O que incomoda quando olhamos para a infância?

Recentemente – como tem sido praxe na internet dos nossos tempos – houve uma grande mobilização e polêmica em torno de vídeo com crianças em festa de aniversário.

Lembrei-me, naquele momento, de um texto que escrevi no verão de 2019. Fui atrás dele. Quero partilhar com vocês porque algumas reflexões que reencontrei ali fazem sentido ainda. Mas, antes, deixe-me explicar de onde vem meu olhar.

Trabalhei quase dez anos diariamente com crianças pequenas. O que mais busquei nesse tempo foi a capacidade de observar e intervir o menos possível – Ah, e bater papo com os pequenos! Que eu adoro até hoje. Conviver com crianças pequenas, se estivermos dispostos e cientes do possível desconforto, é poesia e filosofia em forma bruta. Conseguir ouvir, acolher e vivenciar suas percepções, movimentos, desejos é de uma riqueza que, acredito, nenhuma experiência no mundo te dá. Mas, exige um enorme deslocamento. Estar de fato com uma criança demanda sairmos do nosso lugar, jeito de ver, de pensar, e abrir-se.

Voltar pra infância pode doer. Eu sei, agora todo mundo fica falando da tal criança interior e se já temos alguma resistência, dessensibilizamos para o assunto. Olhar a infância incomoda porque dói. “Mas eu tive uma ótima infância, eu não tenho traumas”. Não falo de infância destruída. A dureza disso não consigo mensurar. A questão é que há um inevitável confronto entre o mundo visto da perspectiva da criança e o mundo factual em que nós vivemos. As coisas que machucam, frustram, desconfortam uma criança nós não lembramos mais. Normalmente está no tipo de coisa à que os adultos respondem: “mas que bobagem!” ou “não foi nada!”. Para a criança, via de regra, é algo bem significativo. E pode ser que seja para ela e não para outra criança. O incrível livro “Quando eu voltar a ser criança” de Janusz Korczak consegue nos carregar de volta à essas perspectivas que já perdemos.

Crescer dói. Fomos bebês, estivemos entregues ao que bem fizessem com a gente. Fomos bem pequenos, não deu pra fazer tudo que desejávamos. Podia ser “bobo” como não poder dormir na casa de uma amiga, ter feito xixi na calça, apagar uma vela. Costumamos partir da ideia de que o “trauma” fica porque os adultos não souberam intervir. Sim, falamos isso porque, infelizmente, são gerações carregando diversas “bagunças emocionais”. Mas, o que eu quero dizer aqui é que pode até ser que uma criança conviva apenas com adultos equilibrados. Isso não a deixa imune a frustrações! Pelo simples fato de que, a dimensão daquele evento para ela, a maneira com que ela sentiu, ouviu, percebeu o que aconteceu e as intervenções posteriores nós não conseguimos dominar.

Por isso, o convite que as crianças nos fazem – apenas por serem crianças – é tão enriquecedor. Porque elas tem “o mapa da mina” mesmo sem saberem. Elas vão nos levar onde dói apenas por estarmos com elas. Sem dúvida são conteúdos inconscientes, porque na consciência já aprendemos a nomear como bobagem e “minha infância foi ótima”. O livro “O Drama da Criança Bem-dotada” da Alice Miller pode ajudar a entender melhor isso.

Daí a infância ser tão incômoda. Porque é capaz de trazer à tona nossas sombras mais bem guardadas. Reagimos das mais diferentes maneiras. Tá tudo certo sentir raiva de uma criança pequena. Tá errado despejar a raiva em cima dela. Mas tá tudo certo com os nossos sentimentos, todos que aparecem quando estamos com uma criança. Até mesmo a negação de todos eles e a pressa em “civilizar os pequenos selvagens”. O incômodo é sermos capazes de não apontar o dedo para a infância. De nos darmos conta que ali residem indivíduos muito além de nossas dores e projeções. Seres sem responsabilidade alguma com nossas frustrações, temores e vontade de controlar. Indivíduos vivenciando um longo e complexo desenvolvimento biológico, psíquico, social e por aí vai.

Dia desses compartilhei uma frase que dizia que olhar para a infância era revolucionário. De fato, acredito que, no dia em que as crianças estiverem em paz a humanidade caminhará numa direção totalmente nova.

Amanhã compartilho o texto que escrevi no verão de 2019, a partir de uma cena observada na beira da praia.

Obs: a foto destacada nesse post mostra parte das crianças que frequentavam minha primeira creche. Uma delas eu tenho muito clara na memória. Ela me empurrou do escorregador quando eu estava sentada lá em cima. Rolei até chegar esborrachada no chão. Lembro de ir chorando até as professoras e elas dizerem “não foi nada”. Lembro que não doía tanto fisicamente. Mas sim, a raiva que eu sentia. Eu era bem menor do que a menina. Essas são as “pequenas” coisas da infância que ficam. Se eu não acolher essa Bruna pequena, sozinha e com raiva, ela vai aparecer. Quer eu queira, ou não.

Não foi amor à primeira vista

Eu não te amei desde o momento em que vi aparecer os dois risquinhos na fitinha. Eu não tinha certeza. Mas também não te amei quando vi o resultado do teste de sangue. Eu achava que podia estar doente quando fiquei “menstruando” por dez dias. Depois tinha o “saco gestacional com contornos irregulares” e a suposição do médico de que aquele sangramento fosse uma ameaça de aborto. Não dava pra ver embrião ainda. Era só uma bolinha na tela. Eu não te conhecia ainda. Era menino ou menina? Ouvimos teu coração bater enquanto tu parecia um girininho na água. Foi intenso. Mas, não era amor.

