MAIS FICÇÃO, POR FAVOR

Vivemos tempos obscuros. Uma das frases que mais tenho visto nas redes. Há uma sensação de desalento, de esgotamento, impotência. Mas ainda são travadas intensas batalhas e me parece que muito das disputas está no campo da verdade.  O que é fato, o que é opinião, o que é real, o que não é. Pessoalmente, não acredito que seja possível descobrir, encontrar, a verdade ou, ainda, aS verdadeS. Nesses nossos dias parece haver uma contraposição entre a “verdade da diversidade” e a “verdade da tradição”. Não deixa de ser uma disputa pela verdade, ou pela realidade. Existe algo de fato. Algo que é fato porque eu disse ou algo que é fato porque estudiosos, pensadores, cientistas disseram.

Eu entendo que possa dar um mal-estar esse lugar difuso das impossibilidades, das inverdades, das irrealidades, das incertezas. Mas acho que é justamente por aí que temos que voltar a nos aventurar. Nossos antepassados tinham esse mal-estar mais presente. Eles não sabiam o que havia do outro lado do oceano. Não sabiam o que havia para além da Lua e do Sol. Quantas fantasias e explicações criaram para tentar entender! De repente – como costumam fazer os pais e mães – não quiseram nos deixar nessa mesma angústia. Nos ensinaram, nos explicaram cada dia mais sobre tudo que foram descobrindo. Fomos destrinchando a vida e construindo a realidade e nos esforçando para transmitir cada resposta, cada minúcia, nome de planta, fórmula matemática, formação rochosa, organização política, guerras, zoologia, ciclo da água, etc, etc, etc. Ai do mal-estar do não-saber.  Nós próprios, em um bate-papo qualquer, quando surge essa zona obscura do não sei não corremos para o celular? É divertido, sim, eu também faço muitas vezes. Mas e aquele suspiro de meio minuto tentando imaginar uma explicação, morreu?

Penso que nos mergulhamos – ao longo dos últimos quinze anos mais ou menos – cada vez mais profundamente em uma tal realidade que nos barbariza. Fomos noticiados, jornalizados, documentados. Dia e noite a televisão nos mostra a realidade. Crime, doença, morte, acidente, devastação. Parece letra do Arnaldo Antunes. Peste bubônica, câncer, pneumonia. Raiva, rubéola, tuberculose, anemia. E o pulso ainda pulsa. Vamos vivendo, mas nossa mente não foi formatada pra encarar cada faceta mais terrível da vida, dia após dia, sem intervalo, sem refresco. Chegou a internet. Estamos libertos dos ditames da grande mídia! Mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Na minha adolescência o que mais circulava na rede e mais mobilizava a galera eram imagens de gente morta. Crimes ou acidentes famosos na tv, encontravam no www a liberdade de mostrar-se sem tapar as vergonhas. Demasiada realidade. Não há quem suporte.

Tenho uma frase do Tolkien aqui na minha mesa: É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela. Parece que chegamos em um tempo onde nos preocupamos demasiadamente em tornar tudo reconhecível, só que esquecemos que é necessário também se transportar, momentaneamente, para fora do real. Isso é humano, fantasiar é humanizar-se também. Contamos histórias desde que desenvolvemos os rudimentos da comunicação. Precisávamos dizer das coisas fantásticas que víamos aos que não puderam acompanhar a caçada. Precisávamos contar sobre os seres que viviam no fundo do mar, sobre os mitos escondidos nas florestas, os seres que criavam o arco-íris, a tempestade. Para que a realidade possível fizesse um pouco mais de sentido ou doesse um pouco menos. Precisamos, ainda, falar do que se passa dentro de nós, dos nossos sonhos, ou então de um mundo paralelo todo possível na nossa mente. Isso nos dá sobrevida, nos faz respirar mais um pouco, nos transporta para outra dimensão, nos faz sentir a pele do outro, o pensar do outro e, ao mesmo tempo, nos conectar com nós mesmos.

