A idade das mães

Fala-se muito que as mulheres hoje em dia tem filhos “mais velhas”. Enquanto professora cheguei a ouvir de alguns pais: “sabe como é, somos pais velhos”.

Onde ficou estabelecido idade pra ser mãe? Que vozes dizem que o ideal é ser mãe na faixa dos vinte anos? Que estaremos secas e estragadas depois dos 35; que filhos de “pais velhos” são mal educados, mimados?

Tive a Luíza com 33 anos, minha mãe teve a primeira filha com 22. Como seria se eu tivesse a Luíza lá em 2009? Cursando Pedagogia. Saindo de uma depressão.

O discurso hegemônico vai dizer que somos uma geração de fracos que não quer passar trabalho. Bom era o tempo em que se fazia malabarismo pedalando bicicletinha de uma roda em cima da corda bamba sobre um tanque de tubarões. Em benefício de quem?

O mesmo discurso que ecoa entre nós dizendo que é preciso “ter pique” pra ser mãe. Seria exaustivo ser mãe? Seria solitário? O famoso discurso de que tudo é MIMIMI. Bom era aquele tempo. Os anos 80? Em que a licença maternidade era de 60 dias? Pena que inventaram esse feminismo, né?

As mães jovens dos anos 80 foram vantajosas para o sistema. A baixíssimo custo elas mantinham os homens trabalhadores limpos, bem vestidos, alimentados, assim como os futuros trabalhadores, frequentando a escola bem uniformizados, asseados, alimentados. Ainda é assim, para muitas mulheres. Pior ainda para as marginalizadas que muitas vezes tornam-se a única rede de apoio das mulheres que são parte do sistema.

Não é sobre a idade. É sobre escolhas conscientes. Nossos úteros não vão explodir com 40 anos. Estamos cada dia mais munidas de melhores informações para gestar, parir e educar crianças. Estamos nos questionando sobre exaustão materna, paternidade consciente, agressões às crianças.

Quem sabe aí esteja o maior problema, o que o sistema hegemônico detesta. Por que ainda é tão difícil olhar a infância? Porque precisaremos olhar para as mulheres, depois para o tempo, depois para a inutilidade das coisas. Aí o sistema todinho está fadado a se repensar.

Honro todas as mulheres que me antecederam e todas as que me acompanham na vida hoje. As que não tiveram escolha, as que estavam exaustas, as que foram mães jovens, as que não foram, as que não queriam ter sido. As que desejam, mas não conseguem, as que jamais serão mães de crianças, as que gestam ideais, que maternam transformação, que parem sonhos.

Amo todas, simplesmente porque são mulheres.

PÉS DESCALÇOS, CRIATIVIDADE

Essa semana entrei em uma loja de sapatos para crianças. Sempre achei estranho o fato de colocarmos calçados em seres que não caminham. A vendedora aproximou-se e perguntou quanto a Luíza “calçava” – minha filha estava sem meias nesse momento pois agora aprendeu a arrancar as benditas. Ri, dizendo que nem fazia ideia. A menina já me olhava com estranhamento. Chutou 16 ou 17, tentou enfiar o pé da Luíza. Eu, achando a maior graça. Fiquei correndo o olhar pela loja enquanto a menina tentava socar o pé da Luíza naquela forma. A moça já contrariada, disse: ela fica com o pé dobrado, não coloca o pé todo dentro do sapato.

No caso ela é um bebê e não devia fazer ideia do porquê alguém tentava colocar o pé dela naquela “caixinha”. Perguntei se não tinha algo mais molenga, de pano, sei lá. “Tem isso aqui” ela disse quase me atirando uma espécie de botinha de Neoprene. Então, veio a frase: Tu tem que acostumar ela com sapato, se não nunca vai usar.

Ah! Logo pra quem ela disse isso!

Gentilmente respondi: então vai ser como eu, que quase não usei sapatos porque nasci com os pés deformados, usei gesso e bota ortopédica. Chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o calçado!

Coitada. Ficou meio tensa. E contrariada também. Não falei com a intenção de constrangê-la. Eu realmente estava “de brincadeira” dentro daquela loja. Peguei meu caminho pra rua.

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Hoje fomos na pediatra, na saída passamos por uma senhora. Ela estava acompanhada de uma menina de uns 10 anos. “Gritou” essa frase: Olha o bebê! Pobrezinho, sem meia!

Sério, fazia muito tempo que eu não ficava extremamente p…. com alguém. Parei a caminhada me voltei em direção à ela e gritei de volta “mas tu é louca?!”. Mastiguei muitas frases depois disso.

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Tem alguma coisa na minha história que fala de pés. E é tão forte que fui procurar minha botinha de gesso para fotografar e percebi as sapatilhas de ballet ao lado. Gravei muitos pés para o curta “A Teia e o Ponto”. Tenho nervoso de ficar calçada muito tempo. Deve ser falta de terra no mapa astral.

