O que incomoda quando olhamos para a infância?

Recentemente – como tem sido praxe na internet dos nossos tempos – houve uma grande mobilização e polêmica em torno de vídeo com crianças em festa de aniversário.

Lembrei-me, naquele momento, de um texto que escrevi no verão de 2019. Fui atrás dele. Quero partilhar com vocês porque algumas reflexões que reencontrei ali fazem sentido ainda. Mas, antes, deixe-me explicar de onde vem meu olhar.

Trabalhei quase dez anos diariamente com crianças pequenas. O que mais busquei nesse tempo foi a capacidade de observar e intervir o menos possível – Ah, e bater papo com os pequenos! Que eu adoro até hoje. Conviver com crianças pequenas, se estivermos dispostos e cientes do possível desconforto, é poesia e filosofia em forma bruta. Conseguir ouvir, acolher e vivenciar suas percepções, movimentos, desejos é de uma riqueza que, acredito, nenhuma experiência no mundo te dá. Mas, exige um enorme deslocamento. Estar de fato com uma criança demanda sairmos do nosso lugar, jeito de ver, de pensar, e abrir-se.

Voltar pra infância pode doer. Eu sei, agora todo mundo fica falando da tal criança interior e se já temos alguma resistência, dessensibilizamos para o assunto. Olhar a infância incomoda porque dói. “Mas eu tive uma ótima infância, eu não tenho traumas”. Não falo de infância destruída. A dureza disso não consigo mensurar. A questão é que há um inevitável confronto entre o mundo visto da perspectiva da criança e o mundo factual em que nós vivemos. As coisas que machucam, frustram, desconfortam uma criança nós não lembramos mais. Normalmente está no tipo de coisa à que os adultos respondem: “mas que bobagem!” ou “não foi nada!”. Para a criança, via de regra, é algo bem significativo. E pode ser que seja para ela e não para outra criança. O incrível livro “Quando eu voltar a ser criança” de Janusz Korczak consegue nos carregar de volta à essas perspectivas que já perdemos.

Crescer dói. Fomos bebês, estivemos entregues ao que bem fizessem com a gente. Fomos bem pequenos, não deu pra fazer tudo que desejávamos. Podia ser “bobo” como não poder dormir na casa de uma amiga, ter feito xixi na calça, apagar uma vela. Costumamos partir da ideia de que o “trauma” fica porque os adultos não souberam intervir. Sim, falamos isso porque, infelizmente, são gerações carregando diversas “bagunças emocionais”. Mas, o que eu quero dizer aqui é que pode até ser que uma criança conviva apenas com adultos equilibrados. Isso não a deixa imune a frustrações! Pelo simples fato de que, a dimensão daquele evento para ela, a maneira com que ela sentiu, ouviu, percebeu o que aconteceu e as intervenções posteriores nós não conseguimos dominar.

Por isso, o convite que as crianças nos fazem – apenas por serem crianças – é tão enriquecedor. Porque elas tem “o mapa da mina” mesmo sem saberem. Elas vão nos levar onde dói apenas por estarmos com elas. Sem dúvida são conteúdos inconscientes, porque na consciência já aprendemos a nomear como bobagem e “minha infância foi ótima”. O livro “O Drama da Criança Bem-dotada” da Alice Miller pode ajudar a entender melhor isso.

Daí a infância ser tão incômoda. Porque é capaz de trazer à tona nossas sombras mais bem guardadas. Reagimos das mais diferentes maneiras. Tá tudo certo sentir raiva de uma criança pequena. Tá errado despejar a raiva em cima dela. Mas tá tudo certo com os nossos sentimentos, todos que aparecem quando estamos com uma criança. Até mesmo a negação de todos eles e a pressa em “civilizar os pequenos selvagens”. O incômodo é sermos capazes de não apontar o dedo para a infância. De nos darmos conta que ali residem indivíduos muito além de nossas dores e projeções. Seres sem responsabilidade alguma com nossas frustrações, temores e vontade de controlar. Indivíduos vivenciando um longo e complexo desenvolvimento biológico, psíquico, social e por aí vai.

