TEMPO

Hoje acordei apaixonada. Borboletas no estômago. Meu marido, que sempre acorda muito cedo, ficou dormindo. Eu saí furtivamente do quarto. Peguei um café e fui para o computador. A manhã silenciosa começando. Uma leve neblina no ar. “Serração baixa sol que racha” dizia minha nona. Vai fazer calor hoje, isso é certo. Meu coração está sossegado. Sentada cedo no meu computador para escrever, quero o que mais da vida? Repito em oração para o universo quero sempre e mais disso. Manda que eu pego. Duas horas depois o marido me chama para um café. Coloca Ray Charles para tocar. Domingo completaremos treze anos juntos.

O tempo é um ente com muitas capas. É como está lá fora. É quanto já se foi…quanto ainda vai ser. É agora e nunca mais. Um suspiro, um vazio. Intangível, vagaroso, quente, rápido, molhado. Uma música que coreografamos no mesmo instante. Que passa ou ultrapassa ou só está aqui. “É um senhor tão bonito”. Posso te olhar pra sempre e te ver toda vez um outro, te descobrir. Não mudaria um passo sequer, nenhum segundo. E não quero fastforward. Me deixa bem aqui. “Temos todo tempo do mundo”.

Admiro a forma simples, direta, com que meu sogro fala sobre o tempo. “”É…o tempo, agora a gente tá aqui…e quando a gente não tiver? Como que vai ser? Que bom que agora a gente pode estar aqui, não é?” Seu Paulo, quando diz de alguém que está equivocado, ou que se repete nos erros, na vida, costuma dizer: é novo ainda, um dia ele aprende, tem que ter paciência. Fato é que muitas vezes estamos a falar de alguém que tem mais de cinquenta. Às vezes falamos de nós mesmos. Pena que vocês não podem ouvir o jeito com ele pronuncia essa frase. Seu Paulo tem um jeito muito próprio de dizer as coisas. É um tipo de sabedoria crua e pulsante. Muitas vezes falo para mim mesma, tentando me convencer dessa paciência incólume: tudo bem, é novinha ainda, um dia ela aprende. Me digo em terceira pessoa para trazer-me maior entendimento. Eu acho.

Dizemos que são outros tempos, que no meu tempo era bom. Estou aqui a escrever para tentar paralisar esse tempo, esse agora. Que eu não me esqueça das escolhas que fiz, que eu esteja consciente de cada uma, porque tenho olhado a vida e me agradecido por estar desperta. Os incêndios, as corrupções, o dinheiro que é dado com facilidade ou guardado à sete chaves, as mesmas instituições ainda e sempre se repetindo, os olhares que se perdem no chão do elevador e nunca se cruzam. A invasão zumbi já começou. Mas há um universo paralelo, um tempo que corre devagar pelos jardins, nas bicicletas, nos beijos na boca, na observação das nuvens. Não corro mais contra o tempo, ele vem me abraça e eu tento tocar cada suspiro seu. E cada tecla que toco, cada letra que surge, palavras combinando-se, páginas que se formam, são histórias e eu só te quero, mais e mais.