Na ficção qualquer coisa pode ser real, pode ser verdade. Mas é no campo da ficção. Quando voltamos para a realidade, tantas vezes dolorosa, sabemos que não tem varinha mágica por aqui. A gente não é bobo. Até as crianças pequenas sabem que a cama tem que ser arrumada de verdade, mas também sabem que é infinitamente mais divertido fazer de conta que tem um poder mágico que faz os lençóis voarem sozinhos. Quando retornamos do lado de lá – onde a imaginação impera – estamos com os pés muito mais no chão, principalmente porque nosso coração pôde suspirar aliviado ao sair pra dar uma volta. Não sei bem quem nos convenceu que ficar no mundo da Lua faria a pessoa se desconectar. Nos desconectamos da realidade quando ela é demais. Nos desumanizamos para poder sobreviver ao excesso de barbárie e, normalmente, acabamos por criar mais barbárie porque a banalizamos.

Quando não há mais lugar para a ficção, o campo da verdade e da fantasia embaça e tudo vira uma massa disforme. Acabamos por ter essa sensação de que estamos em um filme. Ouvimos certas falas, ou vemos certas atitudes e pensamos: não pode ser que a pessoa esteja dizendo/fazendo isso, não é real. Ao mesmo tempo qualquer invenção da mente, do desejo, da vontade se torna real: Eu vi um vídeo no Youtube, o cara falou: a terra é plana. É verdade. A gente tem um afã de correr e mostrar todas as descobertas da ciência, as comprovações, as evidências. Mas não se trata disso. Não se trata de disputar o campo da verdade ou da realidade porque, nesse momento, não é mais possível reconhecer as bordas desse campo. Não há, de novo, fronteiras entre o que é ficção e o que é real.

Percebem como nos últimos dez anos a indústria do blockbuster no cinema entrou em um redemoinho de refilmagens? Hollywood tem retornado aos seus arquivos para buscar novidades? Para reapresentar ao mundo histórias que já foram contadas? Por um lado, é um bom sinal, fazemos o que for possível para continuar contando histórias, mas também nos mostra como tem sido difícil criar do ponto zero. A literatura amadora, o Wattpad, com muita produção adolescente está repleto das tais Fanfic’s. Ficção de fã. Costumeiramente os mais jovens pegam os personagens que amam e continuam a escrever a história. Cria-se um pouco, claro, mas eu sinto como se estivéssemos engessados, enferrujados para o mundo das invenções.

Há, nesse caldeirão da vida, sem dúvida, espaços onde a ficção parece ser mais celebrada. Netflix tem gerado muito conteúdo bom, com qualidade narrativa e estética. As lojas de ebook tem trazido escritores iniciantes à tona com mais facilidade do que nunca. Sim, é mais fácil hoje encontrar material sobre criatividade, criação, etc. Mas sinto que precisamos com urgência nos medicar com ficção e mais do que tudo, reestabelecer o lugar do mágico. Vamos parar de temer o mundo da fantasia. Vamos deixar de nos sobrecarregar com excesso de realidade dia e noite. Precisamos da fantasia. Sim, mais do que nunca precisamos ficar no mundo da Lua. Precisamos escrever e ler muita ficção. Precisamos reconhecer novamente essa fronteira. Atravessar para o lado de lá e voltar para olhar o mundo. Reconhecer as diferenças entre evidência e fantasia, entre desejo e convivência pacífica. Precisamos sair do quadrado da verdade, pegar a mala e entrar pelo túnel do terror, da vontade de matar alguém e quem sabe matar mesmo, do amor adolescente não correspondido, da viagem espacial com todos os seres inimagináveis que viram amigos, das dores sofridas por um estranho das quais eu nunca teria conhecimento na minha vida real e ao final da viagem fazer o caminho de volta. Olhar para nossa vida com todas essas experiências irreais na bagagem, toda essa fantasia partilhada por telepatia – como diria Sthephen King. Aí, quem sabe, possamos nos despojar um pouco de nossas certezas, nossos absolutismos da razão, respirar, e tentar fazer a realidade um pouco mais reconhecível.