Dia desses compartilhei uma frase que dizia que olhar para a infância era revolucionário. De fato, acredito que, no dia em que as crianças estiverem em paz a humanidade caminhará numa direção totalmente nova.

Amanhã compartilho o texto que escrevi no verão de 2019, a partir de uma cena observada na beira da praia.

Obs: a foto destacada nesse post mostra parte das crianças que frequentavam minha primeira creche. Uma delas eu tenho muito clara na memória. Ela me empurrou do escorregador quando eu estava sentada lá em cima. Rolei até chegar esborrachada no chão. Lembro de ir chorando até as professoras e elas dizerem “não foi nada”. Lembro que não doía tanto fisicamente. Mas sim, a raiva que eu sentia. Eu era bem menor do que a menina. Essas são as “pequenas” coisas da infância que ficam. Se eu não acolher essa Bruna pequena, sozinha e com raiva, ela vai aparecer. Quer eu queira, ou não.

A idade das mães

Fala-se muito que as mulheres hoje em dia tem filhos “mais velhas”. Enquanto professora cheguei a ouvir de alguns pais: “sabe como é, somos pais velhos”.

Onde ficou estabelecido idade pra ser mãe? Que vozes dizem que o ideal é ser mãe na faixa dos vinte anos? Que estaremos secas e estragadas depois dos 35; que filhos de “pais velhos” são mal educados, mimados?

Tive a Luíza com 33 anos, minha mãe teve a primeira filha com 22. Como seria se eu tivesse a Luíza lá em 2009? Cursando Pedagogia. Saindo de uma depressão.

O discurso hegemônico vai dizer que somos uma geração de fracos que não quer passar trabalho. Bom era o tempo em que se fazia malabarismo pedalando bicicletinha de uma roda em cima da corda bamba sobre um tanque de tubarões. Em benefício de quem?

O mesmo discurso que ecoa entre nós dizendo que é preciso “ter pique” pra ser mãe. Seria exaustivo ser mãe? Seria solitário? O famoso discurso de que tudo é MIMIMI. Bom era aquele tempo. Os anos 80? Em que a licença maternidade era de 60 dias? Pena que inventaram esse feminismo, né?

As mães jovens dos anos 80 foram vantajosas para o sistema. A baixíssimo custo elas mantinham os homens trabalhadores limpos, bem vestidos, alimentados, assim como os futuros trabalhadores, frequentando a escola bem uniformizados, asseados, alimentados. Ainda é assim, para muitas mulheres. Pior ainda para as marginalizadas que muitas vezes tornam-se a única rede de apoio das mulheres que são parte do sistema.

Não é sobre a idade. É sobre escolhas conscientes. Nossos úteros não vão explodir com 40 anos. Estamos cada dia mais munidas de melhores informações para gestar, parir e educar crianças. Estamos nos questionando sobre exaustão materna, paternidade consciente, agressões às crianças.

Quem sabe aí esteja o maior problema, o que o sistema hegemônico detesta. Por que ainda é tão difícil olhar a infância? Porque precisaremos olhar para as mulheres, depois para o tempo, depois para a inutilidade das coisas. Aí o sistema todinho está fadado a se repensar.

Honro todas as mulheres que me antecederam e todas as que me acompanham na vida hoje. As que não tiveram escolha, as que estavam exaustas, as que foram mães jovens, as que não foram, as que não queriam ter sido. As que desejam, mas não conseguem, as que jamais serão mães de crianças, as que gestam ideais, que maternam transformação, que parem sonhos.

Amo todas, simplesmente porque são mulheres.

PÉS DESCALÇOS, CRIATIVIDADE

Essa semana entrei em uma loja de sapatos para crianças. Sempre achei estranho o fato de colocarmos calçados em seres que não caminham. A vendedora aproximou-se e perguntou quanto a Luíza “calçava” – minha filha estava sem meias nesse momento pois agora aprendeu a arrancar as benditas. Ri, dizendo que nem fazia ideia. A menina já me olhava com estranhamento. Chutou 16 ou 17, tentou enfiar o pé da Luíza. Eu, achando a maior graça. Fiquei correndo o olhar pela loja enquanto a menina tentava socar o pé da Luíza naquela forma. A moça já contrariada, disse: ela fica com o pé dobrado, não coloca o pé todo dentro do sapato.

