É hora de agradecer!

Em Fevereiro a campanha “Compre e Doe Um Encontro Mágico” foi finalizada. Com 38 apoiadores foram vendidos 20 livros e doados outros 42 exemplares, totalizando uma arrecadação de R$1580.

Conforme prometido para todos os apoios realizados, a primeira recompensa a ser “entregue” é a publicação dos agradecimentos. Gostaria de dizer, contudo, que me sinto como a maior recompensada de todas. Ter recebido mais esse apoio de tantas pessoas me enche de alegria e me dá uma grande injeção de ânimo para continuar perseguindo meus sonhos!

Abaixo, a lista dos 36 apoiadores que autorizaram a divulgação de seus nomes:

Alê Calderaro

Alexandre Smith

AnaLu Muñoz

Andréia Rosa da Silva Kurroschi

Ariana Lima

Assisnez de Azevedo Farias

Bruna Corrêa Paz da Silva

Camila Giordani da Rosa

Camila Thomé

Camille Krzyzaniak

Caroline Matei

Celso Wo

Cristiane Pereira Cardoso

Cristine Konat

Cybele Kelm Marques

Eveline Finger

Fabiane Brauner

Fernanda Figueiró

Gabriela Conter Ruiz

Gislaine Zambeli

Janaina Rockenbach Gomes

Juliana Tricot Leal

Karine Storck

Matheus Penafiel

Marina Valente Augusto

Mitiele L de Oliveira

Natália Abrão Cavalheiro

Patrícia Dyonisio De Carvalho

Priscilla Silva da Luz

Renata Zanella

Sosô e Felipe

Talita Silveira Feuser

Tatiana Finato

Romeu Finato

Verônica Christimann Varela

Vinicius da Silva Rodrigues

Gratidão, gratidão, gratidão!

Em breve, mais notícias sobre a escola selecionada para receber os livros. Acreditamos que no segundo semestre desse ano, seja possível fazer a entrega e os autógrafos.

Um Encontro Mágico

Meu primeiro livro infantil, publicado em 2019 pela Lurinha Editorial, está em campanha no catarse!

Lançado em Outubro de 2019, já vendeu 140 cópias

Agora quero que o livro chegue mais longe! Nas mãos de crianças que dificilmente teriam acesso.

Minha inspiração foi o Projeto Despertar criado pela TAG Experiências Literárias. Nos anos de 2017, 2018 e 2019 eles doaram caixinhas com livros e mimos para crianças de diversas ONGs pelo Brasil todo.

Minha campanha COMPRE E DOE UM ENCONTRO MÁGICO funciona da seguinte forma.

Você escolhe entre três valores para apoiar:

R$10 – Seu nome aparece nos agradecimentos a serem postados aqui no blog e no meu instagram. Esse valor ajuda a custear os fretes e o deslocamento para as instituições contempladas.

R$20 – UM livro é doado para uma criança.

R$40 – UM livro é doado para uma criança e UM livro é enviado para sua casa com frente incluso.

Meu livro custou R$14 cada um para ser produzido e impresso. Aqui no site ele era vendido por R$33 com frete incluso. Por isso, os valores da campanha estão super acessíveis.

Ao final da campanha os apoiadores indicarão sua escola ou instituição para receber os livros.

No 2º semestre de 2021 farei a entrega no local, com autógrafos e bate-papo com as crianças!

Na página do Catarse você pode encontrar mais informações e o vídeo mostrando alguns trechos do livro.

Eu acredito que a literatura é capaz de transformar nossa vida. Um livro é um mundo e a leitura nos humaniza, nos inclui, nos acolhe, nos permite suspender um pouco a realidade às vezes tão difícil.

Levar um livro para as mãos de cada criança é uma conquista imensa e transformadora!

Vem comigo nessa?

Clica na imagem pra ir direto para a página da campanha que abrirá em uma nova aba

Vá achar sua turma (e você mesma!)

com pitadas de Clarissa Pinkola Estés

Neste meu ano de 2019 tenho falado muito pouco. Para quem falava por mais de quatro horas seguidas, diariamente, pode-se dizer que hoje vivo em silêncio. Para quem estava em meio à, pelo menos, vinte e cinco seres humanos, hoje vivo sozinha. Traz uma imensa paz e muito autoconhecimento. Sinto que nos meus últimos quinze anos de vida preparei-me, sem saber, para esse momento. Não suportaria essa introjeção em outras épocas.