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Sei que essa semana falei com jovens de 9º ano e esse assunto desdobrou-se em uma bela reflexão.

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Usei essa foto numa apresentação que fiz sobre criatividade para jovens essa semana. A ideia era falar sobre criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida, uma inteligência necessária para os nossos tempos. Conversamos sobre profissão, carreira, escolhas. No lugar de usar o slide “quem sou eu” e uma tentativa de currículo, coloquei essa foto e prometi que no final explicava. Eu ia falar sobre estar aberto ao erro, que não existe criação, inovação se você está preocupado em acertar. Seria hipócrita não me colocar no jogo. Eu mesma, que já vinha há meses pensando em como me apresentar profissionalmente. Eu que não tenho os diplomas acadêmicos pra me legitimar.

Descobrir nosso cerne, informar o que somos, mais do que aquilo que fazemos, é difícil sem os “selos do Inmetro”. O medo que temos da autonomia, da criatividade, da inovação é medo de “dar errado”, de não sermos validados por ninguém.

Passei minha vida de educadora acreditando até os ossos no currículo subjetivo. Na trajetória que cada um é capaz de construir. Se eu desejo saber, vou saber. Existe uma potência nesse movimento que nos ensinaram a esquecer. Então, como não me dei conta de que fiz isso comigo mesma?!

Disse pra eles que não faço ideia dos desafios que vão enfrentar. Não temos como saber que empregos eles terão, o que vai dar certo, quem vai ser bem sucedido. Escolher uma faculdade não é garantia de absolutamente nada. A própria ideia de precisar escolher entre mente ou coração é um paradigma velho. Dá pra andar de pés descalços e às vezes de sapato. Somos capazes de fluir entre as possibilidades. Isso é criatividade, é resolução de problemas.

Sugeri muitos livros, cursos livres, falas do TED, filmes. Há muitas formas de aprender, nuances e jeitos de expressar quem somos. A força que acreditamos ser necessária para “ensinar” alguém é energia desperdiçada. Aquele ser-humano é potente para achar seu próprio caminho, com os próprios pés.

Concluí minha fala e voltei a imagem. Contei minha história de vida “sem sapatos”. Essa menina descalça no meio do restaurante, imersa nas próprias invenções. Essa sou eu. Eu sou contadora de histórias. Ainda que não estivesse consciente, sempre fui. Com o ônus e o bônus. Vivendo a agonia de todas as histórias guardadas em mim, sofrendo com as fantasias sobre a realidade ao invés de criar de forma saudável. Acreditando, sonhando e inventando jeito. O que parece que não deu certo, as escolhas que pareciam sem sentido, as decisões polêmicas, os cursos, os lugares, as pessoas. Tudo existiu para que, um dia, eu pudesse ver o que eu faço e sentir que ali tem muito do que eu sou.

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Ps: Tá começando hoje, lá no meu instagram @ajornadadaescritora

11 dias de criatividade!

Junto com os alunos do 9º do Colégio Santíssima Trindade de Cruz Alta vou lançar uma proposta de criação por dia!

Participa por lá e libera tua mente!

Adeus escola

Quinta-feira passada completei 9 anos de formada em Pedagogia. Teria passado em branco não fossem as amigas que carrego desse tempo. Ontem passei em frente ao antigo Instituto Vicente Pallotti, escola que frequentei durante o Ensino Fundamental, e me impactei com as novas estruturas físicas. A pouca vegetação de antes, agora se foi totalmente.

Nunca desejei ser professora. Sabe aquelas crianças que brincavam de escolinha, davam aula para as bonecas? Não era eu. Comecei a frequentar a Educação Infantil com três anos. Adorava a “creche”. Quando comecei a primeira série tinha muita saudade mas me adaptei. Foi lá pela 3º série que as coisas mudaram. A professora só chamava alguns alunos para participar e eu virei a “que não sabe ficar quieta”. Na 5º série tivemos muitas trocas de professor de Geografia. Certa vez disse à um deles que precisávamos de aulas diferentes, de VER as coisas da geografia, de ir pra rua! No Ensino Médio virou raiva mesmo. Cada dia a escola me trazia a sensação de que perdia tempo de vida. Que estava presa ali esperando a liberdade. Nessa época vi um Globo Repórter sobre “Summerhill”. Nunca fiquei tão vidrada no programa, admirada que pudesse existir outro jeito de ser escola. Ali começou a crescer um pequeno brotinho de: “a escola tem que ser diferente”. Ainda que isso palpitasse eu não tinha a menor vontade de voltar pra escola. Fui fazer cinema. Em uma das primeiras aulas devíamos nos apresentar falando de nossa motivação para estar ali, respondi: acredito que a arte educa, transforma a sociedade, por isso quero fazer cinema.