No caso ela é um bebê e não devia fazer ideia do porquê alguém tentava colocar o pé dela naquela “caixinha”. Perguntei se não tinha algo mais molenga, de pano, sei lá. “Tem isso aqui” ela disse quase me atirando uma espécie de botinha de Neoprene. Então, veio a frase: Tu tem que acostumar ela com sapato, se não nunca vai usar.

Ah! Logo pra quem ela disse isso!

Gentilmente respondi: então vai ser como eu, que quase não usei sapatos porque nasci com os pés deformados, usei gesso e bota ortopédica. Chego em casa e a primeira coisa que faço é tirar o calçado!

Coitada. Ficou meio tensa. E contrariada também. Não falei com a intenção de constrangê-la. Eu realmente estava “de brincadeira” dentro daquela loja. Peguei meu caminho pra rua.

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Hoje fomos na pediatra, na saída passamos por uma senhora. Ela estava acompanhada de uma menina de uns 10 anos. “Gritou” essa frase: Olha o bebê! Pobrezinho, sem meia!

Sério, fazia muito tempo que eu não ficava extremamente p…. com alguém. Parei a caminhada me voltei em direção à ela e gritei de volta “mas tu é louca?!”. Mastiguei muitas frases depois disso.

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Tem alguma coisa na minha história que fala de pés. E é tão forte que fui procurar minha botinha de gesso para fotografar e percebi as sapatilhas de ballet ao lado. Gravei muitos pés para o curta “A Teia e o Ponto”. Tenho nervoso de ficar calçada muito tempo. Deve ser falta de terra no mapa astral.

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Sei que essa semana falei com jovens de 9º ano e esse assunto desdobrou-se em uma bela reflexão.

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Usei essa foto numa apresentação que fiz sobre criatividade para jovens essa semana. A ideia era falar sobre criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida, uma inteligência necessária para os nossos tempos. Conversamos sobre profissão, carreira, escolhas. No lugar de usar o slide “quem sou eu” e uma tentativa de currículo, coloquei essa foto e prometi que no final explicava. Eu ia falar sobre estar aberto ao erro, que não existe criação, inovação se você está preocupado em acertar. Seria hipócrita não me colocar no jogo. Eu mesma, que já vinha há meses pensando em como me apresentar profissionalmente. Eu que não tenho os diplomas acadêmicos pra me legitimar.

Descobrir nosso cerne, informar o que somos, mais do que aquilo que fazemos, é difícil sem os “selos do Inmetro”. O medo que temos da autonomia, da criatividade, da inovação é medo de “dar errado”, de não sermos validados por ninguém.

Passei minha vida de educadora acreditando até os ossos no currículo subjetivo. Na trajetória que cada um é capaz de construir. Se eu desejo saber, vou saber. Existe uma potência nesse movimento que nos ensinaram a esquecer. Então, como não me dei conta de que fiz isso comigo mesma?!

Disse pra eles que não faço ideia dos desafios que vão enfrentar. Não temos como saber que empregos eles terão, o que vai dar certo, quem vai ser bem sucedido. Escolher uma faculdade não é garantia de absolutamente nada. A própria ideia de precisar escolher entre mente ou coração é um paradigma velho. Dá pra andar de pés descalços e às vezes de sapato. Somos capazes de fluir entre as possibilidades. Isso é criatividade, é resolução de problemas.

Sugeri muitos livros, cursos livres, falas do TED, filmes. Há muitas formas de aprender, nuances e jeitos de expressar quem somos. A força que acreditamos ser necessária para “ensinar” alguém é energia desperdiçada. Aquele ser-humano é potente para achar seu próprio caminho, com os próprios pés.

