Você se esforça?

Quando não tem ninguém te cobrando? Não tem chefe, não tem prazo, não tem ponto pra bater. Você se esforça? A narrativa do esforço é normalmente edificante, transformadora. Nos comunicamos assim. Tudo é uma luta, um esforço, uma guerra, uma correria. Sem dor, sem ganho, preciso matar um leão por dia, homem cria biblioteca com livros do lixão, não precisa chorar. Pare para observar os títulos de filmes de guerra: Fomos Heróis, Tempo de Glória, O Patriota, Coração Valente, Corações de Ferro, Santos ou Soldados, Honra e Lealdade. A guerra é o território da coragem, da glória, da honra. Vivemos pressionados pela sensação de que precisamos estar nos ferrando para estar dando certo. Se você não foi hospitalizado no último ano, bem, você não está se esforçando o bastante.

Quando perdemos – emprego, carro, namorado, a hora no dentista – nos sentimos desorientados por que organizamos nossa vida em torno do esforço para manter tudo na linha. Aprendemos que perder é horrível. Você sofre e a mente não quer te deixar aceitar o vazio. Aceitar que você pode ficar sem matar nenhum leão. No primeiro mês dessa recente jornada – que dura pouco mais de três meses – eu estava de um lado para o outro pensando no que eu devia fazer (sim, por que me aceitar escritora nunca era uma opção). Criei uma batalha pessoal e precisava ganhar. Seguir a razão, elaborar uma estratégia, agir como em um campo de guerra, fazer o certo. Peguei uma régua maluca e comecei a medir minha vida com tabelas financeiras, contas a pagar, entradas e saídas. Foi difícil aceitar que eu poderia não ter nenhuma estratégia. Que eu não ia ganhar, ou perder, nenhuma guerra. Se cogitamos deixar de nos esforçar corre o ego na frente e grita: vagabundo! Vai ficar sem fazer nada? Se você se dá conta e responde “é, vou ficar sem fazer nada e tá tudo bem” isso traz uma fé arrebatadora. Você se joga no colo do universo – Deus, Alá, Jeová, Tupã, Oxalá…– e confia. Agradeça quando perder! É ótimo! Se você aceitar, é como um reset no sistema. Um chacoalhão.

Nesse reset me vi sem escolha. Tinha que escrever. Ainda assim, quase transformei isso em uma nova guerra. Como lidar com a força das velhas narrativas internas? Houve dias em que me peguei trabalhando por horas a fio, sem parar para comer, sem ir ao banheiro. Claro, em muitos momentos era pura empolgação com o que eu estava vivendo, mas também fui me dando conta de que estava inconscientemente voltando a cumprir um protocolo.  Ninguém nos ensina a viver de sonho. Todos têm um plano bem arquitetado sobre qualquer outra coisa. Mas, viver com as coisas da alma? Quem sabe como fazer essa jornada? Eu não sei! Ninguém te ensina a fazer o “não-script”. Primeiro você vai listar todas as coisas que te impedem: o dinheiro, os filhos, a casa, o cachorro, o alinhamento dos astros. Tente esvaziar todas elas da sua cabeça. E aí? O que você faria com sua vida? Às vezes sai, em um bate-papo íntimo e descontraído: Aff! Eu vou é morar na praia e vender sanduíche! Nisso a galera se solta e começam: se eu pudesse abriria meu próprio café; queria ter mais filhos e ficar só cuidando deles; queria vender tudo e cair no mundo; queria viver da minha arte. Por que a gente não pega e faz? O que nos impede?