Passei uma boa parte da vida preocupada que os outros compreendessem o que eu compreendia. Falava e falava e falava. Muito! Queria convencê-los. Despendia uma energia colossal em explicar. E explicava e explicava. Já adolescente ouvi listas dos meus defeitos, de todos os lados alguém sabia mais sobre mim, o que eu devia ou não ser e fazer do que eu mesma. Eu tinha uma necessidade sufocante de me comunicar. Precisava falar, precisava colocar para fora o mundo que residia dentro da minha mente. Ouvi ainda e por muito tempo o quanto eu era inconveniente, percebia os olhares, os comentários, como se inevitavelmente minhas palavras ferissem as pessoas, como se eu fosse algo temível ou odiável. “Por que ela não consegue ficar quieta?” Eu não tinha a escrita naquele momento. Na verdade, eu a tinha, mas cada tentativa de transpor para o papel era um sufoco. Achava tudo horrível, pensava que os livros que eu lia tinham saído da mente da autora ou do autor exatamente daquele jeito e eu não era genial como eles, eu não era perfeita como pensava que eles eram, então não estava autorizada a escrever.

Gradualmente fui me culpando, aprendi a odiar quem eu era. Dizia na terapia, no início da vida adulta, que eu queria poder não falar mais, que eu queria ser outra pessoa. Me esforcei tantas vezes para isso, em rodas de conversa ficava em silêncio e acabava ouvindo: “não vai dizer nada Bruna? Vai lá, tu sempre fala!”. Não conseguia compreender e sentia ainda mais raiva. Carreguei por muito tempo dentro de mim a triste ideia de tentar encaixar-me. Sim, apesar da rebeldia e da raiva eu queria o que todo ser humano quer: encontrar minha turma, uma mínima torcida, como diz a Clarissa.

O que fiz ao longo do caminho foi tentar, sozinha, achar as ferramentas para dar conta disso. Tentei articular o que queriam de mim com o que eu achava que eu queria de mim mesma. Fui virando um Frankenstein. Já tinha perdido os instintos, não sabia mais farejar os perigos. Me perdi da minha essência. Não entendia por que minhas falas eram tão odiosas, não entendia por que eu deveria falar menos, ser menos, incomodar menos. Foi duramente que aprendi que tentar ser outra coisa, sendo ainda – e inevitavelmente – quem se é, traz um resultado tenebroso. Além da mente colapsar, nos tornamos um arremedo de gente. Tentamos agradar um pouco aqui, nos impor um pouco ali. Quando tentava ser suave acabava sendo dura, quando precisava ser mais dura era suave demais. Quando o silêncio seria uma resposta melhor, eu falava, e vice-versa.

(…) digamos que nesse ponto o patinho passa pela mesma experiência pela qual passaram milhares de mulheres “exiladas” – aquela de uma incompatibilidade básica com pessoas diferentes, que não é culpa de ninguém, apesar de que a maioria das mulheres, num excesso de amabilidade, assumam o fato como se fosse sua culpa exclusiva. Quando isso acontece, vemos mulheres que estão sempre dispostas a pedir desculpas pelo espaço que ocupam. Vemos mulheres com medo de dizer simplesmente, “não, obrigada”, e ir embora. Vemos mulheres dando ouvidos a alguém que lhes repete insistentemente que elas são teimosas, sem compreender que os gatos não nadam e que as galinhas não mergulham.

(Estés, 1994, pg. 235)

Na jornada fui descobrindo que quando passamos pelos desmontes psíquicos da infância – que os adultos por ignorância, inconsciência, executam – torna-se cada vez mais complexo reencontrar-se consigo mesmo. Muitas vezes o trabalho é tão bem feito que nos vemos em pânico ao tentar esse contato com nossa essência. No meu caso, foi um trabalho árduo e triste me tornar o que me tornei e sendo tão custoso não queria sair novamente do isolamento e descobrir sabe-se lá com o quê depois da curva. O patinho feio nem se reconhece cisne na primeira vez que olha seu reflexo no lago. No entanto, a eterna sensação de não se encaixar, de não pertencer é devastadora e te faz seguir tateando, meio às cegas, à procura de alguma coisa que te preencha.

Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. (…) É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. (…) Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.

(Estés, 1994, pg. 234)

Essas citações aí em cima são da Clarissa Pinkola Estés em “Mulheres que correm com os lobos”. Todas no capítulo seis “A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma benção” em que ela analisa o conto “O patinho feio” que reli recentemente, fazendo despencar mais um bocado de fichas. Ela diz que essa foi “uma das poucas histórias a incentivar sucessivas gerações de gente diferente a aguentar até encontrar sua turma”. Lembro-me do primeiro contato que tive com o livro, sentia que ali havia algo muito importante, alguma espécie de mistério ou ensinamento profundo, mas não conseguia seguir na leitura. Era difícil e nem sei bem por quê. Levei anos para avançar nas páginas. Ele ainda é meu livro de cabeceira, porque há camadas e camadas de aprendizados . Cada vez que retomo, descubro mais um segredo.

Quando revisito minha época de escola tenho vontade de ir lá me buscar. Tagarela, inquieta, oferecida, vagabunda. Sim, quanto mais crescemos mais forte o machado da cultura vem pra te derrubar. Quem você pensa que é? Não faz muito me caiu mais essa ficha. Se eu fosse menino, me adjetivariam como? Perspicaz? Eloquente? Gênio forte? Sim, é sério. Eu nunca tinha me dado conta (tão bem a cultura faz seu serviço) de que boa parte da inconveniência do meu ser se deve ao fato de ser mulher. Já fazia algum tempo que eu tinha a Clarissa de companheira e sorri pra ela na minha cabeceira, lembrando que já havia lido isso, mas ainda não estava pronta pra entender.

As condições culturais mais destrutivas para o nascimento e a vida de uma mulher são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, aquelas sem carinhosos rituais de absolvição, aquelas que forçam a mulher a escolher entre a alma e a sociedade, aquelas nas quais a compaixão é segregada pelas classes econômicas ou por castas, em que o corpo é visto como algo que precisa ser “purificado” ou como um santuário a ser regulamentado por decreto, nas quais o novo, o incomum ou o diferente não geram prazer, nas quais a curiosidade e a criatividade são punidas e censuradas em vez de recompensadas, ou recompensadas apenas quando não se é mulher, nas quais são perpetrados contra o corpo atos dolorosos que são chamados de sagrados, ou nas quais a mulher é castigada, como diz Alice Miller sucintamente, “para seu próprio bem”, nas quais a alma não é reconhecida como um ser por seus próprios méritos.

(Estés, 1994, pg. 222)
Anna Pavlova, bailarina russa, com seu cisne de estimação, Jack.

Nesses golpes de insights penetrantes, a gente tem momentos de se perguntar: mas porque diabos eu fui por aquele caminho. Aprendi que não importa. As decisões que tomei eram as possíveis naquele estado de consciência. Não podiam ter sido melhores pois me trouxeram até aqui. Eu construí esse lugar que ocupo hoje. Estar consciente é para os corajosos! Quanto mais aguçada a intuição mais e mais profundamente viajamos, para dentro de si e para o mundo. E lá, na verdade, não encontramos muita coisa. Nada muito exato. Vamos achando esses pedaços, reflexos, borrões. Não tem receita. E olha que eu procurei! Até quando li a Clarissa pela primeira vez achava que poderia encontrar ali a revelação de todos os mistérios. Por um bom tempo eu procurei o grande segredo, o livro que revelaria tudo, o tratamento que me ajudaria de uma hora pra outra.

Quem sabe esse tenha sido um dos principais insights que tive na vida. Não seria o floral, a acupuntura, o reiki, o passe, a palestra, Osho, Estés, Dalke, Morin, ballet, corrida, Kardec, Jesus, Gandhi, aquarela, meditação, japamala, constelação familiar…que me transportariam para o paraíso. Para onde enfim, eu teria paz. Seria tão somente a eterna busca. A medida exata de uma gota para cada possibilidade de ver. Quem sabe por isso eu me pegue perdendo as palavras, preciso reaprender a falar. Não sei mais dizer grandes verdades, perdi a capacidade de abarcar todas as respostas. Tentaram me ensinar a ser pata, mas só conseguiram me fazer não ser cisne. Deixo-me no “não sei”, porque aprendi que sempre há uma outra promessa de encontrar comigo mesma logo adiante, só que agora eu sou capaz de me reconhecer no reflexo do lago.