Concluí minha fala e voltei a imagem. Contei minha história de vida “sem sapatos”. Essa menina descalça no meio do restaurante, imersa nas próprias invenções. Essa sou eu. Eu sou contadora de histórias. Ainda que não estivesse consciente, sempre fui. Com o ônus e o bônus. Vivendo a agonia de todas as histórias guardadas em mim, sofrendo com as fantasias sobre a realidade ao invés de criar de forma saudável. Acreditando, sonhando e inventando jeito. O que parece que não deu certo, as escolhas que pareciam sem sentido, as decisões polêmicas, os cursos, os lugares, as pessoas. Tudo existiu para que, um dia, eu pudesse ver o que eu faço e sentir que ali tem muito do que eu sou.

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Ps: Tá começando hoje, lá no meu instagram @ajornadadaescritora

11 dias de criatividade!

Junto com os alunos do 9º do Colégio Santíssima Trindade de Cruz Alta vou lançar uma proposta de criação por dia!

Participa por lá e libera tua mente!

Não foi amor à primeira vista

Eu não te amei desde o momento em que vi aparecer os dois risquinhos na fitinha. Eu não tinha certeza. Mas também não te amei quando vi o resultado do teste de sangue. Eu achava que podia estar doente quando fiquei “menstruando” por dez dias. Depois tinha o “saco gestacional com contornos irregulares” e a suposição do médico de que aquele sangramento fosse uma ameaça de aborto. Não dava pra ver embrião ainda. Era só uma bolinha na tela. Eu não te conhecia ainda. Era menino ou menina? Ouvimos teu coração bater enquanto tu parecia um girininho na água. Foi intenso. Mas, não era amor.

Tira sangue. Faz exames. Todo mês na obstetra. Tenta parecer que a vida é a mesma de antes. Que tudo acontece normalmente. Que gravidez não é doença. Eu ainda não te amava. Eu era eu. Bruna. Grávida. Tinha alguém crescendo lá dentro. Mas, era tão abstrato. Você ainda era uma imagem na tela. Eu não conversava toda hora contigo na barriga. Eu tinha medo de que não tivéssemos uma conexão. Eu estava fazendo certo? Eu te amava como “deveria”? Eu era uma mãe minimamente normal? Tentei estudar, me preparar, respirar, me exercitar, meditar.

Nos parimos. Tu chegou. Te olhei pela primeira vez e pensei “esse é meu bebê?”. Bebês parecem tão estranhos quando nascem. Já era amor, será? Ficamos internadas separadas. Eu tinha medo de não sentir o que deveria. Será que toda mãe se sente assim? Será que eu estou errada? A primeira vez que fiquei contigo no colo, na unidade neonatal, estávamos eu e teu pai juntos. Senti meu peito aquecido, um calor que expandia para o corpo todo e dava uma paz imensa. Voltamos para o quarto, eu e teu pai juntos, conversando e eu pensava se já te amava do jeito normal.

Quando retornei pra te ver algumas horas depois eu estava sozinha. Te devolvi pra enfermeira e caminhei até a porta como se cada passo meu doesse. Quando a porta se fechou atrás de mim e o corredor do hospital despontou, comprido, na minha frente o coração rachou e as lágrimas correram pelo meu rosto.

Não, eu não te amei assim que soube que estava grávida, nem assim que te vi. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas é tanto que se falava sobre filhos que achava que, no caso desse jeito de amar, poderia acontecer assim de imediato. Não. É no tecer dos dias que o amor se faz. Quem sabe por isso o começo seja tão sofrido para algumas mães. Porque insistimos nessa história de que já existe um amor inexplicável.

Eu repito muito para mim mesma “eu sou só um ser humano. E a Luíza veio para ser filha de seres humanos, ela tá ciente.” Quem crava essa bandeira pesadíssima de carregar de um suposto amor gigantesco e imediato na nossa alma? Lembro quando ouvi, há uns anos atrás, que quem ama incondicionalmente é deus. Que procurar amor incondicional nos outros seres humanos é injusto com eles e inevitavelmente frustrante para nós. As mulheres, como mães então, parecem ter que carregar especialmente esse fardo.  Durante a gestação e puerpério ouvi de dois homens algo assim: é muito diferente pra gente porque tu vai te dando conta só depois que nasce, vocês já tem essa conexão desde a barriga né? Para um deles, que é amigo próximo, disse de coração aberto: Não. Pra mim não foi assim. Amor é construção sim. Pra pai e pra mãe.