Quando decidi não ter mais nenhum emprego me dei conta de como a vida era cômoda. Comprometer-se com o trabalho que supostamente devemos fazer é ótimo. Alguém que trabalha, que bate o ponto no horário certo, que faz tudo conforme lhe pedem não poderá nunca ser taxado de descomprometido. Quantas vezes você já escutou coisas como: fulana é diferente, ela nunca reclama, tá sempre disposta! Beltrano é ótimo, cumpre tudo que é pedido para ele e ainda faz mais! Ah! Se todos fossem como a Ciclana, que faz o que pedimos sem questionar, não dá trabalho! Esforçar-se é muito cômodo. Fazemos o compromisso com algo externo. É fácil. Ninguém vai te chamar de relaxado se você tem um trabalho. Você pode até reclamar pelos corredores. Resmungar e murmurar. Mas acaba sendo aplaudido. Quanto mais envolvido com qualquer trabalho árduo, fatigante, extenuante de preferência, mais esforçado, dedicado, comprometido você é. Aprendemos que isso é bonito, que é esperado e desejado. Façamos de novo aquele exercício. E se? Amanhã você não precisa mais trabalhar. Alguma conjectura do universo mudou, a vida funciona de outro jeito e você pode ficar no sofá o dia inteiro. O resto da vida até! Com o que você se comprometeria? Tente responder isso falando apenas de você, esqueça as demandas externas. Provavelmente você ficaria perdido. Não tem ninguém lhe cobrando um caminho e você não vai saber para onde ir.  É confortável não precisar se comprometer conosco, não é? Quando nos colocamos no centro do processo, qual é a demanda? Se ninguém está nos cutucando somos capazes de nos movimentar em alguma direção?

Amo a sincronicidade das músicas quando estou escrevendo. Toca “Under Pressure” do Queen agora. Afastei-me disso tudo como um homem cego. Sentado em uma cerca, mas não funciona, continuo vindo com amor, mas ele está tão despedaçado. A insanidade ri, sob pressão estamos cedendo. Não podemos dar a nós mesmos mais uma chance. Por que não podemos dar ao amor mais uma chance? Porque o amor é uma palavra tão fora de moda e o amor te desafia a se importar com as pessoas e o amor desafia você a mudar nosso modo de nos preocupar conosco. Esta é nossa última dança. Isto somos nós mesmos sob pressão.

Ainda que eu tivesse decidido viver da minha arte, quando me vi efetivamente nessa situação ideal, me dei conta de que não tinha recebido nenhuma ferramenta para isso. Não somos educados para o protagonismo da nossa própria vida. Somos educados para o esforço. A palavra vem de exfortiare, sendo que EX significa fora. Ou seja, é a ideia de mostrar nossa força para fora e parece que não importa muito se isso está em consonância com sua força interior. Pode ser inclusive que o seu esforço esteja matando sua força interior. Somos educados de uma maneira que diz mais respeito a encaixar-se do que fazer uso de suas próprias formas. Como alguém que nasce gargalhando na terra dos tristes. Não somos educados a testar nossas potências ao máximo, errando o suficiente no processo de autodescobrir-se. Parece que o discurso entre nós, humanos, está sempre mais voltado ao que é preciso controlar. O ambiente, o outro, o corpo. Basta falarmos em deixar as crianças livres e o pessoal já tem calafrios! Insistimos mais no que é necessário entregar à nova geração – quais conteúdos, comportamentos, habilidades – do que sobre quem eles são ou como eles poderiam descobrir quem são.

Ai Bruna, a vida não pode ser um descaminho louco! Eu sei, é a primeira coisa que tememos. Fomos educados para temer a falta de controle. Eu digo para mim mesma essa frase quase todos os dias. Ai Bruna, você devia estar fazendo tal coisa agora! É difícil relaxar. Já percebeu como usamos relaxado ou relaxamento como sinônimos de sujo, malcuidado? Há umas semanas estava num bate papo de mesa de bar – literalmente – e surgiu algum assunto envolvendo os tempos obscuros que vivemos – sem dúvidas! – e logo a ideia de que sempre resistiremos. Pensei comigo – acho que falei também, com essa língua geminiana que Deus me deu! – eu não quero mais resistir, não quero uma vida de sobreviver, de resistência. Até quando vamos ficar nesse cabo de força?  