MAIS FICÇÃO, POR FAVOR

Vivemos tempos obscuros. Uma das frases que mais tenho visto nas redes. Há uma sensação de desalento, de esgotamento, impotência. Mas ainda são travadas intensas batalhas e me parece que muito das disputas está no campo da verdade.  O que é fato, o que é opinião, o que é real, o que não é. Pessoalmente, não acredito que seja possível descobrir, encontrar, a verdade ou, ainda, aS verdadeS. Nesses nossos dias parece haver uma contraposição entre a “verdade da diversidade” e a “verdade da tradição”. Não deixa de ser uma disputa pela verdade, ou pela realidade. Existe algo de fato. Algo que é fato porque eu disse ou algo que é fato porque estudiosos, pensadores, cientistas disseram.

Eu entendo que possa dar um mal-estar esse lugar difuso das impossibilidades, das inverdades, das irrealidades, das incertezas. Mas acho que é justamente por aí que temos que voltar a nos aventurar. Nossos antepassados tinham esse mal-estar mais presente. Eles não sabiam o que havia do outro lado do oceano. Não sabiam o que havia para além da Lua e do Sol. Quantas fantasias e explicações criaram para tentar entender! De repente – como costumam fazer os pais e mães – não quiseram nos deixar nessa mesma angústia. Nos ensinaram, nos explicaram cada dia mais sobre tudo que foram descobrindo. Fomos destrinchando a vida e construindo a realidade e nos esforçando para transmitir cada resposta, cada minúcia, nome de planta, fórmula matemática, formação rochosa, organização política, guerras, zoologia, ciclo da água, etc, etc, etc. Ai do mal-estar do não-saber.  Nós próprios, em um bate-papo qualquer, quando surge essa zona obscura do não sei não corremos para o celular? É divertido, sim, eu também faço muitas vezes. Mas e aquele suspiro de meio minuto tentando imaginar uma explicação, morreu?

Penso que nos mergulhamos – ao longo dos últimos quinze anos mais ou menos – cada vez mais profundamente em uma tal realidade que nos barbariza. Fomos noticiados, jornalizados, documentados. Dia e noite a televisão nos mostra a realidade. Crime, doença, morte, acidente, devastação. Parece letra do Arnaldo Antunes. Peste bubônica, câncer, pneumonia. Raiva, rubéola, tuberculose, anemia. E o pulso ainda pulsa. Vamos vivendo, mas nossa mente não foi formatada pra encarar cada faceta mais terrível da vida, dia após dia, sem intervalo, sem refresco. Chegou a internet. Estamos libertos dos ditames da grande mídia! Mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Na minha adolescência o que mais circulava na rede e mais mobilizava a galera eram imagens de gente morta. Crimes ou acidentes famosos na tv, encontravam no www a liberdade de mostrar-se sem tapar as vergonhas. Demasiada realidade. Não há quem suporte.

Tenho uma frase do Tolkien aqui na minha mesa: É preciso fazer o mundo suficientemente reconhecível para nos ancorar em uma realidade e suficientemente mágico para nos transportar para fora dela. Parece que chegamos em um tempo onde nos preocupamos demasiadamente em tornar tudo reconhecível, só que esquecemos que é necessário também se transportar, momentaneamente, para fora do real. Isso é humano, fantasiar é humanizar-se também. Contamos histórias desde que desenvolvemos os rudimentos da comunicação. Precisávamos dizer das coisas fantásticas que víamos aos que não puderam acompanhar a caçada. Precisávamos contar sobre os seres que viviam no fundo do mar, sobre os mitos escondidos nas florestas, os seres que criavam o arco-íris, a tempestade. Para que a realidade possível fizesse um pouco mais de sentido ou doesse um pouco menos. Precisamos, ainda, falar do que se passa dentro de nós, dos nossos sonhos, ou então de um mundo paralelo todo possível na nossa mente. Isso nos dá sobrevida, nos faz respirar mais um pouco, nos transporta para outra dimensão, nos faz sentir a pele do outro, o pensar do outro e, ao mesmo tempo, nos conectar com nós mesmos.