Tô dizendo que meu coração não doía de preocupação cada vez que eu deixava a Unidade Neonatal? Que quando a enfermeira veio me avisar que estávamos de alta eu não quis pular e gritar pelos corredores de alegria? Que eu não dava um pulo a cada suspiro teu durante as madrugadas do primeiro mês? Que eu não colocava a mão sobre a tua barriga pra ver se estavas respirando? Ah! Claro que sim! Foi intenso. Foi como ficar andando sobre uma corda bamba no precipício. Mas é amor? Não sei. Preocupação, zelo, responsabilidade, com certeza.

De repente comecei a sentir algo como os apaixonados, que esperam logo ver seu objeto de apreço. Sentia borboletas na barriga cada vez que nos encontrávamos. Me pegava longos minutos olhando uma foto tua, observando teus traços e sorrindo sozinha. Tu me deu teus primeiros sorrisos, teus olhos começaram a cruzar os meus. Fui sentindo tua pele macia. Maciaaaa. Meu deus como é macia! Os cabelinhos começando a despontar na cabeça careca.  Uma vontade de te ter no colo o tempo todo, te acalentar, te fazer dormir.

Não sei quando foi o exato dia, em algum momento te olhei e algo como uma fisgada atravessou meu espírito, expandiu-se aquecendo todo meu corpo e contraiu-se de medo. Senti que não poderia viver sem você. Não sei se isso necessariamente é amor ou apego, ou egoísmo, ou apenas o jeito torto do ser humano amar. Não temos aquele momento, como nos casais, em que transformamos em palavras o amor e aguardamos uma resposta. Não sei se tu me ama. Também não sinto que precisa me amar. Esse amor é meu, eu que me entreguei à ele. Simplesmente te amo. Agora. De um jeito imenso e apavorante, com o medo no encalço.

Te amo porque te conheço, sei dos teus risos banguelas, de teus olhos brilhantes, do toque incerto de tuas mãos pequenas. Não me sinto feliz porque você me fez mãe – esta aí um status que nunca almejei e sequer tenho certeza de que posso desempenhar tal façanha adequadamente – não me sinto em paz porque tu, supostamente, seria tudo na minha vida. Não, eu estou feliz e em paz somente porque amo. Porque tua existência me permite amar mais. Creio que estarei bem se tu não me amar tanto assim, se sentir que não fiz ou não fui o melhor possível. Sobreviverei se eu souber que está bem, que está feliz, que está em paz. E seguirei te amando. Esse amor doido e doído de quem olha, ouve, toca e convive, dia a dia, entregue a outro ser humano e então descobre a flecha, inevitável, atravessada sobre o peito.

Parto é jornada

Faz tempo queria escrever sobre isso. Mais precisamente desde o dia 8 de janeiro desse ano. Dia que Luíza nasceu. Agora sento para escrever, olho a lista dos cinquenta textos da pasta “em processo” (para escolher em qual vou trabalhar) e acabo abrindo o word num arquivo em branco e escrevo: parto é jornada. Abro um outro arquivo e releio meu relato de parto enviado ao grupo de gestantes do qual fiz parte. Me dou conta de que estamos na semana das mães. “Sou mãe agora”. Me dou conta disso também.

O parto da Luíza durou dez horas. Começou dia 7 e terminou dia 8 de janeiro de 2020 às 9h51min. Não. Não foi assim. Tem gente que se preocupa com quantas horas um trabalho de parto vai levar. Se apavora em pensar que pode durar mais de um dia. Às vezes se preocupa em abreviar, quem sabe até zerar essas horas. Não tem como, porque o parto é uma jornada que começa muito antes da primeira contração (mesmo que você nem venha a tê-la).