Quando decidi pela pedagogia já tinha certa obsessão com a escola. Fazia pesquisas, descobria autores e livros sobre educação libertária. Além de ser cadeira cativa nas palestras do José Pacheco em Porto Alegre. Revirava tudo que tivesse sobre Escola da Ponte e ficava espantada que quase ninguém na faculdade soubesse algo sobre o assunto. Seguia investigando novas abordagens educacionais pelo mundo. Acreditava que a faculdade de Pedagogia era o lugar em que mais se pensaria sobre uma nova educação. Mas, não foi bem como minha mente viajante e sonhadora imaginou.

Às vezes me bate quase um arrependimento. Fico com a sensação de que estava tão cega com uma ideia que não pude ver o quanto estava fora de lugar. Foram quase 12 anos entre experiências de estágio e depois como professora. Não rolou. Não deu pé pra mim. Me tornei raivosa. Virei uma metralhadora tentando acertar um alvo muito pequeno. Tentei escola pública, ensino fundamental, educação infantil, escola mais tradicional, escola mais alternativa. Foi em 2017, na formação da Cidade Escola Ayni que uma super ficha caiu. Se isso não é problema para os outros, porque mesmo eu estou gastando tanta energia?

Tentei me focar na ideia de que podia “fazer a diferença” com minha atuação individual. Mas eu não acreditava naquilo e cada vez que precisava justificar minhas discordâncias, contextualizar a complexidade do que me irritava, do que me entristecia, sentia que minha energia ia se esgotando. Se tornou comum ouvir o famoso “quem ama a profissão…” para encerrar o debate. Afinal quem amava mesmo a educação tinha que conseguir dar conta.

Ainda me dói quando os educadores sentem que criticar a escola é criticá-los diretamente. Para mim é um paradoxo. A grande parte deles está sofrendo! Doente, estressado, depressivo, ganhando pouco, sofrendo pressões físicas, psíquicas, sociais, institucionais e tantas outras. A ideia de “treinar o professor” em novos métodos é uma lástima. Inovação na educação não deveria ser sobre conferir mais peso aos professores, mas sobre transformar a instituição escolar na sua organização espacial e temporal. Nos diferentes locais em que trabalhei esse ponto acaba sendo o mais frágil. Quando se pensa em mudar a escola é mais para os alunos do que para os educadores. A suposta mudança acaba envolvendo horas de trabalho extraclasse não remunerado, acaba sendo sobre o professor dar conta de mil novas ferramentas, plataformas, pirotecnias enquanto ele segue dentro de uma sala de aula com 30-40 crianças.

Hoje falo do lugar de alguém que não está mais comprometida com a escola mas que vai seguir amando, estudando e se perguntando sobre educação.

É realmente dentro de uma sala de aula com 30 crianças da mesma idade, trocando de caderno ou de livro didático a cada x tempo para dar conta de x matéria, copiando coisas do quadro, infurnados por horas, saindo sem direção por 20 minutos de recreio que estamos construindo o FUNDAMENTAL? Realmente é isso o que temos de mais rico para oferecer como sociedade? Somos incapazes de criar outras formas? Quando ouvimos os terraplanistas, os antivacina, os neonazistas e fascistas esquecemos que eles frequentaram essa escola? Deletamos o fato de que estamos imersos em um sistema que nos deseja desde cedo consumidores e para isso precisamos aprender a seguir a manada? Deletar os desejos pessoais, os impulsos subjetivos da alma, para que sejamos mais facilmente contornáveis. Afinal quem desconecta-se do próprio querer acaba seguindo o protocolo sem pestanejar. Como achamos possível determinar – em 2020! – os conteúdos que uma criança de seis anos vai precisar aprender para a tal vida depois da escola? Será que temos ideia do que será o mundo em 2030? Alguém foi capaz de prever o que estamos vivendo agora?

Sim, educação segue mexendo comigo. Fazia tempo que não me permitia escrever ou pensar sobre esse tema. Sei o quanto minha fala pode ser desconfortável nesse assunto. Hoje reconheço que foi muito tempo jogando a culpa lá fora. Achando que o fato de não ser feliz no trabalho era por que ninguém queria fazer o que eu achava que deviam fazer. Meu ego se debateu, foi difícil aceitar que tanta energia empenhada tinha sido posta fora. Fiquei em paz quando percebi que escola e educação eram coisas diferentes. Que trabalhar com uma não quer dizer trabalhar com a outra, e vice-versa.  Fui vendo ao longo desses 9 anos um número cada vez maior de jeitos de fazer educação. Entendi que o processo acontecia muito além dos meus desejos pessoais ou dos lugares que eu ocupava.  

Escrevi esse texto mais para mim do que qualquer coisa. Acho que foi para tirar tudo do sistema. Concluo e releio sentindo um pouco como é vazio. Mas assim é, deixo que esse sentimento se vá então. Já vai tarde essa minha guerra com a escola.