Essa educação nos trouxe até aqui, nesse ponto da história em que estamos em uma guerra infinita (tem filme com esse nome!). Todos estamos fazendo esforços descomunais para mostrar ao outro algo que ele não viu, que ele não sabe, que ele não entende. E se soltarmos? Se relaxarmos? Se de repente eu não tenho nada para dizer a ninguém? Nada para ensinar? Mas não podemos! Estamos sob pressão e é preciso sempre agir! Você não se cansa? Nosso HD veio com o protocolo “estar totalmente entregue, presente”, mas seguimos substituindo pelo protocolo “esforço” e é a partir dele que passamos a produzir. É preciso esforçar-se – muito! – para sair da sua essência, para ler quando todos leem, escrever quanto todos escrevem, sentar-se quando todos sentam. Deixe de seguir seus instintos, siga nosso protocolo. Aprenda a engolir o choro, a colorir dentro das linhas, a ouvir quando queremos que você ouça, a falar quando queremos que você fale. Geramos resultados pois nos esforçamos e quanto mais nos esforçamos mais geramos resultados. Somos educados na reatividade. Quanto mais alguém nos cutuca, mais respondemos.

Tem uma geração vindo aí que diz que quer viver com propósito. Li barbaridades sobre eles. As pessoas não gostam muito. Isso tira o eixo. Como assim você ousa viver sua vida como bem entende? Como assim não vai seguir o roteiro? Que ultraje! Essa geração que está adulta jovem agora – em torno dos vinte anos de idade – tem colocado em evidência nossa dificuldade em dialogar com novos sistemas. São taxados de descomprometidos, pessoas que querem tudo fácil. Cuidado! Não misture a pequena parcela disfuncional de uma geração, com toda a potência que ela tem. Haja visto os movimentos de adolescentes fazendo greve da escola. Além disso, são eles que não se encaixam nas necessidades da sociedade ou a maneira que vivemos está em profunda crise e alguns aspectos não fazem mais nenhum sentido mesmo?

Quanto às problemáticas que são trazidas – intolerância a frustração como a mais pungente – me pergunto: o fato de terem sido educados por pessoas que tiveram que ouvir sobre sofrer e então sofrer e sofrer para conquistar não teve efeito rebote? Quem sabe muitos desses pais ao se depararem com o chacoalhão que é ter um filho, perceberam a oportunidade de não seguir o protocolo – ao menos nessa área de suas vidas – e não quiseram mais dar seguimento ao sistema de sobrevivência. No entanto, eles não receberam ferramentas suficientes de autoconhecimento, estão construindo um mapa enquanto navegam. Quem de nós está lá para ajudar ao invés de criticar? Quase ninguém, de fato, porque afinal não sabemos, também nos falta descobrimento de si.

Ana Thomaz diz em um vídeo que assisti há uns dois anos, que liberdade é não ter escolha. Dentro de você existe o seu caminho e quando nos despojamos dos personagens, dos afazeres, podemos vislumbrar uma única trilha, a única possibilidade de sermos quem somos. Não há escolha porque é o que é. Por que não podemos falar sobre quem nós somos, o que sentimos, o que nos dá prazer, o que nos faz feliz? Quem de nós é realmente capaz de dizer que conteúdos as crianças que entram na escola hoje precisarão quando saírem, daqui há quatorze anos? Pelas mudanças que se operam no mundo, não fazemos ideia. Mas, quem sabe seja muito simples, pois trata-se de ser mais humano e menos máquina, de conhecer mais aqui dentro, de saber cuidar de si e do outro do que sobre como fazer força do lado de fora.

Desaparecer

Depois que o site foi ao ar encontrei um baita problema. Travei. Me peguei dando voltas e voltas em torno do que eu escreveria essa semana. Eu estava em êxtase. O site tinha ido ao ar, enfim! Tudo estava fluindo conforme eu havia esperado, só que travei. Fiquei em torno do próprio rabo pensando em qual temática abordaria. Eram tantas ideias, tantas coisas que estava vivenciando. Fazia anotações, pensei em planejar alguns temas iniciais…e aparecia um medo, aquela vozinha começando a soprar tem certeza que você dá conta? E se você falar tudo, não haverá mais nada para dizer! Esse texto vai ficar ruim, claro! Não solte tudo de uma vez.

Em 2016, quando estava a caminho de São Paulo para o lançamento da antologia do curso de escrita criativa, postei um texto do Osho no Facebook. Dizia algo mais ou menos assim: antes do rio mergulhar no oceano ele treme de medo, olha para a jornada que percorreu até ali e vê à sua frente uma vastidão em que ele desaparecerá.  Naquele momento eu estava em pânico. Era o avião, a cidade, a noite de autógrafos. Será que o rio estava pronto pra ser oceano? Acontece que aquele texto voltou à minha mente, querendo me dizer alguma coisa de novo. Sabe quando lemos algo uma segunda vez e parece que enxergamos coisas que nem tínhamos visto antes? Fui fisgada pela ideia de que o rio tinha medo de desaparecer.  