Eu tinha medo de parto porque no meu nascimento minha mãe teve uma hemorragia gravíssima, entrou em coma, quase morreu. Foi essa a história que eu ouvi, ou foi o jeito que chegou em mim, foi assim que eu arquivei na minha cabeça, no meu coração. Eu não desejei filhos desde sempre, nunca me vi mãe, sempre me achei muito doida pra tal tarefa, muito desnorteada. Mas depois de uns quatro ou cinco anos de namoro comecei a sentir que faria sentido – alguuuummmm dia – partilhar a cumplicidade, as risadas, o afeto sem medo, com mais alguém na nossa equação. Porém, podia ser alguém que já tivesse chegado no mundo. Adotar sempre foi algo que passou pela minha mente. Era, sem dúvida, a travessia do parto que me apavorava.

Em 2017 eu estive na Cidade Escola Ayni, em Guaporé, durante o feriado de Páscoa – a celebração da passagem, da travessia para outra condição. E foi assim, uma das experiências-portal que passei na vida, um divisor de águas. Não vou detalhar aqui porque daria um tratado e desnortearia – um talento que tenho – o texto. Mas foram uma série de vivências focadas no resgate da criança – da nossa, primeiro, para consequentemente resgatar (ou “deixar em paz” como dizia o Tiago Berto) as crianças do mundo. A culminância foi um ritual final em que todos os participantes formaram um corredor e entrávamos ali de olhos fechados. A jornada final. A morte. O nascimento. Travessia vida-morte-vida. Não sei como – nunca tive, óbvio, memórias do meu nascimento – mas quando fechei meus olhos vi o hospital, vi gente de branco, vi mãos me recebendo, me senti nascer. Mas ali, os parceiros daquela jornada tocavam suavemente meu corpo, acariciavam meus cabelos, me encorajavam. Durante aquele feriado a questão da luz e da sombra foi muito presente para mim e um dos facilitadores me disse baixinho ao ouvido durante a travessia final: “a semente precisa da escuridão para encontrar a luz”. Agora, me boto a pensar, o bebê também se nutre na escuridão até irromper para a luz.

Desse momento em diante eu percebi o quanto precisava revisitar meu nascimento. Não apenas a ideia de que minha mãe quase morreu porque eu nasci – que era a frase infantil que permeou minha mente por muito tempo – mas começar a olhar para mim e entender a origem do medo terrível da solidão, da morte, da sensação de que é preciso muita luta para sobreviver, de que o mundo é um lugar hostil. Passei a conversar mais com meus pais sobre isso, principalmente com o meu pai. Entender o que havia sido toda aquela vivência para ele, queria saber os detalhes – dentro do possível – de tudo que havia acontecido. Minha mãe – hoje eu entendo! – só diz maravilhas sobre os dois partos que teve, então ela não era referência! (rindo aqui).

Eu e Conrad vínhamos conversando cada vez mais sobre filhos. Mas, sabe aquela coisa “ah, acho que mais um ano e a gente pode tentar” e vai indo por mais um ano e mais um? Eu já não tomava hormônios há quatro anos e controlávamos bem. Quando, em 2019, decidi pelo meu “ano sabático de me tornar escritora”, veio com muita força uma sensação de “agora eu poderia ter um filho”. Prática dos 21 dias, japamala, mantra pra Ganesha muita abundância, erra a semana da ovulação e, na hora do namoro, manda às favas a camisinha! Pá! Grávida. Congela. Pânico. Um dos primeiros pensamentos? “meu deus eu vou precisar parir um bebê”. O doido? Quase todo o medo do parto se foi. Quando eu senti que não tinha o que pensar, que não tinha saída, que ia acontecer quer eu quisesse, quer não, o medo meio que foi embora.

Na primeira consulta com a obstetra que escolhemos – alinhada com as práticas que acreditávamos – falei brevemente da complicação que minha mãe teve no parto. Disse que eu só conheci minha mãe dois dias depois que nasci. Ela sorriu e disse que só tinha conhecido a mãe dela depois de doze dias. A médica que escolhemos tinha passado pela mesma coisa. Segue a vida e como boa geminiana que sou fui ler, ver filme e tentar me preparar o máximo possível (normalmente achando que eu não estava fazendo o suficiente) com a sensação de que essa questão do meu nascimento já estava vencida.

