Projeto de Vida

Recentemente recebi dois convites para falar com jovens de Ensino Médio. Um deles é a trabalho e o enfoque é criatividade e escolha profissional. O outro veio da irmã mais nova de uma amiga, participante do Projeto Voar desenvolvido pelo Sebrae junto à Seduc-RS. Ela precisava escolher um “passageiro inspirador”, alguém para falar da sua história pessoal.

Preciso dizer que falar com jovens é algo muito novo (e um tanto assustador) para mim, iniciou em 2019 sem meu controle e tem se intensificado. Assustador porque minha adolescência foi meio embaralhada e as faixas etárias difíceis na nossa história pessoal sempre acabam sendo mais complexas de enfrentar na vida real.

Felizmente, esses convites me fazem pensar. O próprio medo e a sabotadora interior me fazem refletir. O que eu teria de relevante pra dizer? O que minha trajetória pode ter de significativo, de inspirador?  Meu currículo é uma “bagunça”. Minha trajetória não é nem acadêmica, nem carreira em empresa, nem encabeçando grandes empreendimentos. Muitas vezes eu me sinto envergonhada de não ter uma lista de títulos e grandes feitos para legitimarem minha caminhada. Não sou o tipo de pessoa que preenche o estereótipo de “bem sucedida”. A decisão de me nomear escritora foi feita com muito esforço e de propósito pra confrontar o predador da psique – publicou um livrinho de criança e quer se chamar de escritora! Fez um cursinho lá e cá e acha que sabe o que tá fazendo! Hahahahaha.

Já li a biografia de alguns escritores. Em mais de uma aparece o sonho, o desejo de um dia ser escritora profissional. Tentei lembrar se em algum momento da infância tive esse desejo. Gosto de mexer nas minhas velharias. Nos fósseis da vida. Achei uns cadernos de 1996, tinha 10 anos. Um deles, tem – vejam só – uma atividade intitulada “PROJETO DE VIDA PESSOAL”. Segue-se uma garrancheira braba, datada de 8 de agosto de 1996, que diz:

Profissão: bailarina ou trabalhar num grupo teatral

Escola: vou estudar no Pallotti, mas a faculdade não. Vou pra Itália e Paris fazer cursos.

Família: logo que me casar, antes de fazer os cursos, eu irei morar em Porto Seguro, uns tempos, pretendo também ser professora de Ballet, montarei uma escola lá. Até que depois irei morar em Paris num apartamento grande para poder fazer meus cursos.

Sorrio tentando lembrar o que seriam esses “cursos” que eu tanto queria fazer. Em outros textos nos cadernos falo que passei para sapatilha de ponta, invento histórias em que viajo e danço por várias cidades. De outros anos não encontro nada tão bem descrito, mas lembro de fazer aulas de teclado e imaginar que estava em um teatro antigo na Inglaterra, tocando piano enquanto alguém tocava violino ao meu lado e o público emocionava-se com nossa música. Também aconteceu de estar a caminho do litoral e me imaginar morando em uma daquelas fazendas na beira da estrada, produzindo pães e geleias em uma grande cozinha dentro de um chalé de madeira com a lareira acesa. Quando frequentei aulas de esgrima me enxerguei nas Olimpíadas, com medalhas no pescoço. Um pouco mais velha pensava em ser veterinária, agrônoma, zootecnista e me via cavalgando rapidamente para atender um animal ferido, doente ou parindo.

Nada disso faz currículo, nada disso vai pro Lattes, muita gente diria até que fui mal sucedida nos meus projetos, que não tive foco pra atingir meus objetivos, que eu queria tudo e acabei não atingindo o ápice de nada. Ah! Como adoramos falar sobre chegar no topo. Nem sabemos bem que montanha estamos subindo mas temos que chegar lá em cima. Nunca apareceu “escritora” em nenhum desses meus sonhos. Me dou conta do porquê. Eu já era escritora. Todo o tempo eu contava histórias. Via o mundo assim, narrando, viajando na maionese, fantasiando, brincando com a realidade. Mora em mim a bailarina de Paris, a moça que faz pães e geleias, a que trata animais, a esgrimista, a cineasta, a educadora e cada uma me conta histórias, me leva em viagens, desperta sensações, sentimentos.  