Na ficção qualquer coisa pode ser real, pode ser verdade. Mas é no campo da ficção. Quando voltamos para a realidade, tantas vezes dolorosa, sabemos que não tem varinha mágica por aqui. A gente não é bobo. Até as crianças pequenas sabem que a cama tem que ser arrumada de verdade, mas também sabem que é infinitamente mais divertido fazer de conta que tem um poder mágico que faz os lençóis voarem sozinhos. Quando retornamos do lado de lá – onde a imaginação impera – estamos com os pés muito mais no chão, principalmente porque nosso coração pôde suspirar aliviado ao sair pra dar uma volta. Não sei bem quem nos convenceu que ficar no mundo da Lua faria a pessoa se desconectar. Nos desconectamos da realidade quando ela é demais. Nos desumanizamos para poder sobreviver ao excesso de barbárie e, normalmente, acabamos por criar mais barbárie porque a banalizamos.

Quando não há mais lugar para a ficção, o campo da verdade e da fantasia embaça e tudo vira uma massa disforme. Acabamos por ter essa sensação de que estamos em um filme. Ouvimos certas falas, ou vemos certas atitudes e pensamos: não pode ser que a pessoa esteja dizendo/fazendo isso, não é real. Ao mesmo tempo qualquer invenção da mente, do desejo, da vontade se torna real: Eu vi um vídeo no Youtube, o cara falou: a terra é plana. É verdade. A gente tem um afã de correr e mostrar todas as descobertas da ciência, as comprovações, as evidências. Mas não se trata disso. Não se trata de disputar o campo da verdade ou da realidade porque, nesse momento, não é mais possível reconhecer as bordas desse campo. Não há, de novo, fronteiras entre o que é ficção e o que é real.

Percebem como nos últimos dez anos a indústria do blockbuster no cinema entrou em um redemoinho de refilmagens? Hollywood tem retornado aos seus arquivos para buscar novidades? Para reapresentar ao mundo histórias que já foram contadas? Por um lado, é um bom sinal, fazemos o que for possível para continuar contando histórias, mas também nos mostra como tem sido difícil criar do ponto zero. A literatura amadora, o Wattpad, com muita produção adolescente está repleto das tais Fanfic’s. Ficção de fã. Costumeiramente os mais jovens pegam os personagens que amam e continuam a escrever a história. Cria-se um pouco, claro, mas eu sinto como se estivéssemos engessados, enferrujados para o mundo das invenções.

Há, nesse caldeirão da vida, sem dúvida, espaços onde a ficção parece ser mais celebrada. Netflix tem gerado muito conteúdo bom, com qualidade narrativa e estética. As lojas de ebook tem trazido escritores iniciantes à tona com mais facilidade do que nunca. Sim, é mais fácil hoje encontrar material sobre criatividade, criação, etc. Mas sinto que precisamos com urgência nos medicar com ficção e mais do que tudo, reestabelecer o lugar do mágico. Vamos parar de temer o mundo da fantasia. Vamos deixar de nos sobrecarregar com excesso de realidade dia e noite. Precisamos da fantasia. Sim, mais do que nunca precisamos ficar no mundo da Lua. Precisamos escrever e ler muita ficção. Precisamos reconhecer novamente essa fronteira. Atravessar para o lado de lá e voltar para olhar o mundo. Reconhecer as diferenças entre evidência e fantasia, entre desejo e convivência pacífica. Precisamos sair do quadrado da verdade, pegar a mala e entrar pelo túnel do terror, da vontade de matar alguém e quem sabe matar mesmo, do amor adolescente não correspondido, da viagem espacial com todos os seres inimagináveis que viram amigos, das dores sofridas por um estranho das quais eu nunca teria conhecimento na minha vida real e ao final da viagem fazer o caminho de volta. Olhar para nossa vida com todas essas experiências irreais na bagagem, toda essa fantasia partilhada por telepatia – como diria Sthephen King. Aí, quem sabe, possamos nos despojar um pouco de nossas certezas, nossos absolutismos da razão, respirar, e tentar fazer a realidade um pouco mais reconhecível.