Tira sangue. Faz exames. Todo mês na obstetra. Tenta parecer que a vida é a mesma de antes. Que tudo acontece normalmente. Que gravidez não é doença. Eu ainda não te amava. Eu era eu. Bruna. Grávida. Tinha alguém crescendo lá dentro. Mas, era tão abstrato. Você ainda era uma imagem na tela. Eu não conversava toda hora contigo na barriga. Eu tinha medo de que não tivéssemos uma conexão. Eu estava fazendo certo? Eu te amava como “deveria”? Eu era uma mãe minimamente normal? Tentei estudar, me preparar, respirar, me exercitar, meditar.

Nos parimos. Tu chegou. Te olhei pela primeira vez e pensei “esse é meu bebê?”. Bebês parecem tão estranhos quando nascem. Já era amor, será? Ficamos internadas separadas. Eu tinha medo de não sentir o que deveria. Será que toda mãe se sente assim? Será que eu estou errada? A primeira vez que fiquei contigo no colo, na unidade neonatal, estávamos eu e teu pai juntos. Senti meu peito aquecido, um calor que expandia para o corpo todo e dava uma paz imensa. Voltamos para o quarto, eu e teu pai juntos, conversando e eu pensava se já te amava do jeito normal.

Quando retornei pra te ver algumas horas depois eu estava sozinha. Te devolvi pra enfermeira e caminhei até a porta como se cada passo meu doesse. Quando a porta se fechou atrás de mim e o corredor do hospital despontou, comprido, na minha frente o coração rachou e as lágrimas correram pelo meu rosto.

Não, eu não te amei assim que soube que estava grávida, nem assim que te vi. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas é tanto que se falava sobre filhos que achava que, no caso desse jeito de amar, poderia acontecer assim de imediato. Não. É no tecer dos dias que o amor se faz. Quem sabe por isso o começo seja tão sofrido para algumas mães. Porque insistimos nessa história de que já existe um amor inexplicável.

Eu repito muito para mim mesma “eu sou só um ser humano. E a Luíza veio para ser filha de seres humanos, ela tá ciente.” Quem crava essa bandeira pesadíssima de carregar de um suposto amor gigantesco e imediato na nossa alma? Lembro quando ouvi, há uns anos atrás, que quem ama incondicionalmente é deus. Que procurar amor incondicional nos outros seres humanos é injusto com eles e inevitavelmente frustrante para nós. As mulheres, como mães então, parecem ter que carregar especialmente esse fardo.  Durante a gestação e puerpério ouvi de dois homens algo assim: é muito diferente pra gente porque tu vai te dando conta só depois que nasce, vocês já tem essa conexão desde a barriga né? Para um deles, que é amigo próximo, disse de coração aberto: Não. Pra mim não foi assim. Amor é construção sim. Pra pai e pra mãe.

Tô dizendo que meu coração não doía de preocupação cada vez que eu deixava a Unidade Neonatal? Que quando a enfermeira veio me avisar que estávamos de alta eu não quis pular e gritar pelos corredores de alegria? Que eu não dava um pulo a cada suspiro teu durante as madrugadas do primeiro mês? Que eu não colocava a mão sobre a tua barriga pra ver se estavas respirando? Ah! Claro que sim! Foi intenso. Foi como ficar andando sobre uma corda bamba no precipício. Mas é amor? Não sei. Preocupação, zelo, responsabilidade, com certeza.

De repente comecei a sentir algo como os apaixonados, que esperam logo ver seu objeto de apreço. Sentia borboletas na barriga cada vez que nos encontrávamos. Me pegava longos minutos olhando uma foto tua, observando teus traços e sorrindo sozinha. Tu me deu teus primeiros sorrisos, teus olhos começaram a cruzar os meus. Fui sentindo tua pele macia. Maciaaaa. Meu deus como é macia! Os cabelinhos começando a despontar na cabeça careca.  Uma vontade de te ter no colo o tempo todo, te acalentar, te fazer dormir.

Não sei quando foi o exato dia, em algum momento te olhei e algo como uma fisgada atravessou meu espírito, expandiu-se aquecendo todo meu corpo e contraiu-se de medo. Senti que não poderia viver sem você. Não sei se isso necessariamente é amor ou apego, ou egoísmo, ou apenas o jeito torto do ser humano amar. Não temos aquele momento, como nos casais, em que transformamos em palavras o amor e aguardamos uma resposta. Não sei se tu me ama. Também não sinto que precisa me amar. Esse amor é meu, eu que me entreguei à ele. Simplesmente te amo. Agora. De um jeito imenso e apavorante, com o medo no encalço.

Te amo porque te conheço, sei dos teus risos banguelas, de teus olhos brilhantes, do toque incerto de tuas mãos pequenas. Não me sinto feliz porque você me fez mãe – esta aí um status que nunca almejei e sequer tenho certeza de que posso desempenhar tal façanha adequadamente – não me sinto em paz porque tu, supostamente, seria tudo na minha vida. Não, eu estou feliz e em paz somente porque amo. Porque tua existência me permite amar mais. Creio que estarei bem se tu não me amar tanto assim, se sentir que não fiz ou não fui o melhor possível. Sobreviverei se eu souber que está bem, que está feliz, que está em paz. E seguirei te amando. Esse amor doido e doído de quem olha, ouve, toca e convive, dia a dia, entregue a outro ser humano e então descobre a flecha, inevitável, atravessada sobre o peito.