Sentei na frente do computador, coloquei umas músicas e tentei deixar fluir. Não como uma escrita que vai jogando tudo pra fora, mas queria entender um pouco o porquê estava travando. Afinal de contas, do que se tratava tudo isso? Na lista aleatória do YouTubeMusic tocou “Landslide” do Fleetwood Mac. Só fechei os olhos, quando me dei conta. Pode a criança dentro do meu coração se erguer ainda mais? Será que eu posso navegar através das mudanças de marés do oceano? Eu posso lidar com as estações da minha vida? Bem, eu tive medo de mudar, porque construí minha vida ao seu redor. Mas o tempo te deixa mais ousado, até as crianças envelhecem e eu também estou envelhecendo.

Construí minha vida ao redor de alguém que eu acreditava que existia. Era tão real, tão palpável. Se você não existir mais, o que eu faço? Abraçar tudo isso, mergulhar de cabeça no oceano que se desnuda a minha frente é deixar de ser tudo que fui até aqui. É me desfazer do EU que construí e tentar navegar pelas marés desses novos mares. A persona em torno da qual eu construí a minha vida, aquela que me fazia sentir sempre fora do tempo, fora de lugar, incapaz, insuficiente, aquela Bruna que passou por tantas crises de ansiedade, afogada em redemoinhos de pensamentos, tentando ir à superfície para verificar se algum dia isso teria fim, se algum dia seria feliz, aquela moça estava desaparecendo. Pode parecer que foi ontem ou que tenha exclusivamente a ver com a jornada dos últimos três meses – a jornada da escritora – mas esse rio é bem mais antigo e eu honro profundamente o entendimento que tenho hoje do quanto caminhei até aqui. Não houve mágica, nenhuma transcendência imediata, nem insight revelador – apesar de ter desejado muito as resoluções milagrosas. São as estações da vida e provavelmente haverá muitos outros invernos – e verões também!

Você já preparou uma muda? Nas que fiz até hoje aprendi a usar quase sempre o mesmo procedimento. Retirar as folhas de uma boa parte do raminho, deixando apenas o topo. Perder folhas sinaliza para a planta que ela deve expandir as raízes. É preciso despir-se, limpar, soltar, abrir espaço para, então, construir um novo começo. Para brotar em um novo lugar, para vicejar uma nova existência. A essência permanece. Estava ali o tempo todo, inclusive, mesmo quando não estávamos muito atentos e vai despontar de maneira vibrante com um pouco de cuidado. No entanto, o desnecessário precisa ir.

Enquanto escrevia a música trocou e começou “Here comes the sun” do Beatles. Dei uma risada, levantei os olhos da tela do computador e mirei a parede a minha frente. Era sobre felicidade. Eu estava tremendamente feliz, sentada no meu escritório olhando para parede em meio à minha escrita. Eu estava travada porque estava feliz, a velha Bruna não conhecia esse lugar. Fim de tarde e o sol esta mais para despedida do que para chegada. Mas aqui dentro de mim tem um sol. Um sol e eu estou feliz com ele. Esse sol que derrete toda a montanha gelada. Essas avalanches que vão carregando o desnecessário, deixando a mostra os cadáveres do passado, deslizando e voltando a ser água que corre por entre os vales, que volta a ser rio, que nutre o caminho, alimenta peixes, plantas, transforma pedra em areia. Que é tudo isso e não é nada disso e só segue. Para ser oceano, ser gota.

Como eu vim parar aqui?

É tipo aquela cena de “Eduardo e Mônica” do Legião Urbana. O Eduardo que só levava aquela vida certinha fica achando a festa estranha e aquela gente toda esquisita. Possível que ele tenha pensado “como diabos vim parar nessa situação.”