Fizemos uma oficina de preparação para o parto e descobrimos nossa doula. Vai indo e vai indo, quase fazendo de conta que tá tudo bem, tá tudo certo. Passa das 32 semanas e a Luíza está pélvica (de bumbum pro canal vaginal). Bebê pélvico no cenário obstétrico que temos em Porto Alegre é opção por cesariana. Tristeza, raiva, frustração, medo. Sim, é isso que as mães sentem meus amores, apesar de que se diga que é efusividade, redenção e sei lá mais o que. 34 semanas e tudo permanece da mesma forma. Primeiro encontro pré-parto com nossa doula, ela quer saber mais da nossa história e chego no “é…quando eu nasci”. Terminei a história e ela já mandou na lata “é isso, tu tá com medo do parto”. Vá lágrima rolando, porque no fundo eu sabia que isso estava lá em algum lugar, ainda. E tudo bem, porque nossas dores, nossos dilemas não se curam assim, do dia pra noite. É a famosa cebola que vai tirando e tirando camadas e tem sempre algo mais para aprofundar. Exercícios de spinning babies, engatinha pela casa, vira de ponta cabeça, faz acupuntura, floral, mantra pra Ganesha, o removedor de obstáculos.

37 semanas, pélvica. Culpa, raiva, tristeza, frustração. A doula conversa com a gente sobre a Versão Cefálica Externa. Medo. E eu me dando conta de que não tinha caminho fácil. Não tinha entregar pra deus. Quer dizer, tinha. Eu acredito em deus. Mas o meu deus é o do livre arbítrio. Ele me diz que espera que com minha inteligência e meu coração eu seja capaz de tomar boas decisões e não apenas que eu sente e chore ou que eu apenas olhe para as nuvens e clame (ou reclame) por ele. Houve algum momento no início da gestação que eu pensei que poderia só esperar. Aliás a cultura gestacional é essa né? “O que esperar quando se está esperando?”. Se tem alguma gestante por aí lendo, sinto dizer, mas não tem nada como “ficar esperando” na gravidez. Isso a gente faz quando senta na parada do ônibus. Se bem que, mesmo assim, é preciso caminhar até a parada e subir no ônibus quando ele chega! Não há passividade nem quando se espera esse tipo de coisa.  

Eu sentia, cada vez com mais força, que até o final tudo seria uma tomada de consciência e tomadas de decisão. Optamos pela VCE e eu tentando dar conta do medo terrível que tomava conta – e que depois do procedimento eu descobriria ter sido um pânico meio idiota. Ainda lembro da manhã subindo a serra, parando pra comer cuca na estrada. Minha mente dando um ar de complexidade em tudo, chegamos no consultório da doutora e não podia ser mais simples. Ela então. Uma bruxona, como dizia nossa doula. Quando ela olhou as ecografias anteriores e realizou uma no consultório disse que Luíza teria tudo para nascer pélvica mesmo, pelas medidas dela. Contou o porquê acreditava tanto nos bebês pélvicos. O nascimento do pai dela lhe inspirava. Ele nasceu de pé! Sim, não era nem o bumbum primeiro, eram os pés mesmo. Quando a parteira chegou, ele já tinha saído. Infelizmente, como a médica é de Encantado esperar a Luíza chegar sentada mesmo, não era uma opção. Mas, ela também nos explicou tudo e informou que havia muitas chances de sucesso na versão. Ela conversou com a Luíza durante a eco e só esse momento teria valido todo o esforço. Fiz as pazes com a situação. Na doçura daquela médica que admirava a determinação dos bebês pélvicos senti meu coração em paz com tudo que tinha feito até ali. Fomos para o hospital. Olha, não temos ideia das coisas que se perderam nessa cultura de dominar a gestação, o parto, o feminino. Deitei e em menos de um minuto – juro pelo meu deusinho – a Luíza estava virada e bem! Assim, tipo parteira do tempo da minha nona. Aliás, pensei muito na minha nona nesse processo. Ah! E a enfermeira que faz parte da equipe dessa médica eu já conhecia, ela foi uma das facilitadoras lá na Ayni em 2017! Jornada é isso, bifurcações, intersecções, cruzamentos, subidas e decidas, retas que parecem infinitas.

38 semanas e cefálica. Foi assim até as 40 semanas, mas eu tinha diabetes gestacional (Rá, não tinha falado disso ainda? Kkkk) precisávamos incentivar a moça a sair. Descolamento de membrana? Sim, vamos lá! Minha consciência já tinha assumido que ao mesmo tempo que não tínhamos controle de nada, tínhamos que ter decisão. Escolher, informar-se e optar pelos caminhos abraçando o que quer que aparecesse. Essa é a dicotomia louca da gestação e parto (da vida no caso)! Entregar-se com consciência. Fluir com responsabilidade. É deixar nas mãos do destino sabendo que ele vai vir te perguntar se é pra colocar no pote azul ou no amarelo. E com o nascimento, se você não estiver totalmente consciente e informada nessa jornada…bem. Vai acontecer, sem dúvida. É mais forte do que você, é a natureza, a força da criação agindo, mas saiba que pode ser que você pratique um divertido rafting no Três Coroas ou que seja somente arrastada pela correnteza. Tu que sabe.

O nascimento da Luíza foi a jornada dentro dessa jornada. Foi de uma intensidade que me pergunto se vou viver algum dia algo parecido. Tento voltar pra lá às vezes pra me conectar com aquela força descomunal que eu não sabia que tinha e sim, às vezes eu encontro culpa de mãe também, me perguntando se fiz tudo “certo”. Luíza precisou ser atendida pela equipe de pediatria. Não correu risco de vida, nada do tipo. Teve um quadro de desconforto respiratório. Precisou ficar em observação. Fiquei sozinha na sala de recuperação. Conrad foi ficar com ela, falar com a médica. O chão se abriu brevemente sob os meus pés, estava de volta no túnel, estava sozinha. “Ela está sozinha”, eu disse pra minha doula que estava ao meu lado ainda e ela rapidamente me puxou “essa é outra história, cada pessoa tem a sua!”.

Em um dos momentos ao lado da incubadora na Unidade Neonatal, já era noite, uma enfermeira trocava a fralda da Luíza e cantava “mãezinha do ceú…”. Eu chorava sentada ao lado, mas não como mãe. Chorava a bebê Bruna, porque num insight me dei conta de que nunca estive sozinha. Mesmo quando minha mãe estava longe alguém cuidou de mim, amorosamente, com dedicação e carinho, cantando uma música, quem sabe? Viver Luíza já me ensinou sobre não entregar tudo e só esperar, me ensinou a tomar parte mas ir no flow e tão profundamente me propôs curar a ferida do meu nascimento, mostrar que essa ideia de solidão e de morte pode estar bastante equivocada desde o início. Tá resolvido? Claro que não.

Parir é um breve portal do começo do longo caminho que temos pela frente. Por isso ele começa no nosso próprio parto. Consciente ou inconscientemente ele nos carrega para o início da nossa vida, costura pontos, desfaz amarras, mostra verdades. Não tem terceirização, não dá pra mandar ninguém no nosso lugar. No puerpério recebi a visita de um amigo que me contou que aquilo que os antigos alquimistas mais desejavam era passar por uma gestação e parto. Eles acreditavam que isso diferenciava tremendamente as mulheres. Sim, a gente toca a face de deus, meus queridos. Com todo seu esplendor aterrorizante e não há o melhor ou o pior jeito de viver tudo isso. Da minha experiência digo, é intenso e visceral para todos que vivenciam o parto, a diferença é que cada um está conectado com as questões de sua própria jornada.  

Monja Coen autografou um livrinho meu em 2007 – quando uma palestra e autógrafos dela na feira do livro tinham algo em torno de vinte pessoas – com uma frase que repito quase diariamente e que responde a quase todos os meus anseios: Intersomos, interconectados com a vida. Não há solidão ainda que estejamos sozinhos, cada um na sua jornada. Somos pontos de uma mesma teia. Paridos nessa existência e de partida, a cada segundo.

*a foto que ilustra esse post é um recorte de um momento do parto da Luíza, queria mostrar principalmente o quadro da sala de parto que está registrado na minha mente até hoje e que me ajudou tremendamente no processo.