Acho que minha alma fez bem em esconder a escritora de mim por um tempo. Protegeu meu self porque, se eu tivesse visto antes, teria transformado ela em alvo pra ser atingido. Teria feito como tantas outras coisas – agarrado em desespero e apertado tão forte com medo de perdê-la que teria consumido até a última brasinha de calor.

Pode ser que nunca mais me chamem para falar com jovens, mas meu coração vai dizer à eles que explodam-se as metas. Há lugares em que nunca chegamos. Não há para onde ir, nem objetivos e planos para agarrar, porque já somos. Mas como a gente sabe o que já é? Aaaa, bom! Se existisse essa resposta, todo mundo já tinha se iluminado e virado purpurina!

Eeeeee, dizer que já sou escritora não significa, nem de longe, que já estou pronta. Que já faço isso muito bem. Que agora basta eu sentar e deixar a vida fazer o resto. Naaadaaaa! Só que isso é papo para outro texto.

Adeus escola

Quinta-feira passada completei 9 anos de formada em Pedagogia. Teria passado em branco não fossem as amigas que carrego desse tempo. Ontem passei em frente ao antigo Instituto Vicente Pallotti, escola que frequentei durante o Ensino Fundamental, e me impactei com as novas estruturas físicas. A pouca vegetação de antes, agora se foi totalmente.

Nunca desejei ser professora. Sabe aquelas crianças que brincavam de escolinha, davam aula para as bonecas? Não era eu. Comecei a frequentar a Educação Infantil com três anos. Adorava a “creche”. Quando comecei a primeira série tinha muita saudade mas me adaptei. Foi lá pela 3º série que as coisas mudaram. A professora só chamava alguns alunos para participar e eu virei a “que não sabe ficar quieta”. Na 5º série tivemos muitas trocas de professor de Geografia. Certa vez disse à um deles que precisávamos de aulas diferentes, de VER as coisas da geografia, de ir pra rua! No Ensino Médio virou raiva mesmo. Cada dia a escola me trazia a sensação de que perdia tempo de vida. Que estava presa ali esperando a liberdade. Nessa época vi um Globo Repórter sobre “Summerhill”. Nunca fiquei tão vidrada no programa, admirada que pudesse existir outro jeito de ser escola. Ali começou a crescer um pequeno brotinho de: “a escola tem que ser diferente”. Ainda que isso palpitasse eu não tinha a menor vontade de voltar pra escola. Fui fazer cinema. Em uma das primeiras aulas devíamos nos apresentar falando de nossa motivação para estar ali, respondi: acredito que a arte educa, transforma a sociedade, por isso quero fazer cinema.

Quando decidi pela pedagogia já tinha certa obsessão com a escola. Fazia pesquisas, descobria autores e livros sobre educação libertária. Além de ser cadeira cativa nas palestras do José Pacheco em Porto Alegre. Revirava tudo que tivesse sobre Escola da Ponte e ficava espantada que quase ninguém na faculdade soubesse algo sobre o assunto. Seguia investigando novas abordagens educacionais pelo mundo. Acreditava que a faculdade de Pedagogia era o lugar em que mais se pensaria sobre uma nova educação. Mas, não foi bem como minha mente viajante e sonhadora imaginou.

Às vezes me bate quase um arrependimento. Fico com a sensação de que estava tão cega com uma ideia que não pude ver o quanto estava fora de lugar. Foram quase 12 anos entre experiências de estágio e depois como professora. Não rolou. Não deu pé pra mim. Me tornei raivosa. Virei uma metralhadora tentando acertar um alvo muito pequeno. Tentei escola pública, ensino fundamental, educação infantil, escola mais tradicional, escola mais alternativa. Foi em 2017, na formação da Cidade Escola Ayni que uma super ficha caiu. Se isso não é problema para os outros, porque mesmo eu estou gastando tanta energia?

