Era mudar de trabalho, era mudar de casa, era mudar de cidade. Socorro! Alguém me manda o roteiro do filme que eu tô completamente fora da marcação de cena!! Minha alma ouviu, eu acho, e me deu um enorme pezão na bunda. Vai, criatura, e pára de incomodar!

Foi um pouco como quando fiz arvorismo. Muito medo de altura. Eu já tinha refugado uma vez. Na segunda visita ao mesmo lugar eu tinha que enfrentar a situação. Seria importante. Quis ir primeiro. Fiz a travessia naqueles postes, cheios de cabos e cordas em tempo recorde! Só não corri por falta de superfície. O vídeo é hilário, garanto. Fato é que ao final da travessia tinha uma tirolesa. Tinha uma tirolesa no final da travessia. Era mais alta. Pra mim, bem mais alta. Nem fiquei de pé na plataforma. A galera fazendo selfie e eu só queria descer de uma vez. Feliz com a conquista já feita até ali. Quando o monitor me chamou eu fui engatinhando até a beira da plataforma, rezando pra todos os santos que a m…. daquela corda estivesse bem presa, que se fosse a minha hora eu desmaiasse no caminho do chão. Olhei para o cara e pedi “tu me empurra faz favor, por que não vou pular não.” Fui de bundinha até a beirada e ele tocou minhas costas. Eu estava de olhos fechados e num átimo senti meu corpo solto no espaço. Solto e caindo. A velocidade aumentando e eu gritando como nunca. Abri os olhos. Me vi a metros do chão. Calafrio na espinha só de lembrar. Mas, eu precisava abrir os olhos por que não dá para seguir a vida por seguir. Também não dá pra se jogar e perder a paisagem do voo.

Estou nesse exato momento. Tomei o empurrãozinho meio inconsciente. Abençoado seja! Mas agora é que não vou perder de viver com os olhos bem abertos. Quer uma dica? Apenas pare de se perguntar. Não importa como você veio parar aqui. Só abra os olhos.