À essas alturas já perdi as contas de quantas vezes eu estava no trabalho, parecia fora do meu próprio corpo, olhando tudo que se passava na minha frente (eu era professora de crianças pequenas, então, belive me, era tipo “Onde está Wally?”) e me perguntando “como foi que isso aconteceu? quando foi que me tornei essa pessoa? em que lugar do caminho eu esqueci de mim mesma e me adaptei tão facilmente à isso tudo?”.

Existe uma pegadinha nessa vida que se chama ego. Ele é aquela vozinha em alguma das suas orelhas te dizendo “seja alguma coisa que você acha que DEVE ser e sinta-se muito importante depois de cumprir todos os seus DEVERES”. É a parte que garante que vamos ficar seguindo o script custe o que custar.

Só que, cada vez menos raramente, a gente sente um apertinho ali no lugar do coração. Às vezes na boca do estômago. Quer alguma coisa que não sabe o que é. Começa a ler umas coisas perigosas. Participa de retiros, vivências, partilhas. Experimenta umas sensações de prazer lá do fundo da alma. Daquele tempo que gargalhava solto quando tinha não mais do que quatro anos.

Aí o eguinho vai lá e diz “Fica quieto aí e taca ficha no serviço meu filho!”. Você fica obcecado com certas coisas. Já que a vida é isso, então eu DEVO ter alguma razão pra fazer tudo isso. Quem sabe eu TENHA que trabalhar mais horas e ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas, por que isso vai realmente significar que eu sou importante e bem sucedido. Quem sabe eu PRECISE transformar meu ambiente de trabalho, dizendo as pessoas o quanto tudo está errado e como todos deviam fazer tudo diferente para otimizar, aprofundar, melhorar as práticas. Ou então eu DEVA limpar, organizar, preparar, revisar, me ocupar e ocupar para que todos percebam o quanto eu realmente sou fundamental. Êta egotrip louca!

Mas, se você já tocou a casa preciosa da sua alma, garanto, é quase impossível voltar aos velhos trilhos. Você fica sacolejando enquanto o trem anda, totalmente sem lugar. “Que é que eu tô fazendo aqui?!”.

Aí é que são elas. Não tem ninguém pra te responder. Não tem. Esquece. Não tem mestre, guru, santo iluminado que vá te dizer o que fazer. Foi isso que fiz em 2018. Tinha que ter uma resposta pra essa sensação. Era mudar de trabalho, era mudar de casa, era mudar de cidade. Socorro! Alguém me manda o roteiro do filme que eu tô completamente fora da marcação de cena!! Minha alma ouviu, eu acho, e me deu um enorme pezão na bunda. Vai, criatura, e pára de incomodar!

Foi um pouco como quando fiz arvorismo. Muito medo de altura. Eu já tinha refugado uma vez. Na segunda visita ao mesmo lugar eu tinha que enfrentar a situação. Seria importante. Quis ir primeiro. Fiz a travessia naqueles postes, cheios de cabos e cordas em tempo recorde! Só não corri por falta de superfície. O vídeo é hilário, garanto. Fato é que ao final da travessia tinha uma tirolesa. Tinha uma tirolesa no final da travessia. Era mais alta. Pra mim, bem mais alta. Nem fiquei de pé na plataforma. A galera fazendo selfie e eu só queria descer de uma vez. Feliz com a conquista já feita até ali. Quando o monitor me chamou eu fui engatinhando até a beira da plataforma, rezando pra todos os santos que a m…. daquela corda estivesse bem presa, que se fosse a minha hora eu desmaiasse no caminho do chão. Olhei para o cara e pedi “tu me empurra faz favor, por que não vou pular não.” Fui de bundinha até a beirada e ele tocou minhas costas. Eu estava de olhos fechados e num átimo senti meu corpo solto no espaço. Solto e caindo. A velocidade aumentando e eu gritando como nunca. Abri os olhos. Me vi a metros do chão. Calafrio na espinha só de lembrar. Mas, eu precisava abrir os olhos por que não dá para seguir a vida por seguir. Também não dá pra se jogar e perder a paisagem do voo.

Estou nesse exato momento. Tomei o empurrãozinho meio inconsciente. Abençoado seja! Mas agora é que não vou perder de viver com os olhos bem abertos. Quer uma dica? Apenas pare de se perguntar. Não importa como você veio parar aqui. Só abra os olhos.