Tentei me focar na ideia de que podia “fazer a diferença” com minha atuação individual. Mas eu não acreditava naquilo e cada vez que precisava justificar minhas discordâncias, contextualizar a complexidade do que me irritava, do que me entristecia, sentia que minha energia ia se esgotando. Se tornou comum ouvir o famoso “quem ama a profissão…” para encerrar o debate. Afinal quem amava mesmo a educação tinha que conseguir dar conta.

Ainda me dói quando os educadores sentem que criticar a escola é criticá-los diretamente. Para mim é um paradoxo. A grande parte deles está sofrendo! Doente, estressado, depressivo, ganhando pouco, sofrendo pressões físicas, psíquicas, sociais, institucionais e tantas outras. A ideia de “treinar o professor” em novos métodos é uma lástima. Inovação na educação não deveria ser sobre conferir mais peso aos professores, mas sobre transformar a instituição escolar na sua organização espacial e temporal. Nos diferentes locais em que trabalhei esse ponto acaba sendo o mais frágil. Quando se pensa em mudar a escola é mais para os alunos do que para os educadores. A suposta mudança acaba envolvendo horas de trabalho extraclasse não remunerado, acaba sendo sobre o professor dar conta de mil novas ferramentas, plataformas, pirotecnias enquanto ele segue dentro de uma sala de aula com 30-40 crianças.

Hoje falo do lugar de alguém que não está mais comprometida com a escola mas que vai seguir amando, estudando e se perguntando sobre educação.

É realmente dentro de uma sala de aula com 30 crianças da mesma idade, trocando de caderno ou de livro didático a cada x tempo para dar conta de x matéria, copiando coisas do quadro, infurnados por horas, saindo sem direção por 20 minutos de recreio que estamos construindo o FUNDAMENTAL? Realmente é isso o que temos de mais rico para oferecer como sociedade? Somos incapazes de criar outras formas? Quando ouvimos os terraplanistas, os antivacina, os neonazistas e fascistas esquecemos que eles frequentaram essa escola? Deletamos o fato de que estamos imersos em um sistema que nos deseja desde cedo consumidores e para isso precisamos aprender a seguir a manada? Deletar os desejos pessoais, os impulsos subjetivos da alma, para que sejamos mais facilmente contornáveis. Afinal quem desconecta-se do próprio querer acaba seguindo o protocolo sem pestanejar. Como achamos possível determinar – em 2020! – os conteúdos que uma criança de seis anos vai precisar aprender para a tal vida depois da escola? Será que temos ideia do que será o mundo em 2030? Alguém foi capaz de prever o que estamos vivendo agora?

Sim, educação segue mexendo comigo. Fazia tempo que não me permitia escrever ou pensar sobre esse tema. Sei o quanto minha fala pode ser desconfortável nesse assunto. Hoje reconheço que foi muito tempo jogando a culpa lá fora. Achando que o fato de não ser feliz no trabalho era por que ninguém queria fazer o que eu achava que deviam fazer. Meu ego se debateu, foi difícil aceitar que tanta energia empenhada tinha sido posta fora. Fiquei em paz quando percebi que escola e educação eram coisas diferentes. Que trabalhar com uma não quer dizer trabalhar com a outra, e vice-versa.  Fui vendo ao longo desses 9 anos um número cada vez maior de jeitos de fazer educação. Entendi que o processo acontecia muito além dos meus desejos pessoais ou dos lugares que eu ocupava.  

Escrevi esse texto mais para mim do que qualquer coisa. Acho que foi para tirar tudo do sistema. Concluo e releio sentindo um pouco como é vazio. Mas assim é, deixo que esse sentimento se vá então. Já vai tarde essa minha